sábado, 16 de junho de 2018

Para além das conclusões temos a Antologia de autores


Por BARROSO da FONTE


Magnifico Reitor da UTAD

Ao longo dos anos realizam-se muitos congressos, em Portugal como no estrangeiro. São acontecimentos raros porque dão muito trabalho, implicam muitos meios materiais e humanos. E, ao contrário daquilo que com eles se pretende, algumas vezes, resultam em águas de bacalhau, quando não geraram falências, mal-entendidos e até amuos, entre pares.
Ex.mº senhor Presidente do IPB

Dos três que se realizaram, em nome da Terra e das Gentes de Trás-os-Montes e Alto Douro, em 1920, 1941 e 2002, ficaram as atas e os chavões que algumas personalidades mais mediáticas proferiram e ficaram na história. Assim acontecerá com a 4ª edição que decorreu em Lisboa, entre 25 e 27 de Maio último.
Professor Adriano Moreira,
 Drª Edite Estrela,
Dr. Hirondino Isaías
Sabe-se já pelas conclusões que não teve a afluência que se esperava porque houve o Congresso do PS e outras atrações turístico-culturais no Douro que impediram presenças que tiveram de fazer opções. Mas já escrevi que valeu a pena, mesmo que apenas estivessem membros da Casa Regional de Trás-os-Montes, com sede em Lisboa que foi a organizadora. Mesmo assim estiveram figuras representativas das instituições culturais, como da UTAD e do Politécnico de Bragança, autarcas de: Bragança, Miranda do Douro, de Freixo de Espada à Cinta, Vila Real, de Alfândega da Fé, de Mirandela, Carrazeda de Ansiães. Passaram por lá: o Secretário de Estado da Agricultura, o Diretor-Geral das Florestas, Isaltino Morais, Júlio Meirinhos, Abel Moutinho (de Valpaços), Armando Fernandes Presidente dos Caretos de Podence, Presidente da Associação de Agricultores, Guilhermino Pires, de Murça que fez história com a casa do Soldado Milhões, Jorge Valadares (de Chaves), António Chaves, (de Montalegre), Jorge Lage e Jorge Golias (de Mirandela), Coronel Martins Lopes (de Vimioso) e o Doutor Armando Palavras que ali aflorou laivos da sua Tese de Doutoramento sobre Arte Sacra em Santa Marta de Penaguião. O Secretariado do Congresso apressou-se – e bem – a redigir as conclusões em 9 páginas, que podem encontrar-se na Net. Serão estes alguns dos nomes e dos temas que vão ficar para a História dos quatro congressos Transmontanos, entre 1920 e 2018.


Mas a Antologia  de Autores sobressairá

E, não sendo a obra integral, total ou definitiva, dará para ajuizar da quantidade e qualidade dos Autores que nesta primeira abordagem foi possível inventariar na área geográfica a que corresponde a Província de Trás-os-Montes e Alto Douro. Foi assim que nasceu, aquando do Condado Portucalense, em 868, ainda integrado no antigo Reino da Galiza, sob as ordens de Vímara Peres. E assim continuou, após a Batalha do Pedroso, em 1071, quando o Rei Garcia, respondeu ao assalto de Nuno Mendes, nono e último titular daquele 1º Condado. Em 1096, foi esse mesmo território, com limites mais definidos pelos Rios Douro e Minho, doado ao Conde D. Henriques, como prenda de casamento, com D. Teresa, filha de Afonso VI do Reino de Leão e de Castela. Foi daí que nasceu o Portus + cale que na Batalha de S. Mamede, em 24 de Junho de 1128, aconteceu «a primeira tarde Portuguesa». O território situado entre os Rios Douro e Minho, serviu de alicerce ao império que Portugal foi, do Oriente ao Ocidente. Por isso Portugal começou em Trás-os-Montes e alargou-se ao espaço que hoje melhor se conhece e reconhece pela Lusofonia.
Por cada manifestação que desde aí ocorra, em território nacional, a Província de Trás-os-Montes está sempre implícita, com tudo e com todos aqueles que nesses atos se envolvam. Daí que os congressos Transmontanos, independentemente do chão em que aconteçam, sempre pressupõem a Província mais antiga do solo nacional. Portugal nasceu e cresceu, sempre, a partir das Terras de Entre-Douro e Minho. Portanto a Portugalidade não acaba na fronteira Norte, com o sul da Galiza, mas na fronteira sul, com o Mediterrâneo.

