sábado, 20 de abril de 2013

Lituma nos Andes de Mario Vargas LLosa


Mario Vargas LLosaColocados nos Andes, o cabo da Guarda Civil, Lituma, e o seu ajudante Tomás, irão confrontar-se com três desaparecimentos estranhos no acampamento mineiro de Nacos. Nas investigações todos se calam, adensando, deste modo, o mistério à sua volta.
Sob a ameaça constante dos guerrilheiros maoístas do Sendero Luminoso (oficialmente denominados por Partido Comunista do Peru), os “terrucos”, que na década de 80 do século passado, marcou o Peru com uma data de acções violentas, terroristas, justiçando pessoas em julgamentos populares, os dois guardas-civis têm como missão supervisionar aquela que era a última esperança de uma vida melhor para os que permaneceram depois de a exploração mineira ter terminado na região: a construção da estrada há muito ansiada pela população local, geradora de emprego.
Nascido e criado na zona costeira do Peru, Lituma tem dificuldade em perceber o carácter desconfiado dos serranos, bem como as suas superstições e crenças. Os momentos de paz, adquire-os o cabo Lituma pela noite dentro, quando no catre partilha com o seu ajudante a história do seu amor com Mercedes, a bailarina que o levou ao desterro naquele fim de mundo.
A narrativa linear é interrompida bruscamente por uma série de histórias que se cruzam e entrecruzam, que por vezes se tocam no emaranhado de personagens que as compõem. Aliás, à boa maneira latino-americana, bem presente em Garcia Marquez ou mesmo Juan Rulfo (o mestre de todos). De Lituma, a personagem principal, pouco se sabe.
Com o desenrolar da narrativa, ao conhecer Escarlatina na mina de Santa Esperanza, o leitor vai-se apercebendo do misterioso caso dos três desaparecidos. Relacionado com a barbárie cultural, ligada a tempos mitológicos e supersticiosos, tendo como pano de fundo os “apus” (Senhores), antigos espíritos dos cerros, e a conspiração orquestrada pelo sinistro e depravado casal de cantineiros: Dionísio e Dona Adriana.
Lituma é, por assim dizer, no meio do caos andino e cósmico, um arremedo da lei. Aquela paisagem avassaladora que de vez em quando se desmorona criando avalanches gigantescas (numa das quais está presente o cabo, saindo ileso), é ainda o cenário politico que vitima incautos turistas franceses e de uma ritualização da violência e da animalidade, que remonta aos mais primevos costumes humanos, encabeçado por Dionísio (também nome do deus grego da embriaguez, cujas festas e carnavais estão na origem da tragédia) e Adriana, casada em primeiras núpcias com Timóteo que libertou o seu povo de um “pishtaco” (vampiro para os andinos)
Existe em LLosa, nesta narrativa, uma tentativa de recorrer aos mitos gregos, à paródia do mítico e do degradado; a Teseu ou Perseu; a Ariadne.
Na verdade, naquele isolamento andino, tudo gira em torno da violência. Do canabalismo, ao massacre de vicunhas pelos “terrucos”. Mas termina bem, à maneira antiga. Tomasito reencontra a mulher amada, Mercedes, que o procura naquela região inóspita. Nessa noite tornou a encontrar o paraíso, enquanto Lituma, promovido a sargento, descia a vereda sinuosa para se embebedar na cantina e, finalmente, descobrir o mistério dos três desaparecidos.
Uma bela narrativa!
Armando Palavras

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