sábado, 20 de junho de 2015

Os Selk’nam na diversidade humana



A igualdade entre os homens é uma “premissa” da maior relevância para que a justiça se imponha. Não por acaso, ela é um conceito da maior importância para os clássicos, entre eles Aristóteles. Mas não sejamos patetas. O conceito defendido pelos clássicos era no sentido positivo, não no sentido negativo proclamado actualmente por alguns. É que os clássicos sabiam que o homem, em termos individuais, tem atributos que o diferencia dos outros homens. Seja em termos de talento ou aptidão, ou, socialmente, em termos de qualificação (ou acrescento). Por essa razão, ao contrário do que é comum pensar-se, embora defendessem a igualdade para impor a justiça, não deixavam de apelar ao mérito para estabelecerem a diferença dos indivíduos.
Grande parte das ideologias fundamentam (e fundamentaram) a questão igualitária ou da diferença, nas semelhanças ou diferenças biológicas. O que trouxe à Humanidade condições de catástrofe como nos ensina a História.
Se é certo que a diferença entre indivíduos de etnias diferentes (omitimos propositadamente o termo raça, para evitar interpretações óbvias) é mínima (cerca de 7%), justificando deste modo o conceito de igualdade tão redimido por alguns, também o é para justificar as diferenças, a diversidade. Essa mínima percentagem diferencia o escocês do italiano, e o louro de olhos azuis do moreno de cabelo encaracolado.
Os factos relativos à variação genética nos seres humanos são conhecidos desde a década de 60 do século XX. E uma das questões actuais continua a ser a da dimensão do crânio que Armand Marie Leroi bem explica em Mutantes.
No século XVIII Petrus Camper, o inventor do “ângulo facial”, no seu diagrama mais famoso, mostra uma série de crânios cada vez menores (de macaco, orangotango, homem africano, homem europeu e de uma estátua grega). Não sendo racista, nos seus escritos realça o relacionamento íntimo existente entre todos os seres humanos, quaisquer que fossem as suas origens.
Em 1912, o antropólogo americano Franz Boas, humanista e tolerante, procurou demonstrar que não existe genes diferenciadores. E foi implacável na oposição a todos os que procuravam essa diferenciação entre os seres humanos com base nas formas dos respectivos crânios. Não o foi por acaso. Á época a eugenia proposta por Francis Galton, assimilada por Gobineau ou Röse, advinda do social-darwinismo, era matéria de estudo.
O estudo de Boas desferiu um golpe quase fatal na craniometria e ao longo destes últimos cem anos foi citado inúmeras vezes, inclusive por Stephen Jay Gould. A forma craniana seria “plástica”. Não era causada por diferenças de natureza genética. Mas Boas, dizem-nos as investigações recentes, enganara-se. De facto, as diferenças genéticas existem em todos os tipos de povos. Contudo, grande parte dos cientistas entendem que estas não devem ser investigadas. O seu estudo, dizem eles, não se justifica porque ao fazê-lo gera injustiça social. Receiam o renascimento de uma ciência racista – a eugenia.
François Jacob, n’O Jogo dos Possíveis, advertia para a riqueza da diversidade. E dizia que “O processo de selecção natural não se parece com nenhum aspecto do comportamento humano” (71), acrescentando que “querer fundir a ética nas ciências da natureza é confundir o que Kant considerava duas categorias bem distintas”(52). Mas dizia mais: “Esta “biologização”, se assim se pode dizer, depende ideologicamente do cientismo, da crença em que os métodos e conceitos desta ciência poderão um dia explicar as actividades humanas nos seus mais pequenos aspectos”.
Qualquer individuo sensato sabe que as diferenças humanas são ligeiras, não podendo, por essa razão, pôr em causa qualquer compromisso com a justiça social. A igualdade humana, slogan de Stephen Jay Gould, manterá na obscuridade os 7% de variação genética que distinguem as pessoas das diferentes partes do mundo. E haverá sempre quem à custa disso não hesitará em promover teorias de consequências socialmente injustas. Porque a injustiça é frequentemente causada pela ignorância, não pelo conhecimento.
O que, de facto, tem sido demonstrável é que a dita “igualdade” tem promovido a extinção da diversidade. Os negritos do Sudeste Asiático, esse enigmático povo semelhante aos pigmeus, está em declínio, os Jarawas da Grande Andaman, também. E os Selk’nam, esse povo belo e fisicamente poderoso da Terra do Fogo, descrito como uma raça de gigantes por Fernão de Magalhães em 1520, desapareceu por completo. Os donos dos ranchos de ovelhas argentinos chacinaram-nos numa matança com dimensões de genocídio. O último representante desse grupo étnico morreu algures por volta de 1920.
Armando Palavras


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