sábado, 11 de maio de 2013

O "feminismo radical" das freiras americanas


JOANA GORJÃO HENRIQUE

Nos EUA, as freiras sempre se envolveram muito com a sociedade laica 

Afinal, o que é que a Leadership Conference of Women Religious tem para assustar a Igreja?
Não usam o hábito. Foram acusadas pelo Vaticano de distorcer os ensinamentos da Igreja Católica e têm um bispo a supervisioná-las. A combinação freiras e "feminismo radical" parece não bater certo, mas foi assim que a Santa Sé classificou a Leadership Conference of Women Religious (LCWR), uma organização-chapéu que representa 80% das 57 mil freiras católicas americanas e que está actualmente no centro de um "conflito" entre duas congregações no Vaticano.
Com cerca de 1500 membros eleitos líderes das suas ordens religiosas, a LCWR tem estado nas notícias sobretudo depois de há mais de um ano o Vaticano ter divulgado o relatório de avaliação da Congregação para a Doutrina da Fé e decidido instaurar-lhes um processo de reforma de cinco anos, liderado pelo arcebispo de Seattle, Peter Sartain, que tem a missão de rever os estatutos, programas e publicações da LCWR.
Esta semana a LCWR voltou a estar nos media, com João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, a ser citado a defendê-la e o Vaticano a responder que Aviz foi mal interpretado pelos media. No domingo, dia 5, num encontro internacional de freiras, Aviz disse que o processo tinha sido desencadeado sem a consulta da sua congregação, que supervisiona o trabalho das ordens religiosas. Citado pelo National Catholic Reporter, o cardeal brasileiro confessou que só soube do processo depois de o relatório formal da CDF estar concluído e que a forma como este foi conduzido lhe causou "sofrimento". Dois dias depois, na tarde de terça-feira, o Vaticano emitiu um comunicado a dizer que as interpretações das declarações do cardeal feitas pelos media não eram fundamentadas e que num encontro entre Aviz e o prefeito da CDF, Gerhard Müller, foi reafirmado o compromisso de renovar a avaliação doutrinal à LCWR. Já em meados de Abril, depois de um encontro entre a LCWR e a CDF, foi anunciado que o Papa Francisco subscrevia a reforma iniciada pelo seu antecessor, Bento XVI.
Mesmo assim, a irmã Pat Farrell, antiga presidente da LCWR, que lidou com este processo, tem esperança em relação ao novo Papa - "é muito encorajador ter alguém que vê a liderança de forma mais simples e dá prioridade ao serviço aos pobres, o que reflecte as escrituras", diz-nos por telefone a partir dos Estados Unidos.
Nos EUA, várias vozes de crentes, missionários e pastores católicos têm vindo a defender a LCWR. Alguns referiram que, numa altura em que a Igreja americana estava a ser investigada por escândalos de abusos sexuais de menores, o Vaticano mostrava-se mais duro com as freiras do que com os padres suspeitos. Houve e há quem associe as reprimendas à LCWR ao apoio que deu à reforma do sistema de saúde do Presidente Barack Obama (que tem como objectivo universalizar o acesso à saúde).
O documento da CDF com as conclusões da investigação é duro: acusa a LCWR de patrocinar programas e apresentações com prevalência de temas "feministas radicais", de defender a ordenação de mulheres e os homossexuais, colocando-se assim à margem dos ensinamentos da Igreja, e de nas suas assembleias serem manifestas posições "problemáticas" com "sérios erros teológicos e até doutrinais". Mas não define o que entende por feminismo radical. Fala de "comentários sobre "patriarcalismo" que distorcem a forma como Jesus estruturou a vida sacramental na Igreja". Outra das reprimendas: "Enquanto tem havido um grande investimento da LCWR em promover temas de justiça social em harmonia com a doutrina social da Igreja, há um silêncio sobre o direito à vida da concepção à morte natural, um tema que é parte do debate sobre a eutanásia e o aborto nos EUA." Às críticas, a LCWR respondeu que a investigação "se baseava em acusações não-fundamentadas", resultado de "processos com falhas e falta de transparência": as sanções impostas eram desproporcionais às preocupações levantadas e poderiam comprometer a capacidade de as irmãs prosseguirem a sua missão, defendeu.

