JOANA GORJÃO HENRIQUE
Nos EUA, as freiras sempre se
envolveram muito com a sociedade laica
Afinal, o que é que a Leadership
Conference of Women Religious tem para assustar a Igreja?
Não usam o hábito. Foram acusadas
pelo Vaticano de distorcer os ensinamentos da Igreja Católica e têm um bispo a
supervisioná-las. A combinação freiras e "feminismo radical" parece
não bater certo, mas foi assim que a Santa Sé classificou a Leadership
Conference of Women Religious (LCWR), uma organização-chapéu que representa 80%
das 57 mil freiras católicas americanas e que está actualmente no centro de um
"conflito" entre duas congregações no Vaticano.
Com cerca de 1500 membros eleitos
líderes das suas ordens religiosas, a LCWR tem estado nas notícias sobretudo
depois de há mais de um ano o Vaticano ter divulgado o relatório de avaliação
da Congregação para a Doutrina da Fé e decidido instaurar-lhes um processo de
reforma de cinco anos, liderado pelo arcebispo de Seattle, Peter Sartain, que
tem a missão de rever os estatutos, programas e publicações da LCWR.
Esta semana a LCWR voltou a estar
nos media, com João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de
Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, a ser citado a defendê-la e
o Vaticano a responder que Aviz foi mal interpretado pelos media. No domingo,
dia 5, num encontro internacional de freiras, Aviz disse que o processo tinha
sido desencadeado sem a consulta da sua congregação, que supervisiona o
trabalho das ordens religiosas. Citado pelo National Catholic Reporter, o
cardeal brasileiro confessou que só soube do processo depois de o relatório
formal da CDF estar concluído e que a forma como este foi conduzido lhe causou
"sofrimento". Dois dias depois, na tarde de terça-feira, o Vaticano
emitiu um comunicado a dizer que as interpretações das declarações do cardeal
feitas pelos media não eram fundamentadas e que num encontro entre Aviz e o
prefeito da CDF, Gerhard Müller, foi reafirmado o compromisso de renovar a
avaliação doutrinal à LCWR. Já em meados de Abril, depois de um encontro entre
a LCWR e a CDF, foi anunciado que o Papa Francisco subscrevia a reforma
iniciada pelo seu antecessor, Bento XVI.
Mesmo assim, a irmã Pat Farrell,
antiga presidente da LCWR, que lidou com este processo, tem esperança em
relação ao novo Papa - "é muito encorajador ter alguém que vê a liderança
de forma mais simples e dá prioridade ao serviço aos pobres, o que reflecte as
escrituras", diz-nos por telefone a partir dos Estados Unidos.
Nos EUA, várias vozes de crentes,
missionários e pastores católicos têm vindo a defender a LCWR. Alguns referiram
que, numa altura em que a Igreja americana estava a ser investigada por
escândalos de abusos sexuais de menores, o Vaticano mostrava-se mais duro com
as freiras do que com os padres suspeitos. Houve e há quem associe as reprimendas
à LCWR ao apoio que deu à reforma do sistema de saúde do Presidente Barack
Obama (que tem como objectivo universalizar o acesso à saúde).
O documento da CDF com as
conclusões da investigação é duro: acusa a LCWR de patrocinar programas e
apresentações com prevalência de temas "feministas radicais", de
defender a ordenação de mulheres e os homossexuais, colocando-se assim à margem
dos ensinamentos da Igreja, e de nas suas assembleias serem manifestas posições
"problemáticas" com "sérios erros teológicos e até
doutrinais". Mas não define o que entende por feminismo radical. Fala de
"comentários sobre "patriarcalismo" que distorcem a forma como
Jesus estruturou a vida sacramental na Igreja". Outra das reprimendas:
"Enquanto tem havido um grande investimento da LCWR em promover temas de
justiça social em harmonia com a doutrina social da Igreja, há um silêncio
sobre o direito à vida da concepção à morte natural, um tema que é parte do
debate sobre a eutanásia e o aborto nos EUA." Às críticas, a LCWR respondeu
que a investigação "se baseava em acusações não-fundamentadas",
resultado de "processos com falhas e falta de transparência": as
sanções impostas eram desproporcionais às preocupações levantadas e poderiam
comprometer a capacidade de as irmãs prosseguirem a sua missão, defendeu.
