A preocupação dessa gente, que de resto enxovalha
com jovialidade os homens, os brancos, os heterossexuais, os “ricos”, os
cristãos ou os judeus, não são as calamidades, mas as liberdades.
Há racismo em Portugal? Claro que sim:
ainda há dias, uma deputada (socialista) apresentou um relatório que aconselha
quotas para negros e ciganos em sectores sortidos. Chamar “positiva” a esta
forma de discriminação é mera cosmética. É evidente que o principal aqui é a
discriminação, que no fundo pressupõe a inferioridade dos beneficiários das quotas
– e garante que, sem ajuda, as “minorias” são incapazes de chegar onde chega a
“maioria” (?). É igualmente notório que nenhum negro ou cigano com um pingo de
dignidade aceitaria por exemplo entrar no ensino superior à custa de medidas
que decretam a sua inata estupidez. Sucede que, suponho, a percentagem de
estúpidos entre negros e ciganos será próxima da percentagem de estúpidos entre
brancos e esquimós, pelo que as propostas descaradamente racistas do tal
relatório teriam sempre quem as aproveitasse.
O chato, porém, não é que se atafulhe o
ensino, a política ou o que calhar com tontinhos. A política é o que é, e a
universidade que acolhe Boaventura Sousa Santos poderia acolher uma embaixada
da tribo Sentinela sem qualquer decréscimo de sofisticação intelectual. O chato
é os racistas que defendem as quotas chamarem racistas às pessoas que se opõem
às quotas. O método é velho, tão velho quanto os fascistas que descobrem um
fascista em cada esquina (e que em geral coincidem com os racistas que
descobrem um racista em cada esquina, a mesma esquina, entretanto repleta):
atribuir ao inimigo as características que nos definem. Como a atribuição é
feita aos berros, o espectador distraído pode ser tentado a acreditar nos
racistas (ou fascistas), e a julgar que racistas (ou fascistas) são os outros.
Veja-se o que aconteceu esta semana a
propósito de Maria de Fátima Bonifácio. Em artigo no “Público”, a historiadora
escreveu umas linhas sobre “raças”, incluindo a crítica às quotas e certas generalizações
esquisitas. Admito que a senhora seja racista, não sei. Sei que a turba furiosa
que exige a delapidação, às vezes literal, da dra. Bonifácio é coisa pior.
Nenhum ou quase nenhum dos furiosos, esmagadoramente brancos, está de facto
preocupado com o alegado racismo. Em circunstâncias similares, também não
estariam preocupados com a xenofobia, a “masculinidade tóxica” (pausa para
alívio cómico), a homofobia e demais calamidades da época. A indiferença desses
virtuosos às calamidades em si prova-se nos momentos em que eles próprios as
cometem. Os virtuosos não se manifestaram quando o capataz da CGTP chamou
“escurinho” a um representante da “troika”, ou quando meio mundo queria enxotar
os brasileiros que votaram Bolsonaro, ou quando o revolucionário Otelo exibiu
famílias paralelas, ou quando o dr. Louçã produziu uma observação canalha para
atingir um adversário político. A preocupação dessa gente, que de resto
enxovalha com jovialidade os homens, os brancos, os heterossexuais, os “ricos”,
os cristãos ou os judeus, não são as calamidades, mas as liberdades. E o
objectivo dessa gente não é acabar com as primeiras, mas abolir as segundas.
É por isso que as “ofensas” em que a
actualidade é pródiga não inspiram aos “ofendidos” um esboço de contraditório,
e sim uma vontade imensa de calar e punir o “ofensor”. Ao suposto “ódio”
respondem com ódio inequívoco e, se possível, consequente. Mamadou Ba, chefe de
uma metástase do Bloco de Esquerda intitulada SOS Racismo, esclareceu: não
basta que a dra. Bonifácio peça desculpa, tem de pagar pelo que disse. O sr. Ba
não informou se o pagamento ideal seria através de coima, pena de prisão ou
fogueira na praça. À cautela, apresentou queixa ao Ministério Público contra a
dra. Bonifácio, no que foi imitado por inquisidores de calibre semelhante. Há
promessas de “boicote” dos jornais que publiquem a dra. Bonifácio (já
suficientemente boicotados pelo mercado). Há rumores de pressões dentro da
universidade. Há ameaças veladas e explícitas. E há, em suma, o desejo ardente de
destruir alguém que, com maior ou menor acerto, se limitou a emitir uma
opinião, hoje elevada a crime.
A opinião em causa não importa. Neste
episódio e em recorrentes episódios afins, as opiniões “inaceitávelis”,
“inadmissíveis”, “intoleráveis” e etc. são apenas pretextos para alimentar
indignações e excitar trogloditas em potência. No processo, que implica a
escrupulosa troca dos argumentos pela raiva primária, formam-se fanáticos sem
nada a exibir excepto a força do ressentimento. Privados de razão, sobra-lhes a
intransigência, o ruído e a propensão para linchamentos colectivos,
ingredientes que, conforme a História demonstra, são essenciais à expansão do
totalitarismo. Repito: as opiniões não importam. O importante é utilizá-las
para excitar as massas e criar legiões de acéfalos, industriados a engolir
inomináveis patranhas e a obedecer aos respectivos autores. Após dezenas de
milhões de mortos e centenas de milhões de miseráveis, não se conseguiria
manter viva a chama do comunismo e do socialismo sem essas multidões, cegas e
boçais, coléricas e servis. Aliás, só servem para isto.
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