Liderança partilhada

Ao todo, com processo de investigação e de reforma, a LCWR irá estar durante nove anos sob escrutínio do Vaticano. Mas o que é que exactamente na LCWR assusta o Vaticano? "Não faço ideia" do que o Vaticano interpreta como feminismo radical, diz-nos a irmã Pat Farrell. "E isso nunca nos foi explicado por ninguém. É uma definição muito vaga", acrescenta, numa das poucas declarações que faz sobre o conflito com o Vaticano. A sua outra declaração é que a LCWR foi alvo de "acusações muito vagas e algumas fora de contexto". "Houve uma declaração feita nas nossas conferências que foi tirada do contexto, e que parecia que nos estávamos a afastar de Jesus - isso é uma acusação muito séria e não era a conclusão do discurso na conferência", declara.
Por enquanto, nem a LCWR nem o arcebispo de Seattle querem falar do processo: do gabinete de comunicação de Sartain disseram-nos que o silêncio com os media quer assegurar que o processo decorre "de forma respeitosa"; a irmã Pat Farrell não quis comentar o caso, mas aceitou explicar-nos por telefone o que é a LCWR.
Criada nos anos 1950, é apenas uma das muitas conferências de liderança religiosa que existem no mundo. "O nosso serviço é para com as líderes das congregações religiosas, para as ajudar a liderar melhor", diz a também vice-presidente das Irmãs de São Francisco de Dubuque, em Iowa. Organizada em 15 zonas geográficas, onde cada região tem uma presidente, uma vice-presidente e uma tesoureira, a LCWR cria encontros anuais para os quais convida oradores, na maior parte das vezes teólogos, e aí tenta "antever o que são alguns dos temas e preocupações numa igreja e mundo em mudança para os quais os líderes de congregações precisam de se preparar". Parte da avaliação da CDF centrou-se na análise destas conferências e discursos. "Procuramos oradores que ajudem a ter uma contribuição nova. Também tentamos planear acções de justiça colectiva para o ano, e temos experiências incríveis de oração juntos", conta.
Algum do trabalho da LCWR consiste em criar, a nível regional e nacional, um fórum para o tipo de preocupações que as congregações enfrentam, e por isso desenvolvem programas de liderança, em coordenação com organizações que dão orientação para assuntos legais e financeiros, por exemplo (não o fazem directamente, explica a antiga presidente). "A liderança da LCWR trabalha arduamente para manter relações com a Igreja, vamos todos os anos à reunião da conferência episcopal, para tentar estabelecer diálogo e relações com os bispos, e aos escritórios do Vaticano", diz, para explicar que não estão de costas voltadas para a hierarquia católica.
Pat Farrell está na equipa da presidência desde 2010. A organização nacional tem uma presidência tripartida: a presidente eleita, uma presidente e a antiga presidente que exercem os cargos durante um ano numa "estrutura de liderança horizontal", onde há "uma grande dose de participação e colaboração".
Este é um modelo bastante diferente da estrutura hierárquica da Igreja e Pat Farrell explica que é assim porque acreditam num sistema de liderança partilhada, que não se foca na personalidade, mas em processos colectivos e tenta "juntar a sabedoria colectiva". "Acho que é um modelo que reflecte a forma de liderança feminina porque é muito relacional, não-dominador, respeitador do todo. Não é hierárquico e respeita os processos de decisão, o que honra toda a gente. Estamos a falar da igreja como o lugar de todo o povo de Deus; a congregação é todo o grupo das irmãs e por isso queremos uma estrutura que o reflicta."
O caso LCWR-Vaticano trouxe o catolicismo nos EUA de novo para o debate. Dependendo da fonte de recolha de dados (Gallup ou Pew Research, por exemplo), a percentagem de católicos americanos varia, mas anda por volta de um quarto da população. Estudos apontam para a perspectiva de crescimento (que alguns interpretam como resultado da imigração latina). Mas o número de homens e mulheres que optam pelo serviço religioso tem vindo a diminuir - os dados do Center for Applied Research in the Apostolate (CARA) da Georgetown University mostram que, por exemplo, o número de irmãs diminuiu mais de três vezes entre 1965 e 2012, mesmo assim sendo muito superior ao dos homens (padres, irmãos).
