sábado, 23 de maio de 2026

A Batalha de São Mamede e os Mitos da nossa Fundação

A fundação de Portugal raramente foi narrada como um simples relato de factos, servindo, antes, como um espelho moldável das necessidades de cada época. De um Portugal guerreiro e cristão, idealizado para legitimar a coroa na Idade Média, ao herói nacionalista e nacionalizador da ditadura, o berço da nação foi, ao longo dos séculos, pintado com as cores da ideologia dominante. Esta dinâmica acabou por transformar a história de D. Afonso Henriques num mito conveniente, muito mais moldado pela pena dos vencedores do que pela frieza dos arquivos.

A consagração religiosa do mito fundador encontrou o seu zénite na Batalha de Ourique, meticulosamente transformada pela Igreja no verdadeiro ato de batismo da nação. Ao converter um confronto militar numa intervenção divina – onde o próprio Cristo teria aparecido a D. Afonso Henriques -, o clero não só justificou a independência como uma missão sagrada e providencial, mas garantiu também o seu próprio monopólio moral sobre o Estado. Cimentou-se, assim, a ideia de que Portugal nasceu por decreto celestial e não por mera disputa política de poder.

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