sábado, 25 de agosto de 2018

A Primavera de Praga foi há 50 anos


Alexander Dubchek
Há 50 anos, enquanto os Beatles celebravam Hey Jude, os tanques soviéticos, com a capa do Pacto de Varsóvia, invadiam a Checoslováquia, arruinando a idealista Primavera de Praga, colocando no poder uma marionete.
O então Primeiro-ministro checo, Alexander Dubchek, tentou humanizar o regime comunista (como o fez Tito na Jugoslávia) que a então União Soviética leninista/estalinista, havia imposto aos seus países satélites de influência. Dubchek sabia que o sistema soviético era opressor e economicamente bloqueado. Procurou assim, estabelecer as liberdades, a democracia, rompendo com a verdade única e corrupta de Moscovo. O povo checo e esloveno queriam-na, sem a tutela moscovita.


A cobertura do acordo celebrado com os EUA, para evitar um conflito nuclear, permitiu aos soviéticos invadirem a Checoslováquia com 2000 tanques e cerca de 400 mil soldados.
DubcheK, um homem bom, para evitar um banho de sangue face à desproporcionalidade de homens e armas, aceitou pôr um ponto final no seu “socialismo de rosto humano” e a primavera acabava em pleno Verão (21 de Agosto) - mesmo assim, 72 checos morreram.
Para sobreviver Dubchek aceitou a profissão de taxista!


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O complexo do preto burro!


Na passada Quarta-feira, João Lourenço, presidente da República de Angola, foi recebido com honras militares pela chanceler Angela Merkel, na Alemanha.
Qual o motivo dessa visita? Encontrar investidores alemães que apostem em Angola.
É óbvio que esta iniciativa do presidente angolano demonstra uma grande inteligência (embora tenha sido sujeita a criticas por parte de Isabel dos Santos – como é óbvio). A dívida que tem com a China é astronómica - em 2017, rondava os 21,5 mil milhões de dólares, segundo dados do Governo angolano. Por essa razão, Angola precisa de novos investimentos, e não estando ainda há um ano na presidência, João Lourenço já mostrou intenções de integrar a Organização Internacional da Francofonia e a Commonwealth. Lourenço seguirá para França e Bélgica e, finalmente, para Portugal.
E aqui é que está o busílis da questão. João Lourenço, procura investidores na Europa, fora da influência tradicional de Angola, os países comunistas. Por outro lado, inicia a visita por um dos países menos corruptos – a Alemanha. E deixa Portugal para último, porque no que toca a corrupção, em nada se diferencia de Angola.
Lourenço já deu provas de que sabe onde está o mal do país: Criou a nova Lei do Investimento Privado, que acabou, por exemplo, com a obrigatoriedade ridícula de ter um sócio angolano para abrir uma empresa em Angola. Em Julho, João Lourenço  foi ao Parlamento Europeu e anunciou que estava numa cruzada contra os crimes de "colarinho branco". Na semana passada, quatro ex-funcionários da Administração Geral Tributária foram condenados à prisão em Luanda por corrupção e branqueamento de capitais, entre outros crimes. Foram ainda abertas outras investigações, incluindo contra José Filomeno dos Santos, filho do ex-Presidente angolano, que chefiou o Fundo Soberano e é acusado de fraude e desvio de fundos. Entretanto, o Governo cancelou contratos com empresas ligadas à família de José Eduardo dos Santos. E deu novos sinais em relação à liberdade.
A senhora Merkel foi clara nesta visita, referindo-se à imprensa livre!
O presidente angolano tem, pois, tarefa árdua. Iniciou o combate à corrupção afastando a família dos Santos, mas a dificuldade vai ser acabar com os privilégios e as redes corruptas das altas patentes militares (ressalvem-se as excepções).
Pedir aos investidores europeus que invistam em Angola é uma prova de inteligência, a que se acrescenta seriedade e honestidade na forma como é feita.
Image result for mapa de angola com provinciasContudo, João Lourenço, depois desta batalha que irá ganhar, estamos certos, vai ter que pôr de lado, em definitivo, o “complexo do preto burro” (alimentado por brancos burros). Que foi o complexo que acabrunhou o seu país durante 43 anos! Complexo que o presidente angolano demonstra, com estas iniciativas, não ter. Bem pelo contrário. E qual é o complexo do preto burro? Aquele que levou o povo angolano à miséria, à custa do enriquecimento de certa ladroagem que hoje possui impérios para várias gerações! O complexo do colono.

