segunda-feira, 18 de abril de 2016

Cartas de um líder revolucionário para uma musa Transmontana


BARROSO da FONTE
 Adquiri um dos primeiros exemplares da 1ª edição das Cartas de Amílcar Cabral para Maria Helena Ataíde Vilhena Rodrigues, nascida em Casas Novas (Chaves), sua condiscípula no Instituto Superior de Agronomia, com o qual casou e de quem teve duas filhas: Iva (coordenadora destas cartas e reitora da Universidade Lusófona de Cabo Verde) e Ana Luísa que vive em Braga, onde sua mãe faleceu e foi sepultada, em 2005.
Amílcar Cabral estagiou na Zona Agrária de Trás-os-Montes, conheceu Casas Novas e foi primo,  de Nadir Afonso e também do escritor Júlio Amorim de Carvalho. Maria Helena e Amílcar Cabral (pai da Independência da Guiné) foram compadres de outro notável casal, igualmente pais da República Popular de Angola e igualmente ligados a Trás-os-Montes. Refiro-me a Maria Eugénia da Silva e ao médico Agostinho Neto. Ela nasceu em Montalegre em 8 de Março de 1934. Com 83 anos, está ainda cheia de saúde e de genica intelectual, continuando a publicar poesia e prosa de boa qualidade e a trabalhar pelo enraísamento da Fundação Agostinho Neto.
Tive a felicidade de ser filho de um trabalhador rural que prestou serviço no Posto Experimental Agrícola de Montalegre, ao tempo em que o estagiário Engº Amílcar Cabral ali estagiou. Meu pai falou-me dele, com muita ternura, pela sua educação e simplicidade. Dali partiu com a Esposa para África, onde ele lutou pela grande Causa que assumira, no seio da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, com Agostinho Neto e vários outros mentores da libertação dos Povos Africanos que foram partes integrantes de Portugal. Tive o azar (de que não estou arrependido) de ter sido mobilizado para prestar serviço em Angola, como oficial miliciano ranger. Nunca dei um tiro, nem usei qualquer granada para «matar» negros. Ao contrário do que escreveu António Lobo Antunes, na sua escrita mentirosa e infame, sobre este tema. Já  afirmei muitas vezes que, ao contrário do que ele escreve no tocante a mortos, eu e muitos milhares, pacificámos, instruímos e até fizemos amor com alguma daquela Gente como nós, que nos compreendia, nos respeitava e que, ainda hoje, suspira por nós, face à frustração dos maus políticos que nos têm governado. É importante que isto se diga aos quatro ventos, já que a guerra do Ultramar não foi desencadeada para isso, nem os combatentes eram mobilizados para «matar», para destruir ou para pilhar aquilo que tinha dono.
  É certo que essa guerra era estúpida, fratricida em casos pontuais, com minas, emboscadas ou golpes à mão armada. Mais ou menos como nos dias de hoje, na metrópole, também as forças da segurança, cercam bairros, operações stop ou ou coisas do género, não para matar, mas para revistar, apreender droga, material proibido, ou capturar marginais.
Essa guerra tinha de acabar porque, durante treze anos, ela não era travada com os  profissionais que voluntariamente  escolheram esse modo de vida, mas pelos soldados em geral e pelos milicianos que eram recrutados à força para substituir aqueles militares, com patentes de alferes a capitão. Quem deveria ter reivindicado estatuto igual para tarefas iguais, eram os milicianos e não os do quadro. Mas como eram aqueles que possuíam as armas e o poder do comando, prevaleceu a lei do mais forte. Eis como se operou o 25 de Abril que foi justificado com a «salvação do povo»,  mas foi – isso sim – para impor uma reivindicação de classe. Foi um golpe de estado para impedir o acesso dos milicianos aos postos que os do quadro impunham como, exclusivamente, seus. Postos que, durante 13 anos, os milicianos desempenharam, competentemente, servindo, ora como comandantes de pelotão, como de companhia.
   Numa altura em que começam os filhos, os netos e os bisnetos, a impor os seus direitos cívicos, chegam também factos que ajudam a clarificar as novas gerações para que se dê voz aqueles (pais) que nunca puderam expor as suas razões. São horas de transmitir a verdade que nunca nos foi reconhecida. Esta inveja e raiva profissionais nunca foi explicada às novas gerações.
  Ora o volume de cartas de Amílcar Cabral para a sua mulher Maria Helena, vem clarificar muitas dessas verdades.  Em primeiro lugar o racismo evidente: cada território africano exigia ser governado pelos naturais desse território. Sobretudo os líderes desses movimentos não podiam casar com brancos. Rua, pois, com brancos fosse por causa da cor da pele, fosse pelo direito de posse da terra.
AGOSTINHO NETO e a esposa MARIA EUGÉNIA
 A morte de Agostinho Neto, ocorrida fora do país, na sequência de uma operação cirúrgica, nunca foi esclarecida. Porque a mulher, loucamente amada, era branca. Do mesmo modo, Amílcar Cabral que casou com uma Senhora de cor branca: foi assassinado por membros do PAIGC que Cabral havia fundado na Guiné. Nasceu em Bafatá. Mas os pais eram de Cabo Verde. E por isso que fosse lutar pelos Cabo-verdianos... Deliciosas estas 53 cartas. O volume é oportuno, mede a grandeza de alguns, em confronto com outros. Verdadeiras telas linguísticas...
Quando ocorre o 42º aniversário do 25 de Abril de 1974,vale a pena ler este livro que para além de homenagear o cérebro do PAIGC e de quase todos os restantes movimentos independentistas, foi um homem culto, educado, pai amoroso e, ao mesmo tempo um verdadeiro agente da Língua Portuguesa.

                                                        Barroso da Fonte

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