segunda-feira, 11 de abril de 2016

Angola, ontem e hoje

27 Jul, 2015
Jornal O Diabo - NUNO ALVES CAETANO

Nos últimos tempos têm vindo a lume inúmeras notícias sobre a crise financeira que Angola atravessa actualmente, em consequência da diminuição do preço do petróleo, originando uma situação deveras preocupante que se traduz no aumento da inflação e do custo de vida, mas sobretudo no incumprimento de compromissos básicos como o pagamento de salários na Função Pública e de facturas aos fornecedores, originando falências sucessivas, deteriorando ainda mais a sua já débil economia.
O petróleo representa 42% do PIB, 90% das exportações e 75% das receitas do Estado e as receitas totais de Angola, de capital e correntes, decresceram 85% face ao ano transacto, tornando-se fácil, face a estes números, entender o drama por que está a passar aquele país africano.
Meditava em tudo isto quando me veio à memória o que era Angola em 1972 e nalguns casos com dados até Maio de 1973 (não vou contabilizar os quatro meses de 1974, porque a partir daí Angola entrou em colapso, graças ao processo da “descolonização exemplar” levada a cabo pelos socialistas e comunistas portugueses), sendo então Governador de Angola o Engº Santos e Castro que, seguindo a anterior política de governar com a cabeça bem assente, sem demagogias, sem interesses próprios, pensando apenas no bem comum, e com competência, fazia daquele território o mais cobiçado de África – daí os diversos apoios estrangeiros aos “terroristas” – cuja economia, além de ser um exemplo, fazia inveja a muita gente.
Ora, dentro dos critérios anteriormente descritos, a diversificação tornava-se palavra de ordem, e assim a economia angolana prosperava através do investimento agrícola, industrial, científico e de turismo e serviços, com resultados espantosos e crescimentos assinaláveis.
Para se ter uma ideia, passarei a transcrever alguns dados, mantendo os valores em escudos (lembro que mil escudos representava um conto de réis, o equivalente a € 4,987).
Comecemos pela exploração de minérios: o total de exportações no ano de 1972 foi de 96.142.702$00 (como exemplo refira-se que entre 1967 e 1972 Cassinga exportou 24 milhões de toneladas de minério de ferro de alto teor); o total de exportações de café atingiu 37.095.932$00, no mesmo ano; a produção de algodão ocupava uma área superior a 100 mil hectares, atingindo cerca de 95 mil toneladas de produção em 1972, correspondendo a um valor a rondar os 550.000 contos, tendo-se exportado algodão no valor de 332.037 contos em 1972; o valor das exportações do café em grão atingiu os 2.183.937 contos (até Maio de 1973; o total em 72 cifrou-se nos 3.834.941 contos); a exportação de diamantes contabilizou 724.152 contos (até Maio de 73 – 1.583.059 contos em 72); as exportações de sisal orçaram os 117.722 contos até Maio de 1973 (332.037 contos em 1972); petróleo em bruto, 1.540.585 contos até Maio de 1973 (3.535.396 contos, em 1972). Veja-se que em primeiro lugar nas exportações estava o café em grão, secundado então pelo petróleo.
Quanto a índices de produção em 1972, temos (em contos): produtos alimentares – 3.760.780; bebidas – 1.067.779; tabaco – 580.121; têxteis – 1.080.403; borracha – 304.294; químicas (inclui óleos e farinha de peixe) – 1.275.845, etc., sendo que o total de produção no sector industrial atingiu o valor total de 11.479.774 contos.
Na área da pecuária, Angola bastava-se a si própria, produzindo em 1971 47.915 toneladas de carne, das quais exportava aproximadamente 2.466 toneladas. A pesca atingiu em 1972 um milhão de contos em captura, correspondendo a 599 toneladas, sendo o Distrito de Moçâmedes o principal responsável por estes resultados com uma captura na ordem das 375 toneladas. Também a importância das madeiras tropicais foi aumentando e em 1971 exportaram-se 111.687 toneladas de madeira em toros e serrada no valor de 170 milhões de escudos. O açúcar chegou a atingir as 40.000 toneladas anuais de produção.
Paralelamente a estes dados há que referir o esforço e desenvolvimento económico em áreas tão diversificadas como a saúde, assistência social, educação, científica, construção de estradas, portos, barragens e aeroportos.
Na saúde e assistência social destaca-se o combate às doenças endémicas, a assistência sanitária – em 1973 estava-se à beira das metas exigidas pela O.M.S. – e a construção de hospitais e centros, bem como de bairros sociais; na educação, a abertura de escolas, liceus e universidades (em 1972 entre o ensino primário e liceal existiam 5.424 estabelecimentos de ensino para um total de 16.506 professores e 565.150 alunos); a construção de barragens e a existência de sete importantes centrais hidroeléctricas; os caminhos-de-ferro, através das Companhias de Benguela, Moçâmedes, Luanda e Porto Amboim que actuavam sem interligações num total de 2.653 quilómetros; o investimento em estradas atingiu o valor de 7.882.188 contos, ligando todas as capitais de Distrito a Luanda, com excepção de S. Salvador (previa-se a conclusão dos trabalhos para finais de 1974), com relevo para a destruição do mito do “Meridiano 17”, e finalmente a construção de diversos aeródromos e aeroportos bem como de, por exemplo, a ampliação do porto de Luanda.
E como resultado desta política, Angola, em 1972, apresentava um saldo positivo na balança de pagamentos na ordem dos 960 mil contos, sendo que em 1973 se atingiu a capacidade própria de bens essenciais ao desenvolvimento da produção interna, a par com o esforço de liquidação de dívidas acumuladas, esperando saldar a dívida em 1975, assente numa política da diminuição das importações e aumento das exportações. Em 1973 exportou mais 11 milhões de contos do que em 1972, enquanto as importações tiveram apenas um crescimento de 1400 mil contos.
E foi esta Angola em plena pujança social e financeira, não dependente do petróleo, que os arautos da “descolonização exemplar” encontraram e que quarenta anos depois é considerado um dos países mais pobres de África (independentemente das riquezas naturais que possui e de que dispõe), e com um dos maiores índices de mortalidade do mundo, sem estradas, sem agricultura, sem saúde, sem educação, sem estratégia e sem economia, dependente apenas do “ouro preto” (enquanto for ouro), que para conseguir empréstimos no exterior tem que “hipotecar” território nacional, agora sim à laia de “colónia” de deixar qualquer angolano de “olhos em bico”.
Uma derradeira, mas importante ressalva. Todos os números apresentados dizem respeito aos respectivos anos, não tendo existido qualquer indexação ou correcção monetária, ou seja, são números de há 43 anos!
Contra factos, não há argumentos.

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