A fundação de Portugal raramente
foi narrada como um simples relato de factos, servindo, antes, como um espelho
moldável das necessidades de cada época. De um Portugal guerreiro e cristão,
idealizado para legitimar a coroa na Idade Média, ao herói nacionalista e
nacionalizador da ditadura, o berço da nação foi, ao longo dos séculos, pintado
com as cores da ideologia dominante. Esta dinâmica acabou por transformar a
história de D. Afonso Henriques num mito conveniente, muito mais moldado pela
pena dos vencedores do que pela frieza dos arquivos.
A consagração religiosa
do mito fundador encontrou o seu zénite na Batalha de Ourique, meticulosamente
transformada pela Igreja no verdadeiro ato de batismo da nação. Ao converter um
confronto militar numa intervenção divina – onde o próprio Cristo teria
aparecido a D. Afonso Henriques -, o clero não só justificou a independência
como uma missão sagrada e providencial, mas garantiu também o seu próprio
monopólio moral sobre o Estado. Cimentou-se, assim, a ideia de que Portugal
nasceu por decreto celestial e não por mera disputa política de poder.
https://guimaraesagora.pt/a-batalha-de-sao-mamede-e-os-mitos-da-nossa-fundacao/
%20-%20C%C3%B3pia%20-%20C%C3%B3pia.png)
Sem comentários:
Enviar um comentário