Aquilo a que qualquer cidadão
culto assistiu na semana do lançamento do livro do ex. Primeiro-ministro José
Sócrates é inconcebível num país civilizado e desenvolvido (nem o prémio Nobel
Saramago teve direito a tanta reverência). Por muito que doa, somos levados a
concluir que a Nação, entre 2005 e 2011, esteve entregue a uma “elite”
terceiro-mundista.
O tempo (ou a conjectura
histórica) a que Silva Peneda (um dos últimos sociais democratas), político
experimentado, antigo ministro dos governos do então Primeiro-ministro
professor Aníbal Cavaco Silva, e pessoa decente se refere em “Mensageiro de
Bragança” (24/10/XIII), teve um início e uma origem: Fevereiro de 2005. E um
protagonista: José Sócrates (a quem o doutor Eduardo Catroga se referiu em
entrevista recente) – e a tralha que o seguiu.
O livre arbítrio (e a vontade)
pode transformar-nos em cidadãos decentes ou em cidadãos boçais (digamos,
broncos). Cada um é livre de escolher. E a escolha de José Sócrates foi clara,
fosse na entrevista estapafúrdia dada a determinada senhora, fosse nas
declarações alarves na TSF.
Para quem diz que leu (10 vezes!)
a Metafísica dos Costumes, de Kant;
para quem citou Stuart Mill e Hannah Arendt, entre outros como Rawls, Gros,
Bentham, Freud ou Agamben, é um tanto estranho que pouco (ou nada) tenha
absorvido. A espalhafatosa conduta (do costume), assim no-lo diz. Uma conduta
de leitor acostumado a Maquiavel, mas nunca a Kant. Porque a moral do filósofo
de Königsberg toma os outros sempre como um fim, nunca como um meio. Kant
pertenceu àquela Europa que produziu os tratados de Ética, a noção de
humanidade, e as invenções científicas a que hoje todos estamos gratos.
Mas não foi o livro que aqui nos
trouxe (sobre o mesmo já o doutor Pulido Valente disse o que havia para dizer),
nem a lenda do PEC IV[1], nem
as obras megalómanas do seu consulado que levaram o País à bancarrota[2] (ou
seja, o País sem a ajuda exterior, teria apenas dinheiro para cerca de dois meses), nem os casos obscuros em
que esteve envolvido (conhecidos de todos e denunciados em toda a imprensa). O
que aqui nos trouxe foi a declaração sobre o convite que teria feito ao então
presidente do Partido Social-democrata (à época na oposição), Pedro Passos
Coelho (hoje Primeiro-ministro de Portugal).
Primeiro avançou que o havia
convidado para vice-primeiro-ministro. O Primeiro-ministro desmentiu a
declaração. Sócrates não tardou (como é seu costume) a tornear a questão (com o
beneplácito da imprensa), agora afirmando que o havia convidado para uma
coligação governamental.
Alguém escorreito, ao tempo,
aceitaria cair naquela ratoeira?
Coligar-se com quem estava a levar o país para o abismo e com quem se levantavam suspeitas de casos obscuros?
Armando Palavras
Nota:
Sobre a Metafísica, aconselhamos a tradução de Paulo
Quintela (Edições 70, 1986). Sobretudo a Terceira Secção (pp. 93 – 117).
[1] Tanto o PEC IV como o PEC III, continham já todas as
orientações políticas que a EU pretendia impor para alterar o modelo de organização
do Estado português. E já no PEC II e PEC III se congelaram pensões e se
cortaram os rendimentos da função pública. Tenha-se em atenção que no Orçamento
de 2011 se criou o imposto sobre o 14º mês. Não era pois, o PEC IV que iria
salvar o País da austeridade porque, recorde-se, foi com Sócrates que a
politica de austeridade se iniciou, sendo ele próprio o primeiro a ceder às políticas
neoliberais.
[2] Equivalente a 40% da riqueza anual do país. A
pré-bancarrota de 1983 equivalia a cerca de 5%.


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