Depois destas iniciativas, João Lourenço deve apostar em quatro áreas, globalmente, com interligações: a Agricultura, a Justiça, a Saúde e a Educação. Tudo o resto virá por acréscimo. E nestas quatro áreas só um país está à altura de o ajudar: Portugal (e João Lourenço sabe-o bem). Com equipas devidamente seleccionadas, com as pessoas certas (sem os corruptos do costume).
Angola é um país vasto (14 vezes maior que Portugal), e só olhado no todo pode, no espaço de duas décadas, constituir-se num país próspero, apostando nestas quatro áreas, com as equipas certas. Se João assim fizer, dentro de 20 anos terá um país irreconhecível.

O inconveniente Trump



A sua vitória, mais do que a vitória de um homem, foi um grito de revolta da América profunda a favor de certos valores da América, dos interesses da América e contra uma ideologia que avança na Europa mas muitos americanos rejeitam.  

José António Saraiva - Jornal Sol

ANTES DA CIMEIRA entre Trump e Putin, ouvi um ‘professor universitário’, investido nas funções de comentador de um canal televisivo, afirmar que o Presidente americano «não fazia a menor ideia do que ia dizer» ao líder russo. Afirmou-o assim, sem se rir.
Já escrevi que Trump me faz lembrar o dono de um saloon no velho farwest. Imagino-o a dar umas palmadas no rabo das dançarinas enquanto espreita para dentro dos folhos que lhes cobrem o peito, disparando uma piada brejeira.
Também pode dizer-se que Trump trata as relações externas como fossem negócios privados, comportando-se como um capitalista sem grandes escrúpulos e não como um homem de Estado. E que tem poucas maneiras e mente com frequência. Mas afirmar-se que vai para os encontros com homólogos sem fazer «a menor ideia» do que irá dizer-lhes, isso não lembra ao careca!
SERÁ QUE NÃO EXISTEM assessores na Casa Branca? Que o Presidente dos EUA prepara as cimeiras fechado no gabinete oval, sozinho, a olhar para o ar a ver se lhe vem alguma inspiração?
Quem conhece os americanos sabe que, nas reuniões, eles estão sempre entre os mais bem preparados. Levam as coisas muito a sério e são focados e pragmáticos. Sabem exatamente o que pretendem de cada reunião e não divagam. Podem não saber muito de outros assuntos, mas sabem o que estão a fazer ali.
Ora, sendo este o comportamento-padrão dos americanos nas reuniões internacionais, será plausível que o responsável máximo do país vá para uma cimeira com um ‘rival’ sem saber o que lá vai fazer, nem quais são os pontos sensíveis, os objetivos pretendidos, os interesses da América nos assuntos a tratar?
Será isto credível?
Como é possível um professor universitário dizer uma tonteria destas?
O QUE SE DIZ sobre Trump roça às vezes o ridículo. E há acusações estranhas. O caso da interferência da Rússia nas eleições americanas continua a ser para mim um mistério. Quase todos os dias há uma nova notícia sobre o assunto. Mas tudo o que retive até hoje das sucessivas notícias é que «houve interferência da Rússia nas eleições presidenciais americanas». Já ouvi esta frase dezenas ou centenas de vezes. Mas ainda não percebi em que consistiu a ‘interferência’. Os russos entraram no sistema de contagem dos votos? Adulteraram os resultados eleitorais? Se não foi isto, o que foi? Influenciaram os eleitores nas redes sociais? Mas isso qualquer pessoa ou entidade pode hoje fazer! Também terá havido com certeza movimentos nas redes sociais a favor de Hillary Clinton.
Na semana passada, aliás, Putin disse com toda a razão que as acusações à Rússia «lançavam no ridículo o sistema político americano». De facto, se é tão fácil influenciar eleições presidenciais na América, é porque o sistema político é ridiculamente vulnerável…
CONFESSO que nunca tinha visto antes um Presidente dos EUA ser tão atacado. Uma vez eleito, o Presidente tornava-se ‘o Presidente de todos americanos’ e ninguém mais o discutia. Podia haver casos como o folhetim Clinton-Monica Lewinsky, mas eram coisas localizadas. Ora, com Trump, há um desgaste diário, a oposição e os media não descansam, parece que estamos em Portugal no tempo de Passos Coelho…
Claro que há razões para isso.
Trump foi o primeiro líder ocidental a pôr fragorosamente em causa a globalização. Afirmou o primado da América - «America first» -, impôs limites à imigração e denunciou tratados internacionais tidos como ‘sagrados’. Disse muitos disparates mas não teve medo de enfrentar os dogmas do ‘politicamente correto’, combatendo as chamadas ‘causas fraturantes’ - como o aborto ou o casamento gay.
ASSIM, a sua vitória, mais do que a vitória de um homem, foi um grito de revolta da América profunda a favor de certos valores da América, dos interesses da América e contra uma ideologia que avança na Europa mas muitos americanos rejeitam.
E a verdade é que, para lá de baralhar o jogo internacional - como o provam as cimeiras com Putin e Kim Jong-Un -, Trump vai somando vitórias na frente interna: a economia está a crescer acima dos 4% e o desemprego situa-se nos 3.7%.
Sendo verdade que é muitas vezes arrogante, que pode ser vulgar, não ter maneiras, dizer disparates, ser grosseiro, Trump não é atacado por isso: é atacado por ser contra a globalização, por querer travar a imigração, por não partilhar de certas ‘causas’.
Assim, ao atacar-se Trump, não é só o homem que se ataca - é uma visão do mundo que está em brutal conflito com o ‘ar do tempo’ e com algumas práticas acarinhadas no continente europeu e em certos círculos intelectuais e artísticos dos EUA. Neste sentido, o homem é muito inconveniente.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O vídeo onde Mário Centeno aparece todo nu


