domingo, 30 de março de 2025

Inocêncio Pereira faleceu: Um herói da imprensa regional

 


Inocêncio Pereira faleceu: Um herói da imprensa regional


Faleceu dia 23 de Março o jornalista transmontano Inocêncio Augusto Pereira, director do semanário «Mensageiro de Bragança».

Alexandre Parafita, padrinho das novas gerações de jornalistas, foi dos primeiros amigos do setor comunicacional a noticiar o falecimento. E usou para com – o agora falecido - Inocêncio Pereira uma despedida fraternal: «Vai em paz! velho companheiro!». E acrescentou: «Jornalista de corpo e alma, foi um verdadeiro herói da imprensa regional. Salvou da falência, em 1976, o Mensageiro de Bragança, quando, no período do PREC, a imprensa regional ligada à Igreja foi seriamente ameaçada. Contra ventos e marés, como chefe de redação, diretor e administrador, transformou o Mensageiro num dos mais influentes órgãos da imprensa de inspiração cristã, nomeadamente da imprensa transmontana».

Inocêncio Pereira tinha 92 anos e repartiu a sua vida por Angola e Bragança. Foi um seguidor e aprendiz do fundador e diretor deste Jornal, Dr. Eduardo Pinto Soares. Tiveram vida semelhante, no espaço, no tempo,na formação religiosa e, sobretudo, na profissão que foi o Jornalismo. Formados na metrópole, ambos foram seduzidos por Angola, onde fundaram, dirigiram e se tornaram símbolos nos territórios, deixando obra e serviço à sociedade, até retornarem à terra natal.

O signatário desta nota cronológica beneficiou do saber e do fazer de ambos. De Pinto Soares (falecido em 2017) herdou-lhe o epíteto de «Decano dos jornalista portugueses vivos». Colaborou muitos anos neste seu jornal. E do Inocêncio Pereira herdei a amizade, a experiência e o telurismo.

Do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses respigámos a sinopse biográfica de Inocêncio Pereira:

«Nasceu em 12.11.1932, em Rio Frio ‑ Paçó, concelho de Bra­gança e fez o bacharelato em Ciências Religiosas: teologia. Foi simultanea­mente Professor e Jorna­lista. Desde 12.11.1976 foi diretor‑adjunto do Mensageiro de Bragança. De 1970 a 1975 exerceu o cargo de Chefe de redação/adjunto dos Serviços de Rádio EccIesia­ - Emissora Católica de Angola. A partir de 1978 foi nomeado correspondente, para o distrito de Bragança, da Rádio Renascença, Anop/Lusa, e dos Jornais: Correio da Manhã, Co­mércio do Porto e Tribuna. Em 1977 visi­tou Israel na qualidade de jornalista. Em 1979 visitou a Espanha e a França, por largo período de tempo, resultando essa visita de estudo no livro: Emigração a partir de Trás­‑os‑Montes.

Entre 1981 e 1983 orientou o curso de Jornalismo no Seminário de S. José de Bragança. Em 1985 promoveu e lançou a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Nordeste Transmontano, de que foi Presidente. Em 1984 promoveu e reali­zou o II Encontro de Escritores e Jornalis­tas de Trás‑os‑Montes. Em 1987 foi louva­do pelo Secretário de Estado da Comunica­ção Social pelos "serviços relevantes pres­tados à C. S. e pela sua dedicação permanen­te ao Jornalismo e à Informação". Em 1995 editou a Biografia do Director da Emissora Católica de Angola ‑ P.e José Maria Perei­ra, falecido no Brasil e sendo um benemé­rito de Angola. Igualmente em 1995 histo­riou os 20 anos de Emissora Católica em Angola ao serviço do Povo Angolano. De 1947 a 1956 fez vários cursos, nomeada­mente em Turim, Itália,  e em Paris, a especialida­de em Artes Gráficas. Em 1957 e 1975 lec­cionou na Escola Profissional de Santa Cla­ra de Vila do Conde, na Escola Profissio­nal de Santo António de Izeda, no Instituto Mouzinho de Albuquerque na Namaacha (Moçambique) e no Colégio de Santa Tere­sinha (Luanda). De 1976 até 1997 le­cionou na Escola Secundária Miguel Torga, em Bragança.

Depois de acabar o noviciado e o magistério (1950-1955) e depois de ter trabalhado em diversas Casas Salesianas do continente e do então Ultramar Português, pediu dispensa de votos, mantendo-se membro da Família Salesiana.

Entre 1971 e 1976 ainda trabalhou na diocese de Luanda, a pedido do Bispo D. Moysés Alves de Pinho. Aí foi chefe adjunto dos Serviços de Produção da Rádio Ecclésia - Emissora Católica de Angola. Ainda em Angola desenvolveu assinalável colaboração e aprendizagem para, no regresso a Bragança, ao serviço do Mensageiro, quer na rádio, quer no jornal fazer trabalho insano, desde o período em que o Mensageiro estava em crise profunda até que atingiu o auge». Entretanto, em Maio de 2016 Inocêncio Pereira publicou o livro Edição Comemorativa das Bodas de Diamante do Mensageiro de Bragança 1940-2015 que inseriu uma Apresentação, do Bispo de Bragança-Miranda; um prefácio do então presidente da Câmara, Hernâni Dinis Venâncio Dias; uma introdução de Fernando Calado e uma nota explicativa do autor que explica as motivações dos momentos bons e maus. assinalando as comemorações das Bodas de Diamante.

Sempre o Prof. Inocêncio Pereira, com o seu sentido prático da vida, esteve do lado bom daquilo que urgia implementar. Ao longo de décadas, no Mensageiro de Bragança e noutros órgãos de informação, foi o guerreiro de todas as horas.

Tive conhecimento de que foi injustiçado, depois de 28 anos de dedicação ao Mensageiro de Bragança, onde foi, sucessivamente, chefe de redação, administrador, diretor adjunto e diretor. Sei que pegou no Jornal em 1976, quando estava falido e sem instalações. A pedido de D. Manuel, Bispo de Bragança, assumiu a reabilitação, comprou instalações, adquiriu viaturas, equipamento informático, criou 10 postos de trabalho e legou, à sua saída: 650 mil euros!

Talvez ninguém estivesse em tão favoráveis condições para elaborar o historial desses 75 anos como o Prof. Inocêncio Pereira. Animado por alguns sacerdotes da diocese que não anteviam voluntários para levar a cabo tão árdua tarefa, produziu a obra que custou 2.500 euros. Ainda soube que a Câmara adquiriu mil euros de exemplares. E a União de Freguesias da Diocese colaborou com 250 euros. O resto saiu do seu bolso.

O provérbio diz que a moralidade, deve começar por nós, para podermos ser úteis aos outros. De certeza esses baixos não ocorreram nos 28 anos de dedicação exclusiva do Prof. Inocêncio Pereira.

O esforço do falecido jornalista Inocêncio Pereira merece encómios a todos os títulos. E oxalá que Bragança coloque, na praça pública, o nome de Inocêncio Pereira. E que nunca faça como a Câmara de Matosinhos, que esqueceu, injustamente, o saudoso Dr. Eduardo Pinto Soares, que fundou este jornal, condignamente continuado pelo filho João e demais Família, criando postos de trabalho, dando voz aos a essa cidade e enriquecendo culturalmente os seus habitantes.

 

Barroso da Fonte

 

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São só piropos, a culpa é do neoliberalismo...

Jornal Público Pelos vistos não é apenas Boaventura...