Liderança partilhada
Ao todo, com processo de
investigação e de reforma, a LCWR irá estar durante nove anos sob escrutínio do
Vaticano. Mas o que é que exactamente na LCWR assusta o Vaticano? "Não
faço ideia" do que o Vaticano interpreta como feminismo radical, diz-nos a
irmã Pat Farrell. "E isso nunca nos foi explicado por ninguém. É uma
definição muito vaga", acrescenta, numa das poucas declarações que faz
sobre o conflito com o Vaticano. A sua outra declaração é que a LCWR foi alvo
de "acusações muito vagas e algumas fora de contexto". "Houve
uma declaração feita nas nossas conferências que foi tirada do contexto, e que
parecia que nos estávamos a afastar de Jesus - isso é uma acusação muito séria
e não era a conclusão do discurso na conferência", declara.
Por enquanto, nem a LCWR nem o
arcebispo de Seattle querem falar do processo: do gabinete de comunicação de
Sartain disseram-nos que o silêncio com os media quer assegurar que o processo
decorre "de forma respeitosa"; a irmã Pat Farrell não quis comentar o
caso, mas aceitou explicar-nos por telefone o que é a LCWR.
Criada nos anos 1950, é apenas
uma das muitas conferências de liderança religiosa que existem no mundo.
"O nosso serviço é para com as líderes das congregações religiosas, para
as ajudar a liderar melhor", diz a também vice-presidente das Irmãs de São
Francisco de Dubuque, em Iowa. Organizada em 15 zonas geográficas, onde cada
região tem uma presidente, uma vice-presidente e uma tesoureira, a LCWR cria
encontros anuais para os quais convida oradores, na maior parte das vezes
teólogos, e aí tenta "antever o que são alguns dos temas e preocupações
numa igreja e mundo em mudança para os quais os líderes de congregações
precisam de se preparar". Parte da avaliação da CDF centrou-se na análise
destas conferências e discursos. "Procuramos oradores que ajudem a ter uma
contribuição nova. Também tentamos planear acções de justiça colectiva para o
ano, e temos experiências incríveis de oração juntos", conta.
Algum do trabalho da LCWR
consiste em criar, a nível regional e nacional, um fórum para o tipo de
preocupações que as congregações enfrentam, e por isso desenvolvem programas de
liderança, em coordenação com organizações que dão orientação para assuntos
legais e financeiros, por exemplo (não o fazem directamente, explica a antiga
presidente). "A liderança da LCWR trabalha arduamente para manter relações
com a Igreja, vamos todos os anos à reunião da conferência episcopal, para
tentar estabelecer diálogo e relações com os bispos, e aos escritórios do
Vaticano", diz, para explicar que não estão de costas voltadas para a
hierarquia católica.
Pat Farrell está na equipa da
presidência desde 2010. A organização nacional tem uma presidência tripartida:
a presidente eleita, uma presidente e a antiga presidente que exercem os cargos
durante um ano numa "estrutura de liderança horizontal", onde há
"uma grande dose de participação e colaboração".
Este é um modelo bastante
diferente da estrutura hierárquica da Igreja e Pat Farrell explica que é assim
porque acreditam num sistema de liderança partilhada, que não se foca na
personalidade, mas em processos colectivos e tenta "juntar a sabedoria
colectiva". "Acho que é um modelo que reflecte a forma de liderança
feminina porque é muito relacional, não-dominador, respeitador do todo. Não é
hierárquico e respeita os processos de decisão, o que honra toda a gente.
Estamos a falar da igreja como o lugar de todo o povo de Deus; a congregação é
todo o grupo das irmãs e por isso queremos uma estrutura que o reflicta."
O caso LCWR-Vaticano trouxe o
catolicismo nos EUA de novo para o debate. Dependendo da fonte de recolha de
dados (Gallup ou Pew Research, por exemplo), a percentagem de católicos
americanos varia, mas anda por volta de um quarto da população. Estudos apontam
para a perspectiva de crescimento (que alguns interpretam como resultado da
imigração latina). Mas o número de homens e mulheres que optam pelo serviço
religioso tem vindo a diminuir - os dados do Center for Applied Research in the
Apostolate (CARA) da Georgetown University mostram que, por exemplo, o número
de irmãs diminuiu mais de três vezes entre 1965 e 2012, mesmo assim sendo muito
superior ao dos homens (padres, irmãos).
Se analisarmos a composição
religiosa no mundo, os EUA aparecem como um dos países com maior diversidade. O
catolicismo americano formou-se em confronto com outras religiões, muitas delas
cristãs (a maioria é protestante). Estará também por detrás desta disputa uma
diferença de culturas no catolicismo?
