quinta-feira, 25 de junho de 2015

Duas versões do elogio Fúnebre de Péricles em provas de exame


A teorização política foi uma criação grega. Terá começado com os Sofistas, deixando sinais claros na tragédia grega, tanto na Antígona de Sófocles como n’As Suplicantes e n’As Fenícias de Eurípides. N’As Suplicantes (vv.405-408), o dramaturgo resume a essência da polis ateniense:

“ … a cidade é livre.
O povo é soberano, através de magistrados
que em cada ano se sucedem. Não se atribui privilégio
à riqueza; o pobre tem os mesmos direitos”.

Embora se admita que este género de debate tenha iniciado com Protágoras, o texto mais antigo que a nós chegou de teorização política é de autoria de Heródoto que situa a discussão em 522 a. C., na Pérsia, conhecida como “Diálogo dos Persas”, cujas palavras aí proferidas deixou os próprios Gregos incrédulos, porque as acharam inacreditáveis.
Contudo, os verdadeiros teorizadores da matéria foram Platão e Aristóteles. O texto do primeiro, figura nos Livros VIII e IX d’A Republica e até mesmo n’O Politico. O texto do segundo está expresso na Politica.
Mas é Péricles, estratego ateniense, que eleva a alma grega à altura das estrelas e lhe dá brilho quando profere o elogio fúnebre aos ancestrais, rendendo-lhes homenagem. Nele resume tudo o que havia sido escrito pelos teorizadores. Foi relatado por Tucídides, na História da Guerra do Peloponeso (Cap.VI, 37). Serviu de Preambulo à Constituição Europeia 2500 anos depois, e de vez em quando, à míngua surge aqui e ali.
Numa feliz ideia dos responsáveis do IAVE (Instituto de Avaliação educativa, IP), um trecho do mesmo serviu para avaliar os conhecimentos dos alunos que prestaram prova de exame na disciplina de História e Cultura das Artes. Surgiu também na Prova de Equivalência à Frequência de História do 3º Ciclo do Ensino Básico, em determinadas escolas.
São óbvias as razões porque damos esta importância ao caso, depois de anos seguidos a obscurecer o conhecimento dos clássicos no ensino. Mas não basta promove-los. É preciso fazê-lo com rigor e zelo. Porque para além das décimas e das centésimas, das estatísticas, da pedagogia e das avaliações, o rigor na Educação está na visão e postura humanistas, na transmissão de conhecimento, de uma ideia ou de um argumento, o mais fiel à fonte.
Se compararmos os dois trechos de exame, chegamos à conclusão que são duas versões. Os textos, embora resumam a essência, na verdade são diferentes. Vejamos:

1 - Versão da prova de exame da disciplina de História e Cultura das Artes, retirada de http//funag.gov.br, pp. 109-111 (adaptado) – consultado em novembro de 2014.

“ Vivemos sob uma forma de governo que não se baseia nas instituições dos nossos vizinhos; ao contrário, servimos de modelo a alguns, ao invés de imitarmos outros. O seu nome, como tudo depende da vontade da maioria e não da vontade de poucos, é a democracia. Nela, no que diz respeito às leis, todos são iguais […], não é o facto de se pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos cargos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de o fazer pela obscuridade da sua condição […] Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. […] Numa palavra, afirmo que a nossa cidade, no seu conjunto, é a escola de toda a Hélade [Grécia] ”.

2 - Versão da prova de Equivalência à Frequência de História do 3º Ciclo do Ensino Básico, retirada do teste intermédio do GAVE – 2011.

“Temos um sistema político que não é decalcado da legislação dos nossos vizinhos. Somos mais um exemplo para alguns do que imitadores do que se faz noutros lugares. O seu nome? Como é um regime concebido não para satisfazer uma minoria, mas da massa, chama-se democracia. Pelas nossas leis, quando os interesses particulares são divergentes, todos são considerados cidadãos iguais (…) A pobreza não conta: se alguém pode prestar serviços à Cidade, não é a humildade da sua condição que disso o impede. É como homens livres que nós administramos o Estado. Entre nós, podem os mesmos homens ocupar-se simultaneamente dos interesses públicos e privados; os que se dedicam às tarefas artesanais podem conhecer suficientemente a política. Somos os únicos a considerar o individuo que não toma parte nesta, não como um amante da tranquilidade, mas como um inútil (…)”.


Existe uma enormidade de traduções deste trecho. Chamamos a atenção para as de Violane Vanoyeke e de David Martelo. A primeira segue um texto francês, o segundo, um inglês.

Armando Palavras

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