quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Santo Antão da Barca em Alfândega da Fé

Antevisão do que será o futuro santuário
 
Alfândega da fé // Trabalhos de trasladação do santuário do Santo Antão da Barca concluídos em finais de 2013 Por: Francisco Pinto / Secção: O Olhar / 21 Dezembro 2012  (Mensageiro de Bragança)
 

A EDP iniciou os trabalhos de trasladação do santuário do Santo Antão da Barca, situado na margem direita do rio Sabor, no concelho de Alfandega da Fé, prevendo-se que a mudança esteja concluída no último trimestre de 2013. “A nova localização do santuário foi escolhida em consenso com o município e com as populações das aldeias vizinha do santuário e com a Confraria do Santo Antão”, avançou o diretor de projeto do empreendimento hidroelétrico do Baixo Sabor, Lopes dos Santos. No entanto, prevê-se que haja um ligeiro atraso na conclusão das obras, já que foram descobertos um conjunto de frescos nas paredes da capela, os quais terão de ser analisados e transferidos para a nova capela dentro de padrões que possam preservar este tipo de arte sacra, já que se trata de painéis datado dos seculo XVIII e de “rara beleza”. “Os passos mais difíceis já foram dados, neste momento trata-se de resolver um problema mais construtivo com a descoberta das pinturas a fresco e que neste monumento constituem o especto técnico mais delicado, já que é preciso estudar os novos elementos para encontrar um solução para garantir a sua transferência em segurança”, acrescentou o responsável. Com aparecimento das pinturas a fresco no interior da capela, o programa de transladação do santuário sofreu algumas alterações, contudo a EDP, acredita que a mudança esteja concluída por altura festa anual em honra do santo Antão da Barca, que realiza em setembro de 2013. Os técnicos vão agora preceder a desmontagem das pinturas utilizando para efeitos novas técnicas para que as mesmas sejam transladadas para o novo santuário da forma mais exta possível, acabando assim a mudança da capela num conceito de “pedra sobre pedra”.

Nota: Segundo a arqueóloga Ana Rita Trindade, a capela foi manda erguer pelos Távoras em 1743.

 


por Virgínia do Carmo

O eremita Santo Antão é o santo da devoção dos milhares de pessoas que todos os anos, em Setembro, acorrem ao santuário localizado num vale profundo, junto ao rio Sabor, ladeado por margens íngremes, território de três concelhos diferentes.
Uma romaria que traz a memória de lendas e milagres relatados pelos fiéis.
Nenhuma pessoa viva pode precisar quando começou a devoção a Santo Antão da Barca, cujo santuário é ainda hoje palco de uma romaria que junta num vale profundo, dividido pelo rio Sabor, a seis quilómetros de Parada, freguesia do concelho de Alfândega da Fé a que pertence a capela, milhares de pessoas todos os anos, no primeiro fim de semana de Setembro.
Para lá vão dois caminhos, um que parte do lugar de Sardão, no concelho de Alfândega da Fé, e outro de Meirinhos, no concelho de Mogadouro, fazendo ainda fronteira com a ermida as freguesias de Carviçais e Felgar, do concelho de Torre de Moncorvo.
Os crentes, esses vinham outrora de todas as aldeias circundantes num raio de distância significativo, e hoje talvez mais reduzido, desde Carviçais a Castro Vicente, de Mogadouro a Vila Nova de Foz Côa.
Hoje em dia, os carros descem ao vale, através de um caminho íngreme mas possível até para os veículos sem tracção, e o regresso, por isso, acontece mais cedo. Mas em tempos, era a pé ou de macho que o percurso de cerca de sete quilómetros a partir do lugar de Sardão era feito. E o regresso, esse só acontecia ao romper da aurora do dia seguinte, como recorda a senhora Guilhermina, de 76 anos, uma das poucas que ainda habita no lugar de Sardão. "Havia dois caminhos", recorda, "um para os machos e outro para as pessoas". "Vínhamos por volta do meio-dia", prossegue, e quando lhe perguntamos se era uma boa oportunidade para "engendrar" namoricos, responde prontamente que sim. Afinal, tratava-se de uma oportunidade rara de convivência um pouco mais prolongada entre rapazes e raparigas. Por todos os cantos se viam "a conversar", diz a D. Guilhermina.
Os preparativos para a romaria começavam a ser providen-ciados com uma semana de antecedência.
O tempo, depois da missa e da procissão, que já há muitos anos segue por um arruamento aberto exclusivamente para o efeito, era passado a dançar e a cantar quadras, algumas delas feitas para a ocasião, mas que a D. Guilhermina já não consegue repetir na íntegra. Os homens jogavam "ao ferro", lembra, e havia ainda animação musical. Bandas, diz, chegavam a ser "três ou quatro". À noite, ninguém dormia, a não ser as crianças, que acabavam por não resistir ao cansaço e eram então deitadas em mantas, ao relento.