João Miguel Tavares – jornal Público
Metaforicamente falando, podemos admitir que Mário Centeno apareceu realmente em pelota naquele vídeo – no sentido em que interpretou a crise grega (e, por extensão, a portuguesa) com uma transparência inédita.
Oh meu Deus, que surpresa: Mário Centeno acha que a crise grega é culpa dos gregos e não dos malvados tecnocratas da União Europeia e do FMI. Como é possível? Um presidente do Eurogrupo a defender as políticas do Eurogrupo. O horror, o horror! Centeno fez um vídeo a dar conselhos e parabéns à Grécia e o país reagiu como se o homem tivesse sido apanhado num daqueles filmes caseiros com gente em pelota que vão parar à internet. O Bloco de Esquerda em peso saltou da cadeira. O PCP fechou os olhos e disse coisas sobre “pactos de agressão”. O deputado João Galamba chamou-lhe “um vídeo lamentável”. E até o inevitável Varoufakis decidiu classificá-lo como “propaganda norte-coreana”. Qual foi o pecado do pobre homem, afinal? Eu digo-lhes qual foi: durante um minuto, Mário Centeno resolveu dizer aquilo que pensa. Erro crasso.
Metaforicamente falando, podemos admitir que Mário Centeno apareceu realmente em pelota naquele vídeo – no sentido em que interpretou a crise grega (e, por extensão, a portuguesa) com uma transparência inédita. Ora, revelar intimidades económicas e políticas é pornografia para as esquerdas que nos governam. Tendo em conta que eles inventaram uma narrativa para eleitores com idade mental de cinco anos – que diz que a culpa disto tudo foi da troika e de Passos Coelho, porque se não tivessem sido eles o país estaria espectacular –, qualquer complexificação do discurso é inadequada para a nossa política de escola primária. O que os tuítes de João Galamba querem dizer é isto: “Veste-te, Mário, volta a pôr a roupa do português brutalmente oprimido, que isto assim não pode ser.” 
Mas não só pode como deve – até porque não tem sido de outra maneira. Eu sei que parece que existe um Mr. Mário, ministro das Finanças de Portugal, e um Dr. Centeno, presidente do Eurogrupo, já que as coisas que um faz lá fora não coincidem com as coisas que o outro diz cá dentro. Só que não há dois – nem nunca houve. Sim, o vídeo do Dr. Centeno poderia ter sido escrito por Vítor Gaspar. Mas isso é tão surpreendente quanto descobrir que José Sócrates é um bocado mentiroso e Bruno de Carvalho tem problemas de equilíbrio emocional. Toda a actuação de Centeno ao longo dos últimos três anos tem sido no sentido não só de cumprir as metas europeias, como de ir além delas. E ainda bem. Só que – lá está – não se pode dizer isto em voz alta, nem em línguas perceptíveis. O erro de Centeno foi ter falado inglês. Tivesse optado pelo grego e ninguém daria conta.
Se o vídeo de Mário Centeno tem pouco para dizer aos gregos, ele tem muito para dizer aos portugueses. A certa altura, Centeno afirma isto: “Eu sei que estas melhorias ainda não são sentidas por todos os segmentos da população [grega] mas, gradualmente, passarão a ser.” Reparem como é uma variação da famosa frase de Luís Montenegro, de Fevereiro de 2014: “A vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor.” Lembram-se dos rios de tinta que ela fez correr? A insensibilidade, a falta de contacto com a realidade, a crueldade dos sociais-democratas! E vai-se a ver, Mário Centeno teve 65 segundos de lucidez onde disse exactamente o mesmo, responsabilizou um país intervencionado pelo desastre da sua política económica e aconselhou-o a ter mais juízo daqui para a frente. Percebo que isso irrite imenso Bloco, PCP e boa parte do PS. Mas eu gosto muito. Antes um Mário Centeno descascado do que maquilhado com quilos de demagogia, como é costume.
Jornalista

