segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pedaços de Portugalidade angolana


BARROSO da FONTE
Ambriz, Ambrizete, Caxito,Tomboco e Nóqui são vilas da zona norte de Angola, juntinho ao Atlântico que os marinheiros portugueses, cedo se habituaram a cruzar rumo ao Oriente. Depois de uma presença ativa no coração dos Dembos, entre Zemba, Mucondo e Nuambuangongo, conheci Ambrizete, Ambriz e Caxito entre Junho de 1966 e Maio de 1967. Uma Terra que qualquer cidadão do mundo gostaria de conhecer, em tempo de paz.
Um coronel Amigo que nasceu em Angola e vive em Lisboa, Luso-angolano culto, coerente e com um coração do tamanho da epopeia Luso-africana, fez-me chegar excertos de uma «narrativa- naval» que reuniu num volume publicado em 1908, pelo punho do repórter João Braz d'Oliveira.
Às portas de mais um 25 de Abril, vale a pena fixar partes deste excerto, para meditação de muitos luso-angolanos que não mais esquecem este chão «onde – à imagem bíblica – corre leite e mel»

«A 1 de março de 1860 desembarcaram no Ambriz 121 praças e 5 oficiais dos navios da Estação Naval de Angola, corveta Goa, brigue Pedro Nunes e escuna Cabo Verde. […] O comandante da força de desembarque era o segundo-tenente Augusto Marques da Silva […]. Depois do desembarque – difícil pelo rolo da calema na praia – marchou a marinhagem para a fortaleza do morro do Ambriz […]. Era quase noite quando se mandou dar aquartelamento à marinhagem num barracão da Alfândega, imundo telheiro desmantelado onde ninguém conseguiu dormir. Os ratos e as baratas enxameavam […]. Cozinhou-se o rancho, que foi distribuído tarde e a más horas, e quando o cansaço começou a vencer os homens para adormecerem no lajedo, às 2,30 (am) tocou a reunir e marcharam para o rio Loge, na margem esquerda do qual bivacava uma força de infantaria indígena com o tenente Pimenta, uma peça de artilharia de Luanda e vários auxiliares pretos, gente do soba Cabouco, armada de lanças e machados, e algumas espingardas. Ao romper do dia apareceu o governador Amaral, a cavalo, seguido do seu estado-maior montado, e ordenanças. Passou revista à força, depois formou-se a coluna de marcha […]. À 10,30 (am) de 2 de Março de 1860 forçaram a passagem do rio Loge e, mal a vanguarda se meteu à água, por todo o mato da margem fronteiriça rompeu vivo tiroteio. Rufavam estrondosos os batuques de guerra das sanzalas, estrondeava nos ares a grita da negraria, que se animava para a luta […]. A vanguarda respondeu ao fogo e toda acoluna […] transpôs o rio e investiu com o matagal, onde o inimigo não teve ânimo para esperar o assalto. Debandou e retirou para fora do alcance das baionetas e, distanciado à frente da coluna, de quando em quando escaramuçava nuns fogos de retirada. […] Ao meio dia – sol a pino e em calmiço a viração do mar –, extenuada a gente pela marcha, alguma ia ficando à retaguarda. Percebia-se o alongamento da coluna, e já se dizia que cinco praças tinham sido mortas pelo gentio, que vinha espiando os transviados […]. Apareceu então à frente, dominando o terreno que seguiam, uma sanzala com a sua paliçada habitual […]. Era provável haver na sanzala água para o povo, e a coluna entrou de roldão pelo recinto. Meia dúzia de tiros lhe franqueou o passo. Fugiram os defensores e, sedentos, os soldados buscaram água com empenho […]. Debalde se lhes dizia que podia estar envenenada. Bebiam ofegantes como se fosse cristalina. […] Encheram-se os cantis. A corneta tocou a avançar […]. A sanzala ardia, como se o fumo e as labaredas das cubatas fossem parte obrigada do cenário da guerra africana.

[…]Às 6,30 (pm) chegou a força ao Ambrizete […]. Quando se deu a voz de Alto!, muitos tombaram para o chão, e ali se quedaram desfalecidos […]. As feitorias do Ambrizete estavam militarmente ocupadas por marinhagem inglesa, que a pedido dos feitores desembarcara da esquadra do cruzeiro […]. O governador e o seu estado-maior, que tinham vindo a cavalo, estavam relativamente bem-dispostos. Discutiam com o oficial inglês sobre a conveniência de acampar ali aquela noite, e no dia seguinte continuar as operações. […] Hesitava o governador em resolver o pleito e, por fim, como quem toma uma resolução suprema, deu ordem de retirar para o Ambriz. Era noite e, em tão precárias circunstâncias, cansados, sedentos e famintos, desandar todo o caminho percorrido era quase impossível poder-se realizar a salvo. Mas o general manda e o soldado obedece […]. A marinhagem ficou na guarda dos flancos e, ao iniciar-se a marcha de regresso, […] os negros apareceram seguindo a força, trocaram-se tiros para os não deixar chegar perto […]. Unidas nos mesmos sentimentos, as praças da Armada tinham jurado não deixar algum camarada à retaguarda […]. O tenente Nunes de Carvalho caiu por terra extenuado. Dizia que o deixassem morrer, visto o corpo não poder vencer a fadiga que o prostrava. […] Os marinheiros não queriam abandonar o seu tenente. Era ponto de honra levá-lo em sua companhia […] Então, debaixo da saraivada de chumbo que ricocheteava no terreno […] à grita da horda […] do clarão dos tiros […], se viu um grupo de quatro homens, dois levando em braços o tenente e os outros de carabina em punho defendendo-o, transportá-lo para o amparo do cordão de atiradores, e seguirem para a frente.

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