Rio Sabor
A história e as lendas

A capela foi mandada construir pelos Távoras, família proprietária de grandes herdades naquela região, há mais de 200 anos, no local conhecido como Poço da Barca, pois nesse local o rio era atravessado de uma margem para outra por uma barca que transportava pessoas e mercadorias diversas, como relata António dos Santos Lopes, numa pequena compilação de dados que reuniu num livro sobre a ermida. Segundo este autor, a última barca terá desaparecido no ano de 1953. Mas esta capela terá, segundo a lenda, substituído uma outra mais antiga, erguida já em honra de Santo Antão, eremita egípcio que terá vivido nos séculos III e IV, até aos 105 anos de idade, adoptado, então, pelas gentes da região como padroeiro da barca.
Os populares nem sempre relatam esta versão da história do santo padroeiro. A maioria das pessoas, especialmente as mais velhas, contam outra, embora as duas não sejam necessariamente incompatíveis. Dizem que este santo terá dado todos os seus bens aos pobres, dedicando-se depois à humilde tarefa de guardar porcos. Isto explica a imagem do santo, que tem aos pés a figura de um porco, e numa das mãos a campainha para chamar os animais quando se dispersavam.
São também os populares que relatam alguns dos milagres alegadamente alcançados por intercessão do santo, muitos deles têm a ver com barcas que se afundavam, sem que no entanto ninguém perdesse a vida. Um dos mais importantes, e que os populares puseram em verso, terá acontecido num dia de Natal. Transportava a barca doze pessoas e "cinco bestas", quando se afundou no rio, causando grande agitação nos que da margem viam o desastre. Todos recorreram então a Santo Antão, e todos acabaram por se salvar, incluindo os "cinco jumentos carregados" sem qualquer "prejuízo".
Um outro milagre que os populares relatam tem a ver com outro objecto da devoção das gentes locais: o Divino Senhor da Barca. Reza a lenda que, em tempos, as gentes da aldeia de Meirinhos quiseram roubar a imagem para a sua igreja, o que chegaram a fazer. Mas quando se deslocavam na barca para a outra margem, a imagem ia-se tornando mais pesada e começava a estalar, pelo que os forasteiros se viram obrigados a regressar e a deixar a imagem na capela onde hoje permanece.

Blogue Santo Antão da Barca
Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011
Romaria secular - Santo Antão da Barca
 

Barroso da Fonte comemora 60 anos de escrita

 
O Dr. Barroso da Fonte, soubemo-lo pela voz de Jorge Lage no “Noticias de Mirandela”, comemorou a 24 de Janeiro passado 60 anos de escrita. Tudo o que possamos dizer deste transmontano de têmpera rija, nada acrescenta à sua obra majestosa de homem de cultura. A nossa homenagem passa pelo texto (de sua autoria) que se segue, publicado em 2011 na Colectânea de autores transmontanos, editada pela Exoterra: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura.

 

 
Barroso da Fonte
1 -  Casa de Bragança - 600 anos ao serviço de Portugal 

 

Pretendo neste breve ensaio historiográfico, sintetizar o relevante papel que os Portugueses de todos os tempos tiveram, na expansão do Império Português, por ocasião do Tratado de Tordesilhas, até aos nossos dias, época que pode tratar-se pela Diáspora da Lusofonia.
Sabemos todos que Portugal teve dentro de portas duas instituições políticas, cada qual a mais importante: a Monarquia que existiu entre 1096 e 1910, prosseguida, até hoje, pelos cem anos de República, muito atribulada; e  a Casa de Bragança, desde o casamento  de D. Afonso e de D. Brites, ele filho bastardo de D. João I e ela filha de Nuno Álvares Pereira e da Transmontana, D. Leonor Alvim.
Por outras palavras: em 1096 foi doado, como dote de casamento a D. Teresa pelo enlace com o conde D. Henriques, o Condado Portucalense que compreendia o espaço geográfico entre os Rios Minho e o Douro. Por morte do conde D. Henrique, (1112 ou 1114) seu filho procurou honrar a memória do avô Afonso VI de Leão que fizera a oferta desse reino e  que  seu pai, já havia alargado  para Sul, até Sintra. Quando D. Henriques morreu, o filho teria entre dois a três anos. A viúva, D. Teresa, geriu os destinos do Condado até 24 de Junho de 1128. Mas fê-lo contra a vontade do filho, porque ela se deixou seduzir por Fernando Peres de Trava, com quem chegou a casar e que, em vez de consolidar a emancipação desse novo Reino, preferia reintegrá-lo na Galiza. Essa traição provocou a Batalha de S. Mamede, que «foi a primeira Tarde Portuguesa», no dizer feliz de José Mattoso.
D. Teresa e o amante tiveram de refugiar-se na Galiza, enquanto  Afonso Henriques assumiu as rédeas do poder que consolidou até à sua morte, em 1185 e que seus sucessores dilataram até aos confins do hemisfério.
 Em 1401 deu-se um facto nacional de grande relevância para os Portugueses e, sobremodo para os Transmontanos que talvez nunca nele tenham reflectido. Foi o casamento de D. Afonso, filho bastardo de D. João I, com D. Brites, filha de Nuno Álvares Pereira e de sua mulher, a Transmontana, D. Leonor Alvim.
Leonor Alvim nascera no lugar da Reboreda, freguesia de Salto, concelho de Montalegre, por volta de 1350. Casou em primeiras núpcias, com Vasco Gonçalves Barroso, Alcaide do Castelo de Montalegre e Senhor das Terras de Barroso que ao tempo abrangiam os actuais concelhos de Montalegre e Boticas e os extintos de Ruivães e Couto de Dornelas e ainda parte do de Terras de Bouro. Foi tronco das Famílias com o apelido de Barroso. D. Leonor de Alvim ficou viúva, pouco tempo depois de casar, sem filhos e, de acordo com os cronistas, no estado de virgindade. Sabendo D. Álvaro Gonçalves Pereira, Prior do Crato, dessa ilustre Senhora que para além do mais, ficara muito rica, por via da herança do marido, tudo fez para a casar com  o filho Nuno, quando ele tinha cerca de 14 anos. Era ele o 11º filho dos 32 que o Pai veio a ter de três mulheres. O jovem Nuno pretendia seguir a carreira das armas. Mas a insistência do pai, não teve outro remédio, se não casar. Aconteceu o enlace em 1376.  Para residência escolheram uma Casa Brasonada que ela herdara do primeiro marido, no lugar de Pedraça, concelho de Cabeceiras de Basto, a uns dez quilómetros de distância de Reboreda. Aí nasceram três filhos ao casal, dos quais apenas vingou a filha Brites Alvim Pereira que em 1401 casou com D. Afonso, filho de D. João I. Com o dote que o pai do noivo ofertou e com a herança materna da noiva, resultou num património riquíssimo, em terras, rendas, títulos e privilégios que Nuno Álvares Pereira, mais próximo colaborador de D. João I, sonhou ver consubstanciado numa poderosa Instituição que viria a chamar-se «Casa de Bragança», em homenagem a um «Braganção» muito influente dos primórdios da nacionalidade.
Essa Casa chegou a ser tão rica como a Coroa. E algumas vezes lhe emprestou dinheiro como nestes tempos o FMI empresta aos países em crise.
Por volta de 1386 D. Leonor morre, é sepultada em Gaia e Nuno Álvares Pereira segue a carreira das armas com a qual sempre sonhou. Sua filha e genro fixaram residência em Chaves, naquela que ainda hoje é conhecida pela Casa de Bragança, onde está instalado o Museu de Arqueologia. Aí nasceram os 3 filhos do casal. Mas por volta de 1412 D. Brites morre de parto. O projecto de Nuno Álvares só foi concretizado em 1442, quando ele já tinha falecido (1431). Mas foi dele a ideia de criar essa poderosa Instituição que foi uma espécie de partido político alternativo à Monarquia, de forma a não chamar a si essa abastança.                                                                     
Afonso faleceu, em 1461, em Chaves. Mas ainda em vida do sogro, acompanhou este, o Pai e os irmãos (a Ínclita geração) à tomada de Ceuta, em 1415 e, vencedores, foi designado pelo Pai (D. João I), o Senhor dessa fortaleza no norte de África.
 No regresso volta a casar com D. Constança de Noronha. Desiste da construção do Palácio de Barcelos, uma vez que tinha herdado do sogro o título de 8º conde dessa vila e resolve construir esse Palácio alternativo em Guimarães, por ser essa a Terra do Rei (reportando-se ao Rei Conquistador D. Afonso Henriques). As obras começam em 1422 e a primeira sede oficial da Casa de Bragança passou a ser esse Palácio, junto ao Castelo da Fundação. Foi habitado entre 1438 e 1480, enquanto aí viveu a Santa Duquesa que tinha 16 anos, quando casou com D. Afonso que tinha 49. Com a morte desse conde e I duque de Bragança, o segundo e o terceiro (que haviam nascido em Chaves), fixaram residência em Vila Viçosa e nunca mais vieram ao norte.
Em 1640, após os 60 anos sob o jugo filipino espanhol, deu-se a restauração e foi a Casa de Bragança que passou a dar à Monarquia os reis, desde D. João IV ao regicídio na pessoa do Rei D. Carlos, em Lisboa, em 1 de Fevereiro de 1908. Em 5 de Outubro de 1910 é proclamada a República. Dia 14 de Outubro D. Manuel II é recebido em Inglaterra a Família Real, mas já destituída.
Com a queda da Monarquia em 1910, a República apoderou-se do património da Casa de Bragança, hoje representada por D. Duarte Nuno que não pode candidatar-se, como força política, quer à formação de Governo, quer às Presidenciais. Passou a existir a Causa Real que se bate – e muito bem – pela legalização como força política.

