sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A beleza e a força das mulheres do Norte

Barroso da Fonte
Numa recente viagem de comboio  ouvi, sem interferir, um diálogo aceso entre três senhoras de meia idade que discutiam entre a beleza das mulheres alentejanas e as do resto do país. Percebi que o diálogo se tinha iniciado por causa da quase mítica alentejana Catarina Eufémia, natural de Baleizão, que fora morta em Maio de 1954, por razões de resistência laboral. Era uma jovem mãe de 3 filhos, ceifeira, de 26 anos, que numa espécie de greve pelos baixos salários, liderava a resistência patronal. O debate animou a viagem e outros exemplos de mulheres célebres da vida portuguesa vieram à tona da conversa.
Como transmontano de Barroso que faço questão de trazer ao peito, como se fosse o meu signo de repórter de intervenção permanente, elegi este tema para crónica ligeira, reduzindo-o a factos da história popular portuguesa.
Ao caso de Catarina Eufémia podemos adicionar mais dois: o da Padeira de Ajubarrota (Brites de Almeida) que em 1385, matou sete castelhanos, com a pá do forno  numa taberna;  e o da Maria da Fonte, em Póvoa de Lanhoso, em 1846, durante a revolta popular por causa de proibição de realizar enterros nas igrejas. Estes três episódios de índole histórica, entraram no domínio das grandes lendas populares e andam por aí, revestidos de interpretações políticas, laborais e propagandísticos. Dão para todos os gostos, para todas as causas e em todos os tempos e lugares.
Mais próximo da nossa geração temos outros exemplos de mulheres portuguesas que brilharam na artes e nas letras, na política e na magistratura, na moda e no desporto. Todos nós conhecemos casos de mulheres que nos palcos do atletismo, da natação, da política e até da beleza física, deram provas de pioneirismo.
 Se a nível nacional há boas razões para exaltar os méritos da mulher portuguesa, é a nível Transmontano que mais alto essa exaltação pode fazer-se. Na política temos três mulheres de proa:
A Presidente da Assembleia da República, a Bastonária da Ordem dos Advogados e ainda a Directora do Departamento de Investigação Penal de Lisboa, respectivamente: Assunção Esteves, Elina Fraga (ambas naturais de Valpaços) e Maria José Morgado (oriunda de Montalegre).
Saltando para o nível social também aqui podemos referir dois nomes de mulheres que vão perpetuar-se na história de dois países da Lusofonia: Maria Helena Ataíde Vilhena Rodrigues e Maria Eugénia Neto. A primeira nasceu em Chaves, estudou e casou com o primeiro Presidente da Guiné-Bissau Amílcar Cabral de quem tem duas filhas. A segunda chama-se Maria Eugénia Neto, nasceu em Montalegre em Março de 1934 e casou com o Dr. António Agostinho Neto, primeiro  Presidente de Angola. Amílcar Cabral e Agostinho Neto foram dois luso-africanos que se licenciaram em Portugal e que lideraram o PAIGC e o MPLA, vindo a protagonizar a libertação desses dois novos  países. Outros vieram depois para conduzirem processos libertários em Cabo Verde, Moçambique e Timor. O terceiro quarteirão do século XX foi o maior drama para os 900 séculos de História (1950-1975).  O império Português cuja liderança pertencia a Portugal, aquando do Tratado de Tordesilhas (7/6/19494) foi dividido, a meio, pelo Reinos da Galiza e pelo Reino de Portugal. Esse Tratado foi um acordo firmado em 4 de junho de 1494 entre Portugal e Espanha. O nome  adveio do local onde foi assinado:  cidade espanhola de Tordesilhas.  Tinha como objectivo resolver os conflitos territoriais relacionados com as terras descobertas no final do século XV.
Em conformidade com o Tratado de Tordesilhas, uma linha imaginária, a 370 léguas de Cabo Verde serviria de referência para a divisão das terras entre Portugal e Espanha. As terras a oeste desta linha ficaram para a Espanha, enquanto as terras a leste eram de Portugal. Durante séculos esse acordo respeitou-se. A antiga Península Ibérica que desde 411, se irmanara com o Reino da Galiza, com sede em Braga e que só em 1128 se fraccionou na Batalha de S. Mamede, viria a expandir-se para além dos mares. Muitos anos depois, já cerca de três séculos para além do segundo Condado  Portucalense, Portugueses e Espanhóis, fizeram-se à conquista de novos mundos. Portugal chegou aos confins do mundo através dos mares para oriente. E quando já pouco mais tinha a descobrir, voltou-se para o ocidente, chegando à América do Sul. Aos Povos levou a Língua, a cultura e o chão. Só em meados do século XX, primeiro na Índia, depois na Guiné e em Angola, mais tarde em Moçambique e, finalmente, em Timor, os povos  desses territórios, reivindicaram a autodeterminação. 886 anos depois Portugal voltou ao palmo de terra que tinha sido marcado a fios de Espada, nas sucessivas guerrilhas com a Espanha. Com o golpe militar do 25 de Abril desmoronou-se o Império Português. Desse império resultaram cinco novos países que com o Brasil, formam o mundo da Lusofonia.  Dois desses países Lusófonos tiveram como primeiras damas duas Transmontanas que a História vai ligar ao futuro. Mulheres lindas, cultas, arrojadas e progressistas. Portugal perdeu na geografia mas ganhou na fraternidade, na solidariedade na cidadania internacional.                        Barroso da Fonte



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