sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Um Dia na Vida de Ivan Denisovich - Aleksandr Soljenitsin

  
Sextante Editora, 2012
A revista Veja, em Outubro de 1962, sobre a publicação do livro de Solsjenitsin, respigava: “Com publicação prevista para a próxima edição da Noviy Mir, uma revista literária russa, o romance Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Aleksandr Soljenitsin, promete dar detalhes nunca antes conhecidos do cotidiano dos prisioneiros do gulag, o sistema de campos de trabalho forçado da URSS. A obra é muito aguardada tanto dentro como fora do país – afinal, é o primeiro trabalho literário significativo de um dissidente do regime a ser lançado na URSS desde os anos 20”.
Era, na verdade, o primeiro testemunho publicado na antiga URSS, por um dos presos políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia dos Gulag. E parta isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht que há muito se sabia dessa tragédia e continuava a venerar (é este o termo) o sanguinário Estaline.
Foram poucos os sobreviventes, e desses nenhum teve voz para relatar o drama humano que, felizmente, Solsjenitsin teve em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, e mais tarde em Arquipélago de Gulag, publicado no Ocidente em 1973. Temática desenvolvida por outro gigante da Literatura do século XX, em Tudo Passa: Vassili Grossman.



Ivan Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos campos de trabalho forçado, os Gulag, que o regime de Estaline aproveitaria do tempo dos Czares.
Os vários campos de trabalho forçado na antiga URSS
Os detalhes são assombrosos. O personagem do livro é capturado pela máquina do Kremlin sob suspeita de que teria sido espião dos alemães depois de ser capturado na II Guerra. Embora inocente, a sua pena foi de dez anos no Gulag. A narrativa revela um sistema doentio, de repressão aos dissidentes. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!
Alexandr Solsjenitsin preso do Gulag,
com o número de prisioneiro na camisa
O relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Alexandr Solsjenitsin, um historiador à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele próprio, mais tarde prémio Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Num dos campos de prisioneiros no Cazaquistão (Ekibastuz) foi escravizado, em condições sub-humanas, como mineiro e pedreiro, deixando o campo em 1953 à beira da morte, vitima de cancro. Retomou uma vida normal como professor do ensino Secundário, dedicando as noites (em segredo) à escrita deste relato memorável.
A presente edição (Sextante Editora, 2012), segue em rigor a edição russa e no fim, anexa uma nota do autor, onde este explica a génese da narrativa.
Só por milagre a sua detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão de artilharia no Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate. No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um amigo.
Solzhenitsyn nunca questionara a ideologia comunista ou a propagandeada superioridade dos soviéticos em relação ao mundo capitalista. Oito anos nos Gulag tornaram-no um homem ocidentalizado.
Interrogam-se ainda hoje alguns académicos (e não só), porque razão Kruschev autorizou a publicação sem censura. Não foi a questão dos misseis de Cuba, nem outras questões politicas internas ou externas. Se no império soviético essa posição era inédita, na Rússia era antiga. Não existe nenhum grande escritor russo que não tenha passado adversidades idênticas a Alexandr, noutras circunstâncias. E não deixaram de escrever o que escreveram. Não é por acaso que a Literatura Russa é uma das Literaturas maiores de sempre. É disso exemplo DOSTOIÉVSKI, ou Tolstoi.
Quantos desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais dos que foram chacinados no holocausto Nazi. Anne Applebaun em Gulag, trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável.   Armando Palavras

Actualizado a 12  de Dezembro (e a 4 de Agosto, 2017)

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