2 - O Simbolismo desta poderosa Instituição

Não houve nos 883 anos após a Batalha de S. Mamede nenhuma Instituição política tão influente como a Casa de Bragança. E não tem havido, pelos tempos fora, muita gente a lembrar-se deste facto histórico.
Se ela não tivesse existido, possivelmente já teríamos voltado ao domínio Ibérico de onde viemos, mas que nenhum Português vivo, certamente gostaria que acontecesse. Em certos momentos de crise, muitos dizemos isso em tom de brincadeira. Mas por muito respeito que tenhamos pelos «nuestros hermanos», que sejam muito felizes.
Se trago este tema a debate é porque sou Transmontano e tenho nesta circunstância que a Terra me deu, um enorme orgulho.
Muitos de nós tivemos de procurar fora de portas a nossa sobrevivência. Uns por motivos profissionais, outros por via do casamento, a maior parte por razões escolares. A verdade é que quase nove séculos depois da fundação de Portugal, Trás-os-Montes continua a ser a Província mais distante do Terreiro do Paço. O distrito de Bragança continua a ser o único do país que não tem um palmo de auto-estrada. E, contudo, esse mesmo país, consolidou a sua História, com base nos bens materiais e humanos dos Transmontanos, como pode  deduzir-se pelo património que amealhou no tempo da sua expansão pelo mundo.
Esse património resultou do casamento de uma Transmontana das Terras de Barroso com o Senhor dessas Terras. Pertenceram-lhe desde os seus antepassados que foram, contemporâneos do nosso primeiro Rei. Nessa altura faziam-se fortunas em terras, títulos e prestígio. Era a nobreza. Ninguém ignora que Portugal nasceu do Portuscale, uma vila situada na foz do Rio Douro. Daí derivou o Porto, por volta de 868. Vímara Peres, ainda sob o domínio do Imperador de Leão e de Castela, venceu os mouros e foi-lhe  atribuído o título de conde. Ele transmitiu esse condado a Mumadona Dias, casada com Hermenegildo Gonçalves, conde de Tui. Fixou-se em Guimarães e com ela trouxe para aí a residência condal. Preparou Guimarães para quando nascesse o primogénito dos condes que advieram de D. Teresa, filha de Afonso V, de Leão e Castela. D. Teresa teria nascido por volta de 1090. Em 1096 o pai (era assim naquele tempo) casou-a com um nobre de Borgonha, D. Henrique. Como dote doou-lhes o Condado até ali galego, mas desde esse ano chamado Portucale.  A evolução semântica depressa o transformou em Portugal. Desse casamento nasceram três filhas e um filho. Só o varão poderia ser Rei. Não se conhece ao certo a data de nascimento deste filho. A tradição diz que seria por volta de 1111. Três anos depois morria o pai, D. Henrique. Entretanto, a viúva afeiçoou-se a Fernando Peres de Trava. E enquanto ela puxava para a reintegração do Condado Portucalense na Galiza, D. Afonso Henriques, educado pelo aio Egas Moniz, Senhor das Terras de Entre-Douro e Minho, mentaliza-o para reprimir a Mãe e o amante, ficando ele à frente dos destinos do Condado. Esse conflito deu-se em S. Mamede, em 24/6/1128. A Mãe veio a morrer em 1130. E, em 1131, Afonso Henriques, muda o Condado para Coimbra, prosseguindo a conquista, para sul com  perseguição aos muçulmanos. Morreu em 1185. Portugal teve sempre homens de fibra do Rei Conquistador. Um deles foi Nuno Álvares Pereira que casou com uma Transmontana das Terras de Barroso.

