quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Os Três da Vida Airada


José António Saraiva - in Jornal sol
Há algumas semanas, na TV, Ricardo Araújo Pereira notava que, para Miguel Sousa Tavares, só há em Portugal três pessoas acima de qualquer suspeita: José Sócrates, Ricardo Salgado e Pinto da Costa.
Sousa Tavares acredita em Salgado porque é seu familiar, acredita em Pinto da Costa porque é presidente do seu clube e acredita em Sócrates porque sim.
Não vou naturalmente comentar isto: cada um acredita no que quer.
Interessa-me, sim, registar que o país esteve durante vários anos entregue a estas três pessoas.
José Sócrates dominou a política portuguesa entre 2005 e 2011.
Ricardo Salgado dominou largamente a banca entre 1991 e 2014, a ponto de ser chamado o 'senhor DDT'.
E Pinto da Costa dominou amplamente o futebol português entre 1982 e 2008, ou seja, durante quase três décadas.
Ora, sobre estas três figuras a quem o país esteve entregue, recaem hoje (ou recaíram) gravíssimas suspeitas.
Sócrates está preso, Salgado está em liberdade sob fiança e Pinto da Costa foi arguido no processo Apito Dourado, acabando por escapar entre os pingos da chuva.
E digo isto com convicção, pois ouvi escutas envolvendo o presidente do FC Porto que não podiam ser mais comprometedoras.
Através dessas conversas, ficou a saber-se que todos o temiam no mundo do futebol, que não se coibia de dar ordens a toda a gente, que fazia ameaças que roçavam a chantagem.
Podia não fornecer 'fruta' aos árbitros, mas também não era preciso.
Pinto da Costa construiu um tal poder no futebol que qualquer árbitro que quisesse subir na carreira não podia ser 'inimigo' do FC Porto.
Era preciso coragem para marcar um penálti contra o FC Porto - ou para deixar de marcar um penálti a favor do FC Porto.
No universo futebolístico, era ele o 'senhor DDT'.
Não sei se Pinto da Costa se dava com Ricardo Salgado, mas relacionava-se com José Sócrates, pois foi visitá-lo à prisão.
E quanto a Sócrates e Salgado, davam-se como Deus com os anjos.
Sócrates foi o único primeiro-ministro que Salgado elogiou em público, vá lá saber-se porquê.
E salta à vista que ambos têm uma coisa em comum: são constantemente desmentidos.
Na comissão de inquérito do BES, Salgado ainda estava a responder e já era desmentido pelo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.
E nas horas seguintes seria desmentido pelo primo José Maria Ricciardi.
E no dia seguinte por Pedro Queirós Pereira.
Claro que Ricardo Salgado pode ter falado verdade e serem os outros a mentir: Costa, Ricciardi e Queirós Pereira.
Mas algumas das suas afirmações roçaram o ridículo, como garantir que bastaria um sinal de Carlos Costa para deixar o cargo, quando é público que houve repetidos sinais nesse sentido.
Ou dizer que não sabia que as reuniões do Conselho Geral eram gravadas, quando havia um gravador em cima da mesa.
Se Salgado foi tão pouco rigoroso relativamente a factos conhecidos, por que devemos acreditar que em tudo o resto foi verdadeiro?
Quanto a Sócrates, a sua falta de respeito pela verdade é já histórica.
Desde questões importantes  (como a negação reiterada da tentativa de compra da TVI pela PT) a coisas comezinhas (como desmentir a propriedade de um Mercedes que tinha escondido na garagem), o percurso de José Sócrates tem-se revelado repleto de inverdades.
Existe a sensação - como tenho escrito - de que ele deixou de distinguir entre a verdade e a mentira, dizendo ambas com a mesmíssima convicção.
E é essa convicção, essa capacidade de se fazer vítima e lançar o odioso sobre os outros, que leva ainda hoje muita gente a acreditar nele.
Quando as pessoas atingem um determinado estatuto, partimos do princípio de que são minimamente confiáveis.
Achamos que indivíduos cuja palavra pode mudar o destino de milhões de euros, ou comprometer um país inteiro, são merecedores de crédito - até pela responsabilidade que pesa sobre os seus ombros.
Ora, nos últimos tempos, aprendemos que não é assim.
Percebemos que a palavra de pessoas com grande poder pode valer muito pouco ou nada.
Ficámos a saber que indivíduos altamente colocados não se importam de enganar os que neles confiam nem de conspurcar as instituições que representam.
E estes casos levantam ainda uma questão inquietante: será que, para chegar a determinados cargos na política, na banca ou no futebol, é preciso não ter princípios nem escrúpulos? 
Ricardo Salgado terá recebido uma 'comissão' de 14 milhões de um empreiteiro, Sócrates é suspeito de ter recebido 'comissões' de 20 milhões pagas por empreiteiros e outros agentes.
Estas são as más notícias.
A boa notícia é que Sócrates é o primeiro chefe do Governo em toda a história de Portugal a ser preso por suspeitas de corrupção.
A política não está, pois, tão enlameada como se diz.
Já do futebol e da banca não se pode dizer o mesmo: o primeiro continua a beneficiar de um estatuto de impunidade e a segunda tem registado casos sobre casos nos últimos anos.
Aqui ainda há muita justiça a fazer.
Só se espera que uma eventual viragem política não volte a deitar o lixo para debaixo do tapete.

P.S. - Em entrevista ao SOL, Elisa Ferreira perguntava: aumentámos a competitividade? Controlámos o défice e a dívida? Relançámos o emprego? A tudo, a entrevistada respondia que não. Estranhamente. De facto, quanto à competitividade, o aumento das exportações diz o contrário. Quanto ao défice e à dívida, o défice deve ficar este ano abaixo do previsto e a dívida está controlada, como o provam os juros baixos no mercado. Quanto ao desemprego, tem vindo a descer continuamente. Será que, por ser deputada europeia, Elisa está desfasada em relação aos números do país?




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