 A Antologia que acaba de chegar ao grande público constitui, uma espécie de cartilha da lusofonia, que visa irmanar a cultura, a cidadania e a ética democrática, que corresponde hoje, ao império que foi na época dos descobrimentos.
Por sua vez Armando Palavras, autor do Prefácio e principal responsável, em tempo recorde, por este canhenho de 928 páginas, escreve que «não se trata de uma Antologia tradicional, onde apenas cabe a Literatura. Os princípios orientadores da mesma são conhecidos de todos, desde o início, com a maior transparência».
Dentro destes condicionalismos, Armando Palavras menciona alguns contributos mais destacados, nomeadamente de: A. M. Pires Cabral, Isabel Viçoso Jorge Golias e, o incomensurável, de Jorge Lage.


A metodologia dos 145 autores de 35 concelhos da área geográfica que o Rio Douro irmana, onde as confrontações naturais não condizem com as normas administrativas, pode não agradar a todos aqueles que já leram ou vão adquirir e ler este grosso de volume da Antologia. Armando Palavras não se confinou aos 26 concelhos dos dois distritos de Bragança (12) e Vila Real (14). Armamar, Figueira de Castelo Rodrigo, Lamego, Meda, Resende, S. João da Pesqueira, Tabuaço, Tarouca, Vila Nova de Foz Côa e Sernancelhe são dez concelhos que pertencem à Beira Alta. Mas situam-se na margem esquerda do Douro. E as características do solo e do subsolo identificam-se mais com Trás-os-Montes (Terra Fria e Terra Quente) do que com a Beira Alta. A revisão administrativa de Relvas, em vez de reconciliar a história, respeitando-a e promovendo-a, destruiu a ancestralidade orográfica, histórica e moral das freguesias Portuguesas.
A edição dos mil exemplares da Antologia de Autores foi um ato de coragem, de firmeza e de oportunidade. Desde 2002 esperava-se que se cumprisse a deliberação quinquenal do IV Congresso. Como não se realizou até 2007, a Casa De Trás -os- Montes de Lisboa, tomou a decisão de cumprir essa recomendação ao fim de 16 anos. Assumindo tão árdua tarefa não pôde a Casa Mãe dos Transmontanos levar a efeito essa causa em Trás-os-Montes. Diz o povo que quando não se pode caçar com um furão se caça com um gato. Não exercendo cargos remunerados os diretores dessa Casa Regional, ter-se-ão cotizado para cumprir esse compromisso, perto de casa e com meios modestos. Foram firmes, correndo riscos. Esses riscos justificariam que não se realizasse o IV Congresso em 2018. Mas as direções têm mandatos curtos. E por isso se louva a oportunidade de, correndo riscos, esse imperativo se cumprisse.
O signatário fala por experiência própria pela sua persistência, entre 1984 e 2002, para que o III congresso se realizasse. Essa persistência está publicada em quase toda a imprensa regional da época.

Pessoalmente – e em nome das Casas do Porto e de Guimarães – penso que a homóloga de Lisboa tinha o dever moral de levar a efeito a quarta edição. Fê-lo a atual direção. E os méritos sobram, em relação aos deméritos.
Hirondino Isaías
Presidente da Direcção
da casa de Trás-os-Montes
e Alto Douro de Lisboa
É por isso que apoiei, incondicionalmente, a ousada preocupação de avançar, correndo riscos. Alguns são visíveis. A própria Antologia que tenho vindo a elogiar, reflete a pressa com que o seu pioneiro e artífice elaborou, nos seus pouquíssimos tempos livres, astúcia, saber e jeito para reunir, em 928 páginas, em textos coerentes, bem trabalhados e sequenciados, a panóplia de literatura, ora prosaica, ora poética, ora pictórica, ora musical.
O bombeiro voluntário desta empreitada foi Armando Palavras. Tendo nascido em Angola, embora descendente de Transmontanos de fibra, foi o braço direito do Presidente da Direção da Casa de Lisboa que, pessoalmente não conheço, mas que passei a admirar pela sua genica.
Soube rodear-se de colaboradores da Direção e de outros que não estando ligados à Casa, comungam deste tipo de causas, por respeito aos nossos ancestrais.
Que este espírito de altruísmo e de solidariedade se propague. Lendo a Antologia de Autores, o mais recente portefólio dos Criativos Transmontanos, num só volume, fica-se com a certeza de que somos oriundos de uma Província quase deserta, pelo sistemático desprezo dos sucessivos governantes. Mas não trocamos o chão que nos acolheu, pela sumptuosidade das urbes bafientas.

Barroso da Fonte

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