segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Livro Novo - «O cão que pensava demais»

 JORGE  LAGE


Livro Novo - «O cão que pensava demais» É um romance sobre memórias de José António Saraiva, que deve ter terminado, antes da sua partida abrupta deste mundo, quando ainda tinha muito para nos dar, como comentador político e Historiador.

«O cão que sabia demais» conta a vida de um guarda-nocturno olissiponense, profissão a que se adaptou depois do ruir das empresas piscatórias que transbordavam o pescado na Docapesca e como muitas outras empresas que havia no 25 de Abril foram fechando como um baralho de cartas que se abate devido a qualquer desequilíbrio que as toma. Neste caso era o vírus da miséria do comunismo.

É também um livro de memórias da construção que se tomou sobre Lisboa, onde terrenos inóspitos iam cedendo lugar a bairros como o de Miraflores perto do Restelo e da Calçada da Ajuda.

É, ainda, uma homenagem aos guarda-nocturnos que tornavam a capital mais segura, durante a noite, sendo um gurda-nocturno, ex-trabalhador da Docapesca, a personagem principal.

Todo o enredo do romance gira à volta dum guarda-nocturno e do seu rafeiro, Messias, que adoptou; duma prostituta, que até se tornou sua esposa e empresária de sucesso; e de uma sopeira, sua amante, que engravidou e teve de regressar à província nabantina.

Mas, um afecto quase doentio, entre ele o cão, acaba por relegar a esposa Sara para segundo plano. Não estou a exagerar, porque ao decidir abater o cão, aparecendo a esposa no momento de apertar o gatilho, vira a pistola para esposa atingindo-a. Uma pincelada de tragédia, dando um bom enredo para um filme ou para uma peça de teatro.

O livro revela-nos como se deve cuidar dum cão, fala de urbanismo e de sucessos empresariais de bairro.

Assim, revela-se um bom campo de estudo para sociólogos, etnólogos, tendo, ainda, umas pinceladas de urbanismo.

Lê-se com avidez e vontade de chegarmos ao fim. É uma alegoria ao final do Império, num tempo em que quase só restavam sombras e memórias.

Esta leitura fez-me assentar o desconforto e muita saudade que tive com a precoce partida de António José Saraiva, que com o seu exemplo de «homem antes quebrar que torcer» tanto me inspirava e me motivava.

O livro, «O cão que pensava demais», tem 400 páginas, editado pelas «Edições Nelson de Matos».

 

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