sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Guerra e política - Vitor Soromenho Marques

Vitror Soromenho Marquers
in: Diário de Noticias
Para Clausewitz a guerra é a continuação da política por outros meios. Contudo, também é verdade que a política nasceu da guerra e, no caso das democracias, constitui a sua ritualização constitucional. As regras são importantes por moderarem o natural conflito entre facções e interesses. A política vence a violência e ao fazê-lo cria as condições para o combate pacífico que alimenta o verdadeiro poder de que depende uma vida social civilizada. Contudo, o estadista deve ter as qualidades do general, e uma das coisas que mais deveremos lamentar na cultura dos dirigentes da III República é uma generalizada amnésia dos assuntos militares e da sabedoria estratégica. A coligação de direita mostrou talento castrense quando concentrou as suas forças numa só candidatura legislativa (escapando à profecia de uma derrota certa) e agora apresentando um só cavaleiro no torneio presidencial. António Costa, por seu lado, usou o efeito-surpresa quando, depois de uma derrota, se reergueu numa manobra tática fulminante, contornando as regras constitucionais que o aconselhariam a aguardar uma segunda chamada presidencial, caso o governo de Passos Coelho não venha a passar no Parlamento. As operações-relâmpago, contudo, dependem vitalmente da solidez e fiabilidade das linhas de abastecimento. Os sucessos dos primeiros dias podem ser gorados se faltar o alimento e o combustível para continuar a campanha. Soldados esfomeados e carros de combate com o depósito vazio podem transformar as promessas iniciais de vitória numa dolorosa e duradoura derrota. E, como já dizia Maquiavel, embora o desejo de "conquistar" (acquistare) seja muito natural, quem o tentar fazer de modo surpreendente será melhor que tenha mesmo sucesso. Dificilmente terá uma segunda oportunidade.

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