THE BEATLES - “Hey Jude” tem 50 anos

THE BEATLES -Os Beatles em 1968, ano em que McCartney escreveu "Hey Jude": dois anos depois, a banda separava-se
Getty Images

“Hey Jude” tem 50 anos: a história da música que Paul McCartney escreveu para o filho de John Lennon

Em 1968, Paul McCartney foi visitar a mulher e a criança que John Lennon tinha deixado para ir viver com Yoko Ono. Durante o caminho compôs "Hey Jude", uma das músicas mais populares dos Beatles.
Os Queen têm Bohemian Rhapsody. Os Pink Floyd têm Wish You Were Here. Elvis tem Can’t Help Falling In Love e os Rolling Stones têm Satisfaction. Se são ou não as melhores músicas de cada um, é altamente discutível. São, ainda assim, as músicas mais populares de cada um. Seja pela mensagem, pela altura em que foram escritas, pelos acordes contagiantes ou pela conotação de hino que adquiriram. O mesmo não acontece com os Beatles.Não por não existir uma música mais popular: mas por existirem muitas músicas que poderiam ser consideradas amais popular.
Tudo depende se os cabelos estavam mais curtos ou mais compridos, se os fatos escuros já tinham dado lugar às flores e ao pé descalço, se os rapazes de Liverpool já eram os homens do mundo e se Brian Epstein já tinha dado lugar a George Martin. Tudo depende do gosto de quem ouve. Ainda assim, existe uma música que agrada normalmente aos que preferem She Loves You, aos que adoram Come Together ou até aos fãs de I Am The WalrusHey Jude, provavelmente a mais consensual de todas as canções originais dos Beatles, faz este mês 50 anos.

