segunda-feira, 15 de maio de 2023

Ernestina (EXCERTO)

 Por Maria da Graça

(EXCERTO) 

 

13 - Tragédia para milhões, em nossa casa a Guerra Mundial foi sobretudo um tempo de picaresco. Para mim, absorvido a descobrir a cidade e a vida, os episódios domésticos como que passaram a desenrolar-se num palco onde só esporadicamente me cabia o papel de actor.

Por isso assisti desinteressado à aventura de meu pai que com um colega - as mulheres de ambos de cozinheiras - tinha resolvido abrir um restaurante na Rua Direita. Os fregueses mais assíduos dos sócios eram eles próprios e os muitos amigos que, por serem amigos, comiam e bebiam fiado.

Com festa todas as noites o capital durou dois meses e quando desiludidos tiveram de fechar a porta, restava-lhes por espólio uma absurda quantidade de latas de conserva de atum e sardinha que levaríamos uma eternidade a comer.

Lembro-me de ter visto minha mãe chorar, porque de futuro os talhos só iam abrir á quarta e ao sábado e durante uma semana não haveria pão branco à venda. A temer o racionamento meu pai açambarcava onças de tabaco e, certo de que viria a faltar a cerveja de que tanto gostava, apareceu um dia em casa com os ingredientes necessários para fazer cinquenta litros dela.

Fechou-se na cozinha, donde logo começou a sair um forte odor de lúpulo, e dali a horas anunciou triunfante que a receita dava certo. No soalho estavam três caldeirões onde borbulhava um líquido turvo e malcheiroso.

No dia seguinte convidou os amigos para que viessem provar e a decisão geral foi de que, na verdade, a coisa sabia a cerveja. Agora era questão de engarrafar, arrolhar bem, dar-lhe tempo a que «amadurasse.» Depois era até possível que viesse a ser bom negócio. Com abraços e palmadas nas costas os amigos cumprimentavam-no pelo seu futuro êxito como cervejeiro, mas entretanto preferiam brindar com vinho.

O arrolhamento, por conselho de quem sabia, foi feito a martelo, com rolhas mais grossas do que o gargalo, reforçadas para maior segurança com um barbante em cruz. Por fim as setenta e tantas garrafas foram colocadas na cozinha em prateleiras construídas especialmente, inclinadas a trinta graus para favorecer a maturação.

Nessa noite à mesa falou-se dos incómodos da guerra e meu pai - «só por curiosidade, para ver o que dava» - puxou de lápis e papel e começou a fazer cálculos sobre o que lhe tinham custado os ingredientes e o que dariam de lucro setenta garrafas de cerveja vendidas ao preço da loja. E setenta mil. E setecentas mil.

Como o assunto me não interessava devo ter adormecido, porque quando de madrugada acordei com o calor e abri a janela, reparei que me tinham vestido o pijama de riscas amarelas que eu odiava. A cidade estava ás escuras. Aqui e além viam-se os reflexos azulados dalgumas janelas, ouvia-se de vez em quando o som dum claxon, o latir dos cães, o ruído indistinto da cidade que dorme.

De súbito, como se a guerra tivesse chegado, na nossa cozinha deu-se uma tremenda explosão. Ouvi os meus pais correr, vi os vizinhos sair alarmados para a rua, alguns carregando baldes de água e de areia que era obrigatório ter à mão para quando houvesse bombardeamentos.

Petrificado, sem ar, fiquei á espera das labaredas que dum momento para o outro iriam consumir a nossa rua e o resto do mundo. Minha mãe veio encontrar-me a tremer de medo, banhado em lágrimas, e só sosseguei quando ela me garantiu que não havia perigo, que eram as garrafas de cerveja que tinham rebentado. ... 

(...)

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