quarta-feira, 3 de junho de 2015

A esquizofrenia e John Nash

                  O que a morte de John Nash nos ensina sobre a esquizofrenia

Por Tiago Reis Marques in Jornal público


Foi com muita imensa tristeza que tive conhecimento da morte recente de John Nash. John Nash foi em todos os momentos da sua carreira “uma mente brilhante”, o título perfeito para o filme baseado na sua vida. Foi desde cedo evidente que o seu intelecto era superior, de que é exemplo a carta de referência que apresentou no acesso à Universidade, onde um professor seu apenas escreveu: “Este homem é um génio!”.
Aos 21 anos entrega a sua tese de doutoramento em Princeton, um manuscrito de 27 páginas e apenas uma referência bibliográfica. Esta dissertação, contendo alguns dos princípios matemáticos da teoria dos jogos, está na base do prémio Nobel que lhe é atribuído em 1994. Após o doutoramento seguem-se 10 anos de intensa actividade profissional, sendo descrito num artigo, em Julho de 1958, como uma estrela ascendente na área da matemática.
No entanto, meses após esse artigo, surgem os primeiros sintomas de doença e, aos 31 anos, é diagnosticado com esquizofrenia. Os 20 anos que se seguem são caracterizados por sintomas psicóticos graves, tais como delírios de perseguição e alucinações auditivas, múltiplos internamentos e um infindável número de tratamentos. Durante estes 20 anos perde o emprego, os amigos, a mulher e torna-se uma sombra do que foi. Somente aos 55 anos, e de uma forma muito gradual, se vêm os primeiros sinais de recuperação. Deixa de se isolar, retoma o contacto com velhas amizades e colegas de trabalho, e lentamente retoma uma vida profissional longamente amputada.
Em muitos aspectos, a história de John Nash é semelhante à de milhares de outras pessoas afectadas por esta doença. No entanto, por razões que passo a citar, e não simplesmente por estarmos a falar de um prémio Nobel, esta é também muito particular.
Em primeiro lugar, o impacto da doença na vida profissional e pessoal. Apesar de ser um génio matemático, John Nash não só não publica mais nenhum artigo científico após o diagnóstico, como não obtém nenhuma posição académica ou profissional. Esta alteração abrupta na sua carreira é a consequência de muitos factores, tais como a gravidade dos sintomas, os múltiplos internamentos, os efeitos secundários da medicação, mas também devido aos deficits cognitivos que são característicos da própria doença. De forma semelhante, ainda hoje em dia apenas 10 a 20% dos doentes com esquizofrenia têm um emprego estável, e a taxa de empregabilidade tem vindo a diminuir nos últimos 50 anos. Este declínio é secundário a factores não directamente relacionados com a doença, como as condições de mercado, exigências laborais, ausência de políticas de integração, entre outros. A realidade é que em 60 anos nada avançámos.
O impacto da doença na vida pessoal também é marcado, e John Nash e Alicia acabam por se divorciar em 1963. De forma semelhante, actualmente menos de 30% dos doentes mantêm uma relação afectiva estável ou estão casados. E mesmo entre aqueles casados a taxa de divórcio é superior à da restante população.
É a partir daqui que a vida de John Nash nos ensina algo. Não obstante a ausência de um emprego formal em Princeton, nunca lhe foi recusado o acesso à Universidade, sendo frequente durante os anos de doença vê-lo a vaguear pelo campus universitário e a frequentar as suas instalações.
Os seus antigos colegas também não o rejeitam, convidando-o a frequentar os seus seminários, dando-lhe pequenos trabalhos e apoiando-o financeiramente. Já numa fase posterior, ajudam a persuadir aqueles que achavam que o prémio Nobel não deveria ser dado a alguém com uma doença mental grave. A própria Universidade de Princeton contribui para este processo, criando uma posição académica para John Nash, evitando que um prémio Nobel fosse dado a um desempregado.
Por seu lado, Alicia continuou a tratar de John Nash ao longo dos anos, nunca se tendo verdadeiramente afastado. Com o passar dos anos foram-se novamente aproximando e em 2001 casam de novo, renovando os votos efectuados mais de 40 anos antes.
O curso da sua doença também nos mostra que, ao contrário do que popularmente se imagina, o prognóstico não é uniformemente mau.
A esquizofrenia é uma doença complexa e muito heterogénea no seu prognóstico. Assim, enquanto alguns doentes apresentam uma doença caracterizada por múltiplos surtos psicóticos e internamentos, outros respondem bem à terapêutica, e aproximadamente 20 a 40% dos doentes atinge inclusivamente a completa remissão dos sintomas.
O percurso clínico de John Nash é pois uma candeia de esperança para todos os doentes. Apesar de um início caracterizado por sintomas graves, a realidade é que lentamente estes se foram reduzindo, culminando quer na recuperação clínica quer do funcionamento pessoal, social e profissional.


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