Se analisarmos a composição religiosa no mundo, os EUA aparecem como um dos países com maior diversidade. O catolicismo americano formou-se em confronto com outras religiões, muitas delas cristãs (a maioria é protestante). Estará também por detrás desta disputa uma diferença de culturas no catolicismo?
"O papel das ordens religiosas femininas americanas é provavelmente muito diferente do resto do mundo", analisa ao telefone a partir de Nova Iorque a historiadora Margaret Susan Thompson, professora na Maxwell School of Citizenship and Public Affairs na Syracuse University que tem escrito sobre freiras americanas e catolicismo. Contextualiza com o trabalho na gestão de hospitais e escolas no qual se concentraram. "Para muitos dos cardeais no Vaticano isto é um sistema diferente; as irmãs sempre se envolveram muito, tiveram que ter reconhecimento do Governo para ter propriedade sobre o que geriam."
O esqueleto da Igreja
Nos EUA, as irmãs sempre se envolveram com temas de justiça social, acrescenta-nos a historiadora Margaret M. McGuinness, autora do livro Called to Serve: A History of Nuns in America e professora na La Salle University. No fundo, as freiras têm sido o esqueleto da Igreja católica nos EUA e a maioria da população conhece-as como professoras, continua o padre James Martin numa conversa por telefone: durante décadas, educaram grande parte da população imigrante, crianças e adultos jovens pobres.
É normal as freiras americanas não usarem o hábito, um tema que regressou ao debate a propósito do conflito com o Vaticano: ouviram-se bispos dizer que o declínio do catolicismo tem a ver com isso - algo que McGuinness calcula ter levado à acusação de "feminismo radical". Mas aquilo que terá mesmo "irritado" alguns bispos americanos (foi deles que partiu a "queixa" à CDF), suspeita, será o facto de fazerem lobby a favor da reforma do sistema de saúde: "Acreditaram que era a forma de os pobres terem mais acesso a cuidados de saúde, e foi aí que se tornaram mais incómodas porque ganharam poder político e começaram a falar."
É um dos exemplos em que o catolicismo se cruza com a política, o que leva alguns a classificarem como "preocupantes" as acusações de feminismo radical. Margaret Thompson diz mesmo que a acusação é "muito inadequada e perturbadora", ainda para mais porque o documento do Vaticano não define o que entende por "feminismo radical".
Estando a LCWR sob alçada do Vaticano, a CDF tem "todo o direito" de "fazer uma revisão" da sua organização, lembra, por seu lado, James Martin, também editor da revista católica America. Mas sugere que teria sido "mais eficaz resolver a questão a um nível local, ter um bispo a conversar com a LCWR e a levantar as suas dúvidas." A crítica de que a LCWR tem concentrado demasiado tempo em temas de justiça social exclui as irmãs envolvidas em vários tipos de actividade e em trabalhos mais tradicionais, ensinando em escolas e trabalhando em paróquias e contra o aborto ou a eutanásia, "os temas sobre a vida".
O que será, afinal, o feminismo radical aos olhos do Vaticano? "Esse é o problema", diz James Martin. "O feminismo, entre algumas pessoas no Vaticano, é sempre visto como feminismo radical, que é uma forma extrema de feminismo - por exemplo, excluir os homens - e não conheço nenhuma irmã que partilhe essa posição." No fundo, há uma falta de compreensão sobre o que é o feminismo - "que é tratar todas as mulheres com dignidade", analisa.
Para Margaret Thompson, nunca as irmãs seriam definidas como radicais por alguém que se considera feminista. Subjacente ao discurso do Vaticano, diz, está a ideia de que "as mulheres da LCWR não são capazes de promover a liderança - como se não tivessem reflectido o suficiente sobre os assuntos que abordavam". Isso levanta outras questões: "Em muitos casos, estas mulheres são altamente educadas, experientes profissionalmente, bem-sucedidas e tratá-las como crianças, dizer-lhes o que fazer, é ofensivo. O pressuposto por detrás disto é que as mulheres não são capazes de ter uma liderança pensada, que precisam dos homens para lhes dizer o que fazer e isso parece-me muito errado." A historiadora conclui com uma ideia que foi repetindo várias vezes ao longo da conversa. "Tenho ouvido muitas pessoas, mesmo bastante conservadoras, a perguntar, indignadas: então os bispos têm sido criticados pelo seu papel na investigação dos abusos sexuais, e quem é investigado são as irmãs?"




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