segunda-feira, 14 de março de 2016

Um poeta transmontano, que vê e dá… à transmontana

Por Costa Pereira Portugal, minha terra. 


Neste poema João de Deus Rodrigues faz com arte e engenho de poeta um retrato social do país real em que nascemos e vivemos. Pela sua oportunidade, e recordamos  por sugestão de pessoa amiga o poema que transcrevo:



A chegada de "ET" modernos


Chegaram em silêncio à capital do reino.
Não eram personagens de contos de fadas,
Nem de contar histórias para adormecer criancinhas.
Não. Eram criaturas imponentes, com treino,
Para lidar com situações embaraçadas,
Que só eles estavam aptos a ver.
E cuja solução, os sábios iluminados do reino
Não tinham capacidades para resolver...


Trajavam fatos, gravata, e chapéus,
Dos melhores costureiros alemães e parisienses.
Transportavam na mão malas inteligentes,
Programadas para darem sábios conselhos,
Aos anfitriões, novos e velhos,
Que os receberam como enviados dos céus ...


A sua postura era impecável perante os convidados,
Que os aguardavam, reverentemente curvados,
E depois os acompanharam aos aposentos, reservados,
Onde, sem demora, analisara gráficos cerebrais,
Guardados a sete chaves, dos ignorantes do mundo,
E lhes apontaram os caminhos a seguir, como aos demais,
Para urgentemente tratarem do "doente moribundo" ...


Imperturbáveis, senhores do seu saber e poder,
Deram início à reunião, começando por dizer:
Vexas, cortam aqui e ali, encerram ali e além...
Tiram funcionários daqui, e para o seu lugar
Não vai ninguém.
Mudam regras, acordos, decretos-lei, leis e projectos...
Despedem operários, engenheiros e arquitetos.
Fecham hospitais, maternidades e desperdícios que tais...


Médicos e enfermeiros mandam-nos emigrar,
Que são demais ...
Aos estudantes, licenciados, cientistas e doutores,
Recomendam-lhe a China, para aprenderem a ser senhores...
E quanto aos outros trabalhadores, honestos profissionais,
Obrigam-nos a laborar mais horas. sem receber mais ...
Aos funcionários públicos exigem  que sejam asseados,
Obedientes, aplicados e dedicados,
E só lhes tiram, agora, uma parte dos ordenados ...


Aos outros Agentes do Estado tiram-lhes subsídios, regalias,
O chá, o café, todo o tipo de papel e outras mordomias...


Aos pensionistas e reformados exigem juízo!
E dizem-lhe para não serem caducos.
Porque, até ver, não vão ficar malucos...


E, desde já, seja imposta esta regra de oiro
A toda a população em geral:
Nunca dizerem em situação alguma, não.
Porque esse maldito palavrão não faz parte
Da nossa receita, ética.
Para salvar o bem-estar de uma Nação ...


E quanto ao mais, aqui omisso, digam que fomos nós
Que mandámos fazer isto, para bem de todos vós,
E que somos "ET" e não falamos a desconhecidos.
E se nos chatearem, vamo-nos embora
E ficam todos perdidos
E na ignorância, permanente,
Neste limbo em que estão metidos...
Porque não têm habilitação, sequer, para lavrar a terra,
Nem semear as hortas. E, por isso,
Podem ficar, até, sem os tomates,
Os nabos, as cebolas, os repolhos e o pão, como na guerra ...
Portanto tenham cuidado, porque nós, os "ET",
Vamos estar em todo lado e ninguém nos vê...
E vamos vigiá-los noite e dia, permanentemente,
Para vermos, a partir de agora,
Quem mais mentiu ou mente ...


E findos estes sábios conselhos , a bem da Nação,
Todos os presentes ali reunidos,
Rejubilaram de alegria e brio.
E na Praça da Canção,
Camões deixou cair os Lusíadas ao chão,
E no palácio, abriram-se as portas
Para entrar a corrente, fria, do rio.

In MEMÓRIAS E DIVAGAÇÕES”.


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