Prémio Mies van der Rohe para
arquitecturas que resistem à crise
Joana Amaral Cardoso
30/04/2013 - 00:00
O Harpa fica junto ao mar
O prémio Mies van der Rohe de arquitectura foi
para a Islândia
O Lar de Idosos dos Aires Mateus, finalista do
Mies
A imponente sala de concertos
Harpa, símbolo da recuperação da crise leva prémio principal à Islândia. Menção
honrosa para a "arquitectura da crise" da Nave de Música do Matadero
de Madrid
Anguloso, translúcido, rendilhado, palco de um
jogo de luz e sombras e dominado pelos elementos - ar e água, no espírito e
tradição do quotidiano islandês. A sala de concertos e centro de conferências
Harpa, em Reiquejavique, foi ontem premiada pela Fundação Mies van der Rohe e
pela Comissão Europeia. Reflecte o mar do porto da capital islandesa e o céu do
Atlântico Norte e do Ártico e é um sinal: o Harpa "passou de ser um
símbolo da crise para ser um símbolo da recuperação face à crise", diz o
arquitecto português Pedro Gadanho, membro do júri que deu o Prémio Mies van
der Rohe aos ateliers Henning Larsen Architects e Batteríið Architects, em
colaboração com o estúdio do artista plástico Olafur Eliasson.
O júri do prémio de arquitectura contemporânea
procurava projectos "símbolo da união da Europa", que estabeleçam
"a arquitectura como activo para a projecção cultural" do velho
continente, explica Pedro Gadanho ao PÚBLICO. Na semana passada, os membros do
júri andaram pela Europa a visitar os cinco projectos finalistas em busca de um
vencedor, que encontraram na Islândia. À mistura, ingredientes como a
colaboração, o espaço público, sonho e economia.
O Harpa, implantado numa zona da cidade islandesa
que se quer reinventar, foi premiado por ter "captado o mito de uma nação
- a Islândia - que agiu conscientemente em defesa de um edifício cultural
híbrido a meio da Grande Recessão em curso", explica
Ao telefone do seu gabinete em Nova Iorque,
onde é curador de Arquitectura Contemporânea do Departamento de Arquitectura e
Design do Museum of Modern Art (MoMA), Pedro Gadanho não mergulha tanto na
tradição islandesa que esteve na base do projecto, mas sim no facto de
"ser um edifício feito com bastantes dificuldades e num contexto bastante
adverso". Lehman Brothers, final de 2008, o princípio da recessão e
"a Islândia foi o primeiro país a sofrer os efeitos da crise",
recorda o arquitecto. Essa crise "apanhou o projecto em plena construção e
convulsão". O Harpa "passou de ser um símbolo da crise para ser um
símbolo da recuperação face à crise", postula o único português de um júri
de nove elementos.
Mas o Harpa não é só um símbolo económico: é
também testemunho vibrante de "uma arquitectura nova, com novas
referências e com um programa muito desejado pelos islandeses - ter uma sala de
concertos". Gadanho destaca a colaboração dos arquitectos com Olafur
Eliasson na "construção da fachada", as "salas de concertos de
uma escala e espacialidade muito importantes", os "jogos de luz e a
colocação junto ao mar" numa estratégia de "crescimento da
cidade", que se está a reinventar na zona portuária.
Transição ou indecisão

A fundação e a Comissão Europeia - que destaca
a importância do sector da arquitectura nas indústrias criativas europeias,
empregadora de mais de 500 mil pessoas e que contribui com 4,5% para o PIB da
União Europeia - não premiaram só uma casa cultural numa nova artéria do
coração islandês. Atribuíram também uma menção honrosa para arquitectos
emergentes (prémio de 20 mil euros) à dupla espanhola María Langarita e Víctor
Navarro, pela transformação de um pavilhão de antigo matadouro na Nave de
Música Matadero
Esta dúplice aliança entre consagrados e
jovens arquitectos faz o crítico de arquitectura do PÚBLICO Jorge Figueira
identificar duas frentes neste prémio Mies van der Rohe 2013: "O prémio
principal para a sala de concertos Harpa remete ainda para a ordem da
arquitectura iconográfica e tecnológica que marcou a viragem do século e a primeira
década do século XXI; a menção honrosa à Nave da Música investe na ideia da
arquitectura como processo de instalação, neste caso no Matadero de Madrid, que
tem estado muito presente nos últimos anos no debate arquitectónico."
O universo do Mies 2013 faz-se também dos
quatro finalistas que ficaram pelo caminho, da shortlist em que estavam os
portugueses Aires Mateus com o seu Lar de Idosos de
Alcácer do Sal. Projectos que Pedro Gadanho diz terem sido seleccionados
por dizerem algo desta Europa e da arquitectura hoje. Espaços para um
continente envelhecido, por um lado, renovadamente multicultural - veja-se
outro dos finalistas, o projecto para um parque urbano intercultural em
Copenhaga, dos BIG Bjarke Ingels Group -, por outro.
Para Jorge Figueira, que participou no painel
de peritos que ajudou a coligir a lista de 355 obras de 27 países da União
Europeia de onde saíram os premiados, o Mies 2013 "capta a transição - ou,
visto de outro modo, revela uma indecisão - entre prosseguir o elogio a obras "redentoras",
marcadas pela escala de grande impacto, o uso de tecnologias avançadas, a
oportuna colaboração com artistas... e a ênfase na reabilitação de estruturas
existentes, com meios limitados, e com uma plasticidade criada pelo uso ao modo
informal".
Assim, podemos olhar para Harpa como "uma
obra do antigo regime iconográfico", "a vitória da imagem
"transparente" e do objecto icónico", e para a Nave de Música de
Madrid como um espaço que "revela, como arquitectura da crise, uma poética
do processual, decorrendo directamente da programação do espaço" ou mesmo
uma "vitória da não-imagem, e do processo irónico", diz o crítico. E
remata frisando que, "interessantemente, a arquitectura portuguesa tem
sido, por várias razões, estranha aos dois registos premiados este ano".
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| Aires Mateus - Lar de Idosos de Alcácer do Sal |
A primeira edição deste prémio bienal foi
ganha pelo arquitecto português Álvaro Siza com o projecto do Banco Borges
& Irmão, em Vila do Conde. Atribuído de dois em dois anos, a cerimónia de
entrega do 13.º prémio está agendada para 7 de Junho, no Pavilhão Mies van der
Rohe, em Barcelona, onde se assinalará o 25.º aniversário do galardão.


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