Livro
Novo - «O cão que pensava demais»
– É um romance sobre
memórias de José António Saraiva, que deve ter terminado, antes da sua partida
abrupta deste mundo, quando ainda tinha muito para nos dar, como comentador
político e Historiador.
«O
cão que sabia demais» conta a vida de um guarda-nocturno olissiponense,
profissão a que se adaptou depois do ruir das empresas piscatórias que
transbordavam o pescado na Docapesca e como muitas outras empresas que havia no
25 de Abril foram fechando como um baralho de cartas que se abate devido a
qualquer desequilíbrio que as toma. Neste caso era o vírus da miséria do
comunismo.
É,
ainda, uma homenagem aos guarda-nocturnos que tornavam a capital mais segura,
durante a noite, sendo um gurda-nocturno, ex-trabalhador da Docapesca, a
personagem principal.
Todo
o enredo do romance gira à volta dum guarda-nocturno e do seu rafeiro, Messias,
que adoptou; duma prostituta, que até se tornou sua esposa e empresária de
sucesso; e de uma sopeira, sua amante, que engravidou e teve de regressar à
província nabantina.
Mas,
um afecto quase doentio, entre ele o cão, acaba por relegar a esposa Sara para
segundo plano. Não estou a exagerar, porque ao decidir abater o cão, aparecendo
a esposa no momento de apertar o gatilho, vira a pistola para esposa atingindo-a.
Uma pincelada de tragédia, dando um bom enredo para um filme ou para uma peça
de teatro.
O
livro revela-nos como se deve cuidar dum cão, fala de urbanismo e de sucessos
empresariais de bairro.
Assim,
revela-se um bom campo de estudo para sociólogos, etnólogos, tendo, ainda, umas
pinceladas de urbanismo.
Lê-se
com avidez e vontade de chegarmos ao fim. É uma alegoria ao final do Império,
num tempo em que quase só restavam sombras e memórias.
Esta
leitura fez-me assentar o desconforto e muita saudade que tive com a precoce
partida de António José Saraiva, que com o seu exemplo de «homem antes quebrar
que torcer» tanto me inspirava e me motivava.
O
livro, «O cão que pensava demais», tem 400 páginas, editado pelas «Edições
Nelson de Matos».

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