3 - Portugal começou no Norte e não no sul

Quando se pretende diminuir os Transmontanos há a tendência de os tratar como uns «coitadinhos» que vivem lá para trás das fragas. Pensam esses sujeitos que Portugal nasceu em Lisboa e avançou para norte, perdendo qualidade à medida em que se aproximava da fronteira. Mesmo aqueles que fabricam as mentalidades, falam de Trás-os-Montes com uma linguagem a rondar a comiseração, a má sorte e  forjam uma espécie de favelas onde não há qualidade de vida. Puro engano. Essa gente nunca soube o que é a vida, desconhece a realidade social e esbraceja em poltronas de veludo que agradam aos olhos, mas tresandam no cheiro.
Esquece-se essa gente de que Portugal se autonomizou a partir da Galiza, por força de uma herança imperial que foi legitimada nos campos de batalha, sempre que os intrusos, tentavam recuperá-la por  traição. Começou por ser o espaço geográfico, compreendido entre os Rios Minho e o Douro. Depois, alargou-se ao Mondego, mais tarde ao Tejo e a Lisboa. Só décadas depois se chegou ao Algarve que deu mais nas vistas por ser mais cómodo receber as águas na foz do que abrir os regos e limpar as margens ao longo do seu percurso.
Não é na fronteira norte que Portugal acaba. Pelo contrário foi nesta fronteira nortenha que começou e todos os dias recomeça, para o bem e para o mal.
Foi no Norte, com o património natural e humano que cresceu e se desenvolveu, hoje como em 1128, em 1143, em 1179, em 1385, em 1415, como em 1640.
Foi entre 1376 e 1420 que alguns dos mais nobres generais Portugueses fixaram ou fizeram das Terras de Entre-Douro e Minho, o seu quartel-general. Nuno Álvares Pereira que recentemente foi elevado aos altares, pelo seu desprendimento material, foi um desses bravos militares que nunca conheceram o fel da derrota. Consigo no comando venceram tudo o que havia para vencer, incluindo as Praças do norte de África, nomeadamente: Ceuta, Tânger, Arzila e Fez. Ainda hoje cheira à presença física desta Raça Lusitana que por ali abriu as Portas de África e da Índia, mais tarde, do Brasil e da Califónia.

4 -  Recordar Trás-os-Montes nos 900 de Afonso Henriques

De acordo com a tradição, Afonso Henriques nasceu em Guimarães em 25 de Julho de 1111. Não havendo provas documentais tem de fazer fé esse argumento que não tem carácter científico mas que prevalece, como critério mais válido até provas em contrário.
 Infelizmente há por aí uns quantos «mamadores» profissionais que aprendem uma coisa, ganham estatuto e prestígio em nome dessa aprendizagem baseada na tradição. Mas, depois da pança a abarrotar de fanfarronice, criam grupinhos de pressão, atiram o barro à parede para ver se pega e, sem consistência, tentam construir muros de barro que cai à primeira ventania.
Foi o que sucedeu em 2009, com a celebração antecipada dos 900 anos do nascimento de Afonso Henriques.
 Não têm sido os Transmontanos a afrontar a historiografia Portuguesa. Muitos dela se orgulham e a preservam como única forma de a honrarem e servirem. Em todas as frentes do bom combate. Seja na política, na cultura, no desporto; na vida militar, religiosa ou académica, seja no associativismo, no empresariado, no amor às origens.
Esses exemplos colhem-se no espírito de solidariedade que as Casas Regionais explicam e de que temos alguns elementos  bem expressivos.
                                                                                                                                  
5 - Casas Transmontanas faróis de cultura e de amor às origens

É certo e sabido, quase como ditado popular, que os Transmontanos, nasçam onde nascerem e cheguem onde a necessidade e a aventura os leve, dão sinais de vida e criam laços de fraternidade que a distância amadurece e conserva, mais do que qualquer outro povo. A lei da vida ensinou-nos que a «necessidade cria o órgão». E que as pessoas mais simples, mais sérias e mais solidárias são aquelas que nascem rodeadas de fragilidades sociais, porque não estranham pela vida fora, os  males que lhes surjam pela frente. Se venceram, desde o berço, essas contrariedades; se tarde e mal conheceram os luxos e exuberâncias da cidade; se calejaram as mãos em criança e adormeceram com o estômago vazio, quando precisavam de crescer, têm sobre os outros a quem nada faltou, uma enorme vantagem: nada os assusta porque chegaram à vida adulta com uma experiência que constitui o seu melhor dote.
 Não é de estranhar que nos confins de qualquer continente, no matagal do Amazonas ou nos sítios mais recônditos do planeta, quando menos se espere, apareça um Transmontano que se fez à vida. Não partiu por medo, por roubo ou por crime de sangue. Talvez tenha partido em busca do pão que não teve e lhe fazia falta para ser homem sério, honesto, competente e solidário.
Foram esses que chegaram ao Brasil e construíram impérios; chegaram a Macau e ergueram liceus e catedrais; chegaram a Angola e Moçambique e impuseram a sua cultura.  A Diáspora emigratória é riquíssima em exemplos desses que temos um pouco pela Europa, pelas Américas, pela África e até pela Ásia.
 No pequeno rectângulo Ibérico somos poucos e até o espaço mal chega para cobrir o esqueleto de todos. Mas no espaço virtual da Lusofonia esses poucos continuam a dar exemplos de altruísmo, de nobreza telúrica, de solidariedade genuína.

