Por Maria da Graça
(EXCERTO)
13 - Tragédia para
milhões, em nossa casa a Guerra Mundial foi sobretudo um tempo de picaresco.
Para mim, absorvido a descobrir a cidade e a vida, os episódios domésticos como
que passaram a desenrolar-se num palco onde só esporadicamente me cabia o papel
de actor.
Por isso assisti
desinteressado à aventura de meu pai que com um colega - as mulheres de ambos
de cozinheiras - tinha resolvido abrir um restaurante na Rua Direita. Os
fregueses mais assíduos dos sócios eram eles próprios e os muitos amigos que,
por serem amigos, comiam e bebiam fiado.
Com festa todas as noites
o capital durou dois meses e quando desiludidos tiveram de fechar a porta,
restava-lhes por espólio uma absurda quantidade de latas de conserva de atum e
sardinha que levaríamos uma eternidade a comer.
Fechou-se na cozinha,
donde logo começou a sair um forte odor de lúpulo, e dali a horas anunciou
triunfante que a receita dava certo. No soalho estavam três caldeirões onde
borbulhava um líquido turvo e malcheiroso.
No dia seguinte convidou
os amigos para que viessem provar e a decisão geral foi de que, na verdade, a
coisa sabia a cerveja. Agora era questão de engarrafar, arrolhar bem, dar-lhe
tempo a que «amadurasse.» Depois era até possível que viesse a ser bom negócio.
Com abraços e palmadas nas costas os amigos cumprimentavam-no pelo seu futuro
êxito como cervejeiro, mas entretanto preferiam brindar com vinho.
O arrolhamento, por
conselho de quem sabia, foi feito a martelo, com rolhas mais grossas do que o
gargalo, reforçadas para maior segurança com um barbante em cruz. Por fim as
setenta e tantas garrafas foram colocadas na cozinha em prateleiras construídas
especialmente, inclinadas a trinta graus para favorecer a maturação.
Nessa noite à mesa
falou-se dos incómodos da guerra e meu pai - «só por curiosidade, para ver o
que dava» - puxou de lápis e papel e começou a fazer cálculos sobre o que lhe
tinham custado os ingredientes e o que dariam de lucro setenta garrafas de
cerveja vendidas ao preço da loja. E setenta mil. E setecentas mil.
Como o assunto me não
interessava devo ter adormecido, porque quando de madrugada acordei com o calor
e abri a janela, reparei que me tinham vestido o pijama de riscas amarelas que
eu odiava. A cidade estava ás escuras. Aqui e além viam-se os reflexos azulados
dalgumas janelas, ouvia-se de vez em quando o som dum claxon, o latir dos cães,
o ruído indistinto da cidade que dorme.
De súbito, como se a
guerra tivesse chegado, na nossa cozinha deu-se uma tremenda explosão. Ouvi os
meus pais correr, vi os vizinhos sair alarmados para a rua, alguns carregando
baldes de água e de areia que era obrigatório ter à mão para quando houvesse bombardeamentos.
Petrificado, sem ar,
fiquei á espera das labaredas que dum momento para o outro iriam consumir a
nossa rua e o resto do mundo. Minha mãe veio encontrar-me a tremer de medo,
banhado em lágrimas, e só sosseguei quando ela me garantiu que não havia
perigo, que eram as garrafas de cerveja que tinham rebentado. ...
(...)

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