segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Um livro




Aquilo a que qualquer cidadão culto assistiu na semana do lançamento do livro do ex. Primeiro-ministro José Sócrates é inconcebível num país civilizado e desenvolvido (nem o prémio Nobel Saramago teve direito a tanta reverência). Por muito que doa, somos levados a concluir que a Nação, entre 2005 e 2011, esteve entregue a uma “elite” terceiro-mundista.
O tempo (ou a conjectura histórica) a que Silva Peneda (um dos últimos sociais democratas), político experimentado, antigo ministro dos governos do então Primeiro-ministro professor Aníbal Cavaco Silva, e pessoa decente se refere em “Mensageiro de Bragança” (24/10/XIII), teve um início e uma origem: Fevereiro de 2005. E um protagonista: José Sócrates (a quem o doutor Eduardo Catroga se referiu em entrevista recente) – e a tralha que o seguiu.
O livre arbítrio (e a vontade) pode transformar-nos em cidadãos decentes ou em cidadãos boçais (digamos, broncos). Cada um é livre de escolher. E a escolha de José Sócrates foi clara, fosse na entrevista estapafúrdia dada a determinada senhora, fosse nas declarações alarves na TSF.
Para quem diz que leu (10 vezes!) a Metafísica dos Costumes, de Kant; para quem citou Stuart Mill e Hannah Arendt, entre outros como Rawls, Gros, Bentham, Freud ou Agamben, é um tanto estranho que pouco (ou nada) tenha absorvido. A espalhafatosa conduta (do costume), assim no-lo diz. Uma conduta de leitor acostumado a Maquiavel, mas nunca a Kant. Porque a moral do filósofo de Königsberg toma os outros sempre como um fim, nunca como um meio. Kant pertenceu àquela Europa que produziu os tratados de Ética, a noção de humanidade, e as invenções científicas a que hoje todos estamos gratos.
Mas não foi o livro que aqui nos trouxe (sobre o mesmo já o doutor Pulido Valente disse o que havia para dizer), nem a lenda do PEC IV[1], nem as obras megalómanas do seu consulado que levaram o País à bancarrota[2] (ou seja, o País sem a ajuda exterior, teria apenas dinheiro para cerca de dois meses), nem os casos obscuros em que esteve envolvido (conhecidos de todos e denunciados em toda a imprensa). O que aqui nos trouxe foi a declaração sobre o convite que teria feito ao então presidente do Partido Social-democrata (à época na oposição), Pedro Passos Coelho (hoje Primeiro-ministro de Portugal).
Primeiro avançou que o havia convidado para vice-primeiro-ministro. O Primeiro-ministro desmentiu a declaração. Sócrates não tardou (como é seu costume) a tornear a questão (com o beneplácito da imprensa), agora afirmando que o havia convidado para uma coligação governamental.
Alguém escorreito, ao tempo, aceitaria cair naquela ratoeira? Coligar-se com quem estava a levar o país para o abismo e com quem se levantavam suspeitas de casos obscuros?
À época comentou-se isso. Porque razão volta Sócrates a essa questão? Pelas razões que se conhecem.
Armando Palavras



Nota:
Sobre a Metafísica, aconselhamos a tradução de Paulo Quintela (Edições 70, 1986). Sobretudo a Terceira Secção (pp. 93 – 117).


[1] Tanto o PEC IV como o PEC III, continham já todas as orientações políticas que a EU pretendia impor para alterar o modelo de organização do Estado português. E já no PEC II e PEC III se congelaram pensões e se cortaram os rendimentos da função pública. Tenha-se em atenção que no Orçamento de 2011 se criou o imposto sobre o 14º mês. Não era pois, o PEC IV que iria salvar o País da austeridade porque, recorde-se, foi com Sócrates que a politica de austeridade se iniciou, sendo ele próprio o primeiro a ceder às políticas neoliberais.
[2] Equivalente a 40% da riqueza anual do país. A pré-bancarrota de 1983 equivalia a cerca de 5%.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Os debates da segunda volta ...

  Esta segunda volta para as presidenciais de 2026, merece uma reflexão. Por mais simples que seja. Tanto o Dr. António José Seguro, como o ...

Os mais lidos