6 - Os  Ilustres Transmontanos e Alto durienses

Em 1998 apareceu, sem grandes alaridos editoriais, o I volume do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto durienses, obra destinada a demonstrar que esta Província, sempre foi a mais distante do Terreiro do Paço, a primeira a cumprir os seus deveres cívicos e a última a receber os direitos sociais. Ainda hoje continua a ser apenas motivo de manchete nos mass media, (televisões, rádios e jornais) quando há crimes, catástrofes ou bruxarias e afins. A expressão Trás-os-Montes, para muitos, significa, pejorativamente, «lá para trás dos montes», como se não se tratasse de uma região igual às outras. Ainda hoje se chega mais depressa à Madeira, aos Açores ou a Marrocos, do que a Trás-os-Montes, porque só no século XXI começou a ter uns palmos de auto-estrada, sendo que o distrito de Bragança nem isso tem.
A desertificação é hoje uma realidade indesmentível, porque ao fenómeno emigratório dos fins da segunda República, seguiu-se a extinção dos serviços públicos essenciais, a extinção da linha férrea, o encerramento de centenas de escolas rurais, e  tudo isso, apressou a fuga dos mais válidos braços, tanto mais que as políticas comunitárias, «mataram» a agro-pecuária, tradicional tábua de salvação dos seus filhos mais pujantes.
Se pelo chão dessa Província não houve o respeito e o tratamento devidos, não é menos verdade que alguns daqueles que aí nasceram, se «viram gregos» para chegarem «à cidade», de onde os urbanos nunca saíram, antes aí beneficiaram de todas as comodidades sociais para se fazerem ao mundo. Tão diferenciada origem poderia ressentir-se no acesso aos cargos públicos, científicos, académicos e técnicos. Sinal de que os Transmontanos e Durienses não só estavam preparados para as exigências do mercado sócio-profissional, como, em igualdade de circunstâncias, muitas vezes foram tão bons ou melhores do que eles, foi pretexto para elaborar não só aquele I volume como mais dois que se lhe seguiram (em 2001, o II volume; e, em 2003, o III). Não poderemos dizer que foi uma obra exemplar. Mas foi uma obra pioneira  na metodologia, nos critérios e nos objectivos. Se o I volume foi obra  de uma só pessoa, os dois seguintes já tiveram a colaboração de outros ilustres transmontanos que constam nas fichas técnicas e que assinaram, muitas das «entradas» neles inseridas.
Daí que seja intenção do autor reeditar, até fins de 2011 esse primeiro volume, corrigido, actualizado e aumentado. Por isso se faz o convite, por este meio, para que todos aqueles que nele constam, querendo, nos façam chegar, em suporte informático, as suas, (ou de familiares e amigos) «entradas», devidamente actualizadas e redigidas na 3ª pessoa. Como a obra é a preto e branco e nem sempre as fotos resultam, sendo de fraca qualidade, é preferível não as incluir.
Entretanto é nossa intenção fazer o mesmo relativamente aos dois seguintes volumes, embora mais tarde. Como o 2º volume teve apenas 416 páginas, pretendemos incluir nele, várias novas «entradas» que nos sejam remetidas, pelos próprios ou por terceiras pessoas. Pretende-se uniformidade na redacção dos textos biográficos. Excluir adjectivos, comentários, intimidades. Só valem os factos objectivos, sem censuras ou elogios. Quem não conhecer as características da obra poderá consultá-la através do site  www.dodouropress.pt .
A área geográfica e administrativa delimitada a este trabalho sãos os 12 actuais concelhos do distrito de Bragança e os 14 do distrito de Vila Real. Toda a correspondência relacionada com este tema deve chegar-nos pelo e-mail: rgv@mail.pt, em pen, dvd, cd, disquete, ou por correio tradicional: Apartado 108- 4801-910 Guimarães, tel/fax: 253.412319, com a identificação completa do remetente, tel/telm e também com o endereço electrónico, de modo a tirar qualquer dúvida. Este convite destina-se a quantos já nos fizeram chegar as suas biografias, depois de publicados os 3 referidos volumes. É que muitas vieram manuscritas ou dactilografadas, em tipos de máquinas que o scanner não reconhece. E, nos dias de hoje, essas conversões, tornam-se onerosas e difíceis de informatizar. Temos de reagir à crise de identidade, a partir da coesão, da força de vontade e do orgulho telúrico. Nisto os Transmontanos e Alto durienses sempre foram os primeiros.
                                                                        Barroso da Fonte – barrosodafonte@mail.pt

 
                                                                   Síntese biográfica

Barroso da Fonte, João- nasceu em Codeçoso (Montalegre), em 1939. De 1952 a 30/6/1962 Seminário de Vila Real.1962-1964- Fiscal da Hica. 1964-1967- Oficial Ranger em Angola. 1968-1975  lecciona em Chaves onde funda Centro de Emprego do IEFP. 1975 transfere-se para a Inspecção do Trabalho em Guimarães. 1977-1982  faz licenciatura na Fac. Filosofia de Braga. 1982-1985. Director da Delegação do Porto da DGCS. 1986-1990: Vereador a tempo inteiro com Cultura, Desporto e Turismo na Câmara M. de Guimarães. Desde 1990 a Agosto  de 1995. Director do Paço dos Duques de Bragança, (em Guimarães) e do Castelo da Fundação. Nessa data aposenta-se. Em 16-12-1997, defende Mestrado na Universidade do Minho, onde prosseguiu o Doutoramento até 2005, ano em que publica a tese:  Alfredo Pimenta: da praxis Libertária à doutrinação Nacionalista. Leccionou (1998-2005) no Ensino Superior.
Autor de 8 livros de poemas. Cerca de 40 em prosa, nomeadamente: 3 vols do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos. Jornalista desde 24/3/1953. Director do Trimensário de artes e letras: Poetas e Trovadores. Fundador e director da Editora Cidade Berço.  Fundador da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro do Porto, Associação Nacional Combatentes do Ultramar, Gabinete de imprensa de Guimarães, autor da ideia da construção do Monumento aos Combatentes, em Lisboa e co-fundador do Movimento 10 de Junho.