"O papel das ordens
religiosas femininas americanas é provavelmente muito diferente do resto do
mundo", analisa ao telefone a partir de Nova Iorque a historiadora
Margaret Susan Thompson, professora na Maxwell School of Citizenship and Public
Affairs na Syracuse University que tem escrito sobre freiras americanas e
catolicismo. Contextualiza com o trabalho na gestão de hospitais e escolas no
qual se concentraram. "Para muitos dos cardeais no Vaticano isto é um
sistema diferente; as irmãs sempre se envolveram muito, tiveram que ter
reconhecimento do Governo para ter propriedade sobre o que geriam."
O esqueleto da Igreja
Nos EUA, as irmãs sempre se
envolveram com temas de justiça social, acrescenta-nos a historiadora Margaret
M. McGuinness, autora do livro Called to Serve: A History of Nuns in America e
professora na La Salle University. No fundo, as freiras têm sido o esqueleto da
Igreja católica nos EUA e a maioria da população conhece-as como professoras,
continua o padre James Martin numa conversa por telefone: durante décadas,
educaram grande parte da população imigrante, crianças e adultos jovens pobres.
É normal as freiras americanas
não usarem o hábito, um tema que regressou ao debate a propósito do conflito
com o Vaticano: ouviram-se bispos dizer que o declínio do catolicismo tem a ver
com isso - algo que McGuinness calcula ter levado à acusação de "feminismo
radical". Mas aquilo que terá mesmo "irritado" alguns bispos
americanos (foi deles que partiu a "queixa" à CDF), suspeita, será o
facto de fazerem lobby a favor da reforma do sistema de saúde:
"Acreditaram que era a forma de os pobres terem mais acesso a cuidados de
saúde, e foi aí que se tornaram mais incómodas porque ganharam poder político e
começaram a falar."
É um dos exemplos em que o
catolicismo se cruza com a política, o que leva alguns a classificarem como
"preocupantes" as acusações de feminismo radical. Margaret Thompson
diz mesmo que a acusação é "muito inadequada e perturbadora", ainda
para mais porque o documento do Vaticano não define o que entende por
"feminismo radical".
Estando a LCWR sob alçada do
Vaticano, a CDF tem "todo o direito" de "fazer uma revisão"
da sua organização, lembra, por seu lado, James Martin, também editor da
revista católica America. Mas sugere que teria sido "mais eficaz resolver
a questão a um nível local, ter um bispo a conversar com a LCWR e a levantar as
suas dúvidas." A crítica de que a LCWR tem concentrado demasiado tempo em
temas de justiça social exclui as irmãs envolvidas em vários tipos de
actividade e em trabalhos mais tradicionais, ensinando em escolas e trabalhando
em paróquias e contra o aborto ou a eutanásia, "os temas sobre a
vida".
O que será, afinal, o feminismo
radical aos olhos do Vaticano? "Esse é o problema", diz James Martin.
"O feminismo, entre algumas pessoas no Vaticano, é sempre visto como
feminismo radical, que é uma forma extrema de feminismo - por exemplo, excluir
os homens - e não conheço nenhuma irmã que partilhe essa posição." No
fundo, há uma falta de compreensão sobre o que é o feminismo - "que é
tratar todas as mulheres com dignidade", analisa.
Para Margaret Thompson, nunca as
irmãs seriam definidas como radicais por alguém que se considera feminista.
Subjacente ao discurso do Vaticano, diz, está a ideia de que "as mulheres
da LCWR não são capazes de promover a liderança - como se não tivessem
reflectido o suficiente sobre os assuntos que abordavam". Isso levanta
outras questões: "Em muitos casos, estas mulheres são altamente educadas,
experientes profissionalmente, bem-sucedidas e tratá-las como crianças,
dizer-lhes o que fazer, é ofensivo. O pressuposto por detrás disto é que as
mulheres não são capazes de ter uma liderança pensada, que precisam dos homens
para lhes dizer o que fazer e isso parece-me muito errado." A historiadora
conclui com uma ideia que foi repetindo várias vezes ao longo da conversa.
"Tenho ouvido muitas pessoas, mesmo bastante conservadoras, a perguntar,
indignadas: então os bispos têm sido criticados pelo seu papel na investigação
dos abusos sexuais, e quem é investigado são as irmãs?"


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