sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Vladimir Putin e o conflito na Ucrânia

 
Vladimir Putin tem um problema. Vive num outro tempo, numa outra época, num outro mundo.
Em meados do século X (948), sabemos pelos fragmentos descobertos por Solomon Schechter no imenso depósito de Geniza do Cairo que no território da actual Ucrânia, existia um reino judaico, governado pelo rei José, último dessa dinastia que durou cerca de um século.  Os Judeus em fuga de Constantinopla, transpuseram o Cáucaso em direcção à segura Cazária ainda pagã. Foram bem recebidos e aí permaneceram durante gerações, unindo-se por casamento às populações locais. Com o tempo, esses judeus deixaram de se distinguir do resto da população, e deram origem a esse reino hebraico.
Antes dessa dinastia, esse imenso território era ocupado por um povo próspero,  de  guerreiros nómadas, devotos pagãos do deus celestial Tungri e moravam em iurtes. O seu “imperador”, ou Khagan, era uma figura sagrada mas com poderes limitados
José foi o último  rei dos Cazares, um imenso reino judaico situado nas elevadas pradarias da Ásia Ocidental, banhado pelo curso inferior do Volga, tendo como fronteira a leste o mar Cáspio (conhecido à época por mar Jorjan), o mar Negro, ou “Constantino” a oeste, e as montanhas do Cáucaso a norte. A ele pertencia toda a Crimeia e (supõe-se) a cidade de Kiev.
Acossado pelos exércitos dos Rus de Kiev (já no século XI)  compostos por  Escandinavos e Eslavos e, com alguma regularidade pelos Bizantinos, seria arrasado e a sua capital real de Atil completamente pilhada.
É com os Rus que surge a RUS, ou Primeira Rússia, uma civilização que aparece definitivamente consolidada no século XIII, já com a capital em Kiev. E daqui expande-se para a conquista do principado de Moscovo.
Putin, além deste problema, tem outro. Setenta anos de leninismo e estalinismo é muito tempo. É tempo demasiado para libertar de vez as tendências bolcheviques e as atrocidades leninistas e estalinistas que estiveram na origem da fome genocidária da Ucrânia em 1932,  nas deportações em massa para a Sibéria e no assassínio político de companheiros da Revolução. E que agora, sob a mentira do comboio humanitário, distribui armamento e soldados no território ucraniano em conflito.
Apesar de todas estas tragédias, a Rússia manteve sempre uma cultura soberba, e os seus escritores (mesmo perseguidos e atirados para o exílio), não deixaram de representar uma das maiores Literaturas do Mundo, de todos os tempos.
Putin está a jogar um jogo perigoso. Causou a crise ucraniana, mas pior que isso, alimenta-a, alimentando aquelas bestas “pró-russas”.
A Rússia tem responsabilidades civilizacionais, e Putin como seu dirigente máximo também.
O físico russo, Andrei Sakharov, em obra de 1968 disse: “uma guerra termonuclear não pode ser considerada uma continuação da política por outros meios (segundo a fórmula de Clausewitsz). Seria um meio de suicídio universal”.

Armando Palavras

Post-scriptum

A Rússia (excluímos o período político da URSS), essa infinita extensão geográfica, Mãe de Dostoiévski, Tolstoi, Tchékhov, Leonid Andréev, Leskov, Ivan Turguénev, entre outros; a soberba comunidade cultural que nos habituámos a ver como um dos baluartes da Civilização, seria mais assertiva se se unisse à América e à Europa no combate a esse “califado” tenebroso, o ISIS, em vez de se preocupar com mais um metro de terra de um país soberano – a Ucrânia.
Com um passo atrás, readquiria o respeito dos seus pares e ganhava a amizade internacional.


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