 


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ofertas de emprego - Programa «Job of my life» (Approach People Recruitment - Douro Azul

 
  Programa «Job of my life» (Approach People Recruitment

A Alemanha oferece curso de três anos e bolsa de 800 euros/mês a não licenciados com emprego garantido no fim. Mas os licenciados também são bem-vindos.
Os jovens portugueses, com idades entre os 18 e os 35 anos, que estiverem desempregados, tem agora uma nova oportunidade: a Alemanha está disposta a recebê-los e a pagar-lhes bolsas de 800 euros por mês para frequentarem um curso. Oferece ainda, gratuitamente, um curso intensivo de alemão. No final da formação, têm emprego garantido.
O Programa chama-se «Job of my life» e pode ser uma luz ao fundo do túnel para os milhares de jovens que engrossam as listas do desemprego.
Os que ainda não são licenciados terão a oportunidade de frequentar um curso de três anos no sistema dual, com direito a estágio numa empresa. Os cursos arrancam em setembro e, no final, o emprego está assegurado.
Para concorrerem, os jovens precisam estar registados no Instituto de Emprego e Formação Profissional.
«A Alemanha precisa de jovens trabalhadores motivados.
Esta é a oportunidade de aprenderes uma profissão com futuro e teres um bom salário».
As áreas em que a Alemanha mais precisa de mão-de-obra qualificada incluem as engenharias (mecânica, eletrotécnica, eletrónica, automóvel, aeronáutica, gestão de qualidade, distribuição / vendas, química, ambiental); Tecnologias de Informação (desenvolvimento de software e hardware, programação); Hotelaria e Restauração (cozinheiros, empregados de mesa, rececionistas); Profissões Técnicas (soldadores, serralheiros mecânicos, operadores e programadores de CNC, mecânicos auto, canalizadores); Saúde (médicos, enfermeiros e parteiros, fisioterapeutas).
Para responder a essas necessidades, a Alemanha está a tentar cativar jovens não só de Portugal mas também de outros países europeus, onde a crise elevou o desemprego, como Grécia, Espanha ou Itália.
A necessidade de contratar trabalhadores qualificados é tão premente que as autoridades alemãs decidiram vir recrutá-los diretamente aos países de origem.
Assim, a partir de dia 19 deste mês, arrancam um “road show” pelas cidades portuguesas, para dar a conhecer o programa aos jovens e recolher já candidaturas.
A «Welcome to Germany Tour 2013» vai passar por Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Lisboa, Setúbal, Évora, Faro e Portimão, para informar, aconselhar e pré-selecionar profissionais portugueses interessados em trabalhar na Alemanha .

 

 

DouroAzul em processo de recrutamento

No âmbito de crescimento da sua frota, a DouroAzul criará 222 novas oportunidades de trabalho a bordo dos seus navios hotel, nas áreas da Hotelaria, Náutica, Manutenção e Transporte Terrestre de Passageiros.
Na área da Hotelaria, a empresa procura directores de navio hotel, assistentes de bordo, recepcionistas, chefes de cozinha, cozinheiros de 1ª, barmans, ajudantes de cozinha, empregadas de quartos e copeiros.
Os interessados deverão enviar resposta com indicação da função a que se candidata acompanhada de CV e foto para recursos.humanos@douroazul.pt ou em www.douroazul.pt.

Sónia Machado
Técnica Superior
Apoio ao Empresário
Departamento de Informação e Gestão do Cliente

Turismo de Portugal, I. P.
 | Tel. + 351 211 140 210 | Fax. + 351 211 140 993
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Fotografia de INÊS MARTINS - http://inesmartinsphotography.wordpress.com/



Se procura boa fotografia, consulte este site de INÊS MARTINS:





Catálogo EXOTERRA



A Exoterra tem o grande prazer de apresentar a V. Ex.ª o seu mini catálogo 2012

Presentes de Empresa e Meios Promocionais.

Na elaboração deste catálogo tivemos como preocupação dominante apresentar uma pequena amostra dos nossos produtos.
Assim na secção dos presentes de empresa fizemos questão de consagrar ofertas de inegável qualidade e prestígio que poderão servir para uma melhor opção na criação de presentes, que por certo não deixarão indiferentes todos quanto com eles venham a ser privilegiados.
Nos meios promocionais reunimos um pequeno leque de artigos que demonstrama vasta gama de produtos que poderemos disponibilizar para a promoção, divulgação das marcas, produtos e serviços da V.ª Empresa.
Na expectativa de termos ido ao encontro das pertenções mais exigentes, neste domínio, ficamos desde já, à V.ª inteira disposição, com a certeza de uma experiência alicerçada em vários anos e tudo faremos para assegurar, um cuidado e eficiente serviço a quem honra contactar-nos.

Exoterra, Lda.

Sede: Rua da Igreja, 8 - 5160-041 Cardanha - Torre de Moncorvo.
Delegação: Rua Joaquim António de Aguiar, 275 - 4300-465 Porto.
Tel.: 225371729 - Telem.: 919735948 - E.mail: geral@exoterra.pt















                                                 

Virgilio Gomes - Expedição Gulosa


Há dois anos que tinha vontade de descobrir Sobral, no Brasil, depois de ter lido o capítulo “A Tradição Doce” do livro “Artes da Tradição: Mestres do Povo” da autoria do prestigiado Gilmar de Carvalho. A minha maior curiosidade, ou interesse, prendia-se com o facto de, naquela localidade, ainda se confecionarem os famosos Fartes, Fartens, ou Fartéis como são referidos na carta de Pero Vaz de Caminha anunciando ao Rei D. Manuel I a descoberta do Brasil em 1500. Doces chegados à terra de Vera Cruz antes de ser Brasil. Claro que no texto de Gilmar de Carvalho são citados outros doces de origem lusa (Alfenins, Bulins, Esquecidos, Sequilhos, Queijadinhas, Bolos de Milho, Pudim Tentador e Pão-de-ló Confeitado) mas os Fartes provocavam a maior curiosidade pelo facto de terem sido os doces embarcados nas naves que partiram de Lisboa e chegaram a estas terras e foram oferecidos às populações de índios que os aguardavam na costa, mas que parece não terem apreciado Depois, ainda, a curiosidade pelo facto do famoso bispo D. José Tupynambá da Frota (1882-1959), primeiro bispo de Sobral, ter incentivado a confeção de doçaria de origem portuguesa. Esta expedição dará oportunidade a várias crónicas, sendo esta a primeira.

 
Notas de uma viagem ao interior do Brasil:


 

 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A austeridade aos olhos de alguns escritores transmontanos



A iminência da bancarrota provocada pelo desgoverno da I República, a principal causa do atraso do país, deu origem a uma Ditadura Militar. E por consequência, a que o Doutor Oliveira Salazar, a cinco de Julho de 1932, se tornasse no primeiro civil a chefiar um governo desde o golpe militar de 28 de Maio de 1926. Pelo êxito que teve ao apresentar um superavit (de 300.000 contos à época) no seu primeiro orçamento, em Agosto de 1929.
Postas em ordem as contas públicas, viveu-se um período de 22 anos de aperto. Até aos princípios de 1950, altura em que o país começou a prosperar. Pelo meio coarctaram-se as liberdades[1] e a miséria de vida foi aquilo que se conhece.
A democracia implantada em Abril de 1974 com os seus desmandos, associada a um período de desgoverno total de (quase) sete anos (período socrático), atirou-nos (finalmente) para a bancarrota. E esta para um período de austeridade que, na melhor das hipóteses, durará, pelo menos, 15 a 20 anos. Queiram, ou não queiram os grupos de pressão. E se alguns com algum poder de fogo e de repasto, se acharem donos e senhores do país, a Europa (principalmente a Alemanha, antigo império sacro romano) se encarregará de mandar para cá um destacamentozinho, para impor a ordem.
 
Ninguém melhor que os artistas da escrita para nos elucidarem o que é a verdadeira austeridade. Poderíamos chamar à liça uma centena de escritores. Um milhar até. Ou mais. Nacionais ou estrangeiros. Ficamo-nos por quatro mestres da escrita; transmontanos. Que nos desculpem outros tantos ou mais, mas são os que temos à mão.
 
 
De “A Loba e o Rouxinol” de A.M. Pires Cabral (Macedo de Cavaleiros, n. 1941) extraímos uma citação sobre o modo de vida de uma família remediada transmontana: “ Era assim, naquele tempo, na generalidade das famílias simplesmente remediadas como a nossa. Cada um tinha um fato novo pela Páscoa e depois, ao longo do ano, não se falava mais em roupa nova, tirante um par de calças de cotim e alguma camisa de popelina, talhada por costureira. Se preciso fosse, sujeitávamo-nos a trazer as calças com as odiosas cuadas, remendos no fundilho que, ainda que fossem do mesmo tecido, sempre pareciam intrusas e humilhantes, uma chapada berrante de pano velho descorado pelo uso. Os irmãos mais novos aproveitavam as roupas sucessivamente deixadas em bom uso pelos mais velhos à medida que estes cresciam” […] “Não obstante a austeridade, quando fazíamos treze anos o Pai atribuía-nos uma semanada”.
E o que era uma semanada naqueles longínquos anos de 1954? Como nos diz o autor, eram 25 tostões!
 
 
Das “Histórias da Vermelhinha” de Bento da Cruz (Peireses, Montalegre, n. 1925), respigamos um episódio de alguém muito pobre, abaixo do remediado: “ Ao tempo, um par de botas era um luxo raro e de estimação. Quem as conseguisse, tinha de as poupar, como aquele rapaz que, ao fim de sete anos a servir Labão, conseguiu uns butes de cem escudos, feitos de encomenda pelo Coclas de Montalegre, obra acabada. Estreou-os pela Páscoa, a 5 de Abril, e só resolveu calçá-los de novo para a Senhora da Livração, a 15 de Agosto. Ia ele a caminho das Boticas, todo concho, descalço e botas ao ombro enfiadas no varapau. De repente, espeta uma topetada numa pedra e esborracha o dedo grande do pé.
- Olha se eu trazia as botas calçadas! Que tal as punha … – exclama ele, todo satisfeito.
Vão-se os dedos, fiquem as botas …
 
 
Das “Memórias de Céu e Inferno”, de António Passos Coelho (Valnongueiras, Vila Real, 1926) se transcreve o modo de vida de alguém absolutamente “miserável” em termos de dignidade humana: “ O nosso casebre resumia-se a pequeno quarto e dois compartimentos também de restritas dimensões, separados um do outro por um taipal e com uma cortina a fazer de parede fronteira; davam para um espaço mais amplo, em que se incluía a cozinha, com lareira e forno de lenha, de alqueire, que devia funcionar semanalmente se houvesse posses para mercar a indispensável farinha” […] “Minha tia ganhava algum em abastecer de água a casa da professora, que lhe retribuía com dez escudos mensais” […] “A bem dizer sustentávamo-nos de caldo, e muitas vezes não tínhamos pão para lhe migar. No tempo quente andávamos descalços, no frio sempre se conseguiam umas chancas, que não duravam sempre. A roupa era de remendos em cima de remendos, e, assim mesmo, escassa. Lembro-me de andar todo o dia coirapato para a tia lavar, corar, secar a minha única roupa”.
 
 
Não resistimos, finalmente, a esta bela passagem de “Ernestina” de J. Rentes de Carvalho (Vila Nova de Gaia, 1930)[2]: “ Nesse tempo em que o correio era luxo caro, pedia-se aos almocreves que dessem recomendações aos parentes de Chacim, a dia e meio de jornada, que se visitavam quando muito uma vez por geração”.
 
 

 
 


Post-scriptum
A reflexão a seguir não pertence a este escrito, mas a ela voltaremos brevemente com escrito próprio e aprofundado. A miséria deste país deve-se, em muito, à classe medíocre de comentadores e colunistas. Se não vejamos. Porque razão se procura ridicularizar uma medida cujo princípio é correcto, como o das facturas? Porque a mente de quem a comenta é perversa. Tão simples quanto isto.
Fosse a medida tomada há pelo menos 20 anos e, possivelmente, casos como o BPN, e outros semelhantes, não tivessem existido. E o povo português, não estaria agora a pagar uma factura que não é sua.
Armando Palavras
 
Referências:
CABRAL, A.M.Pires, A Loba e O Rouxinol, Âncora editora, 2004, pp. 40-41.
CARVALHO, J. Rentes, Ernestina, Quetzal, 2009, p. 14.
COELHO, António Passos, Memórias de Céu e Inferno, Fronteira do Caos, 2012, pp. 14,15 e 18.
CRUZ, Bento da, Histórias da Vermelhinha, Noticias editorial, 1991, p. 18


[1] Se algum período houve que igualou o período salazarista no que concerne à coarctação das liberdades, foi a época socrática. Nunca nos sentimos tão livres como a seguir a Junho de 2011! A falta de liberdade no país, e o silenciamento de alguns, continua em pequenas instituições, cujas chefias são desse tempo de má memória.
[2] Com ascendência transmontana. A sua família era originária dos Estevais, pequena aldeia do concelho de Mogadouro, onde o autor passou grande parte da vida, e ainda continua a ir por temporadas anuais, quando regressa da Holanda, pais que o acolheu há décadas, e onde constituiu família.
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Dos apertos de Salazar à invectiva da Vila More






Quando o Governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas tomou conta do País, após eleições justas e livres (legitimas), em Junho de 2011, a Nação estava na bancarrota (é bom lembrar, embora os seus responsáveis procurem, por todos os meios, como se viu recentemente, mudar a História[1]). A sua divida pública era considerada lixo, não havendo nenhum investidor nela interessado.

As causas da bancarrota são hoje por demais evidentes, até para o cidadão comum. Mas a principal foi, sem dúvida, a péssima governação socialista (socrática). Aos devaneios económico/financeiros, juntaram-se factores sociais e humanos, como as patifarias desnecessárias (mas execráveis) sobre cidadãos indefesos, que tornaram esse período o mais nefasto da História Portuguesa, nestes últimos 100 anos. A seu tempo, com a distância necessária, a própria História se encarregará de o demonstrar.
Perante isto, com o País como protectorado da União, uma divida colossal para pagar (com buracos que ainda não são públicos!), um pântano administrativo (com os lugares de chefia, mesmo os intermédios, ocupados por gente socrática – e ainda por cima medíocre) e outras questões (umas menores e outras complexas) por resolver, não restou ao actual governo cumprir com o memorando assinado (e mal) por quem nos trouxe até aqui. E ao povo português, coube pagar injustamente a factura que não é sua.
Dois anos passados de declarada a bancarrota, o país consegue ir aos mercados, a compra da nossa divida pública já não é problema, mas as condições sociais do povo são muitíssimo preocupantes, com o desemprego em flecha e a desagregação humana provocada pela pobreza.
Quando o Doutor Salazar em 1928, com uma situação idêntica à actual (mas não igual porque o país não estava em total bancarrota) no seu discurso de posse, sabendo para onde ia, insinuava que se lhe não exigisse resolver o problema do défice orçamental em poucos meses, tinha condições únicas (que o governo actual não teve nem tem) para a resolução do problema. Desde logo, impôs condições draconianas para aceitar a pasta das Finanças (imposição impensável em democracia), com uma Ditadura Militar a guardar-lhe a retaguarda. Mas o aspecto mais importante para o seu êxito e triunfo, apresentando em Agosto de 1929 (um ano e quatro meses depois de tomar posse) um superavit no seu primeiro orçamento, foi não ter necessitado de pedir um empréstimo ao exterior. Embora o tivesse previsto e tentado.
A ordem das contas públicas originou o que toda a gente sabe: a “miséria franciscana”. E só nos princípios de 1950 o país começou a prosperar (2). Viveram-se 22 anos em aperto constante.
Queiram os portugueses, ou não queiram, invente José Seguro o que inventar, mesmo que consigamos caminhar sozinhos no período pós troika (e disso não temos dúvidas porque há gente para isso), esperam-nos, na melhor das hipóteses, pelo menos, 15 a 20 anos de aperto. Foi a isto que os socráticos nos trouxeram!
Enquanto isso, um grupo de obstinados anda por aí a cantar Zeca Afonso – a Vila Morena. Porque não precisa de trabalhar, pois então!
Armando Palavras


(1) É esta a grande razão porque se chegou ao obtuso “Documento de Coimbra” (a que António José Seguro, procura resistir com toda a razão) para a tomada de poder assim que seja possível (quanto mais rápido, melhor. Para os socráticos). Mas sim da classe politica.
(2) Entre 1950 e 1973, Portugal passou pelo período mais próspero da sua História. E já agora, mesmo não sendo este o objectivo do escrito, em 1970, 1971 e 1972, registaram-se taxas de crescimento económico ao nível das registadas na China actual!

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