Hey Jude, na verdade, começou como “Hey Jules”. A explicação é simples: em junho de 1968, Paul McCartney visitou Cynthia e Julian Lennon, a primeira mulher e o filho mais velho de John, que este deixou quando foi viver com Yoko Ono. A caminho de Weybridge, em Surrey, onde os dois viviam, McCartney começou a compôr dentro da cabeça uma música que era mais como um braço à volta de Julian, então com apenas cinco anos. O facto da coluna vertebral da canção ter sido pensada e construída enquanto o inglês estava ao volante – sem papéis, sem instrumentos – explica a simplicidade da composição. Paul McCartney foi para Julian um tio quase pai depois de Lennon se apaixonar por Yoko e deixar Cynthia; mais tarde, o próprio Lennon admitiu que nunca soube brincar com o filho e que delegava muitas vezes essa função para Paul.
The Guardian conta que Jules passou a Jude pelo motivo mais musical possível: “Soava melhor”, contou McCartney anos depois. A verdade é que a base empírica da música se alterou quando o britânico percebeu que estava também a escrever sobre a sua própria vida, tal como se percebe quando a letra muda o azimute de discurso encorajador paternal para discurso encorajador romântico (Hey Jude, don’t be afraid, you were made to go out and get her, “Hey Jude, não tenhas medo, tu foste feito para ir lá e ficar com ela”, em português). Na altura, em 1968, McCartney tinha acabado de ser deixado pela noiva, Jane Asher, que o apanhou a traí-la com outra mulher. Ao mesmo tempo, o rapaz de Liverpool namorava secretamente com Maggie McGivern e tinha acabado de conhecer Linda Eastman, com quem esteve casado durante quase 30 anos. Mas talvez seja a ambiguidade da letra, o facto de se aplicar a tantas outras histórias de amor dos anos 60 e de agora, que tornou Hey Jude o hino de tantas outras vidas que não a de McCartney.
A chegar à Grécia, em 1967: Julian Lennon, então com quatro anos, de mão dada com McCartney e não com o pai
E foi por isso que quando Paul McCartney, já regressado a Londres, mostrou pela primeira vez a nova música aos outros três membros dos Beatles, Lennon gritou: “Sou eu!”. Mas Paul, ainda longe de perceber a real abrangência da canção, ripostou: “Não, sou eu!”. Nas semanas que se seguiram, o músico lutou pela visão que tinha para Hey Judecomo nunca tinha feito com qualquer outra composição sua. Bateu o pé pela duração da gravação, que chegou aos sete minutos, mesmo depois de George Martin lhe ter dito que nenhuma rádio passaria uma música com tanto tempo; recusou um riff de guitarra que George Harrison tinha composto para responder aos na, na, na; e conseguiu convencer os produtores a contratar uma orquestra para a segunda parte da canção.
A primeira parte foi gravada em Abbey Road. A segunda teve de ser tocada noutro estúdio, o Trident, este já com espaço para os 36 músicos clássicos que se juntaram aos Beatles naquele dia. De repente, Hey Jude já não era uma música composta por um homem solitário a caminho de casa da ex-mulher do melhor amigo; mas sim uma composição com pés e cabeça tocada por 40 músicos.
Até ao final dos anos 60, foi gravada por Elvis Presley, Smokey Robinson, Diana Ross e Ella Fitzgerald. Tornou-se um hino também no futebol, cantado pelos adeptos do Manchester City quando o clube ganhou a Premier League pela primeira vez, em 2012, e utilizado pela claque do Arsenal para evocar Olivier Giroud, o francês que entretanto se mudou para Chelsea. Mas acima de tudo, Hey Jude é o elo que permanece entre Paul McCartney e John Lennon. “É a melhor música do Paul”, disse John em 1972, já depois do fim dos Beatles.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Quem está errado? Costa ou os que sustentam o Governo?



por Santana Castilho* - jornal Público
A primeira página do ExpressoDo Expresso do último sábado jorrou o mantra manipulador de António Costa contra a recuperação do tempo de serviço dos professores. É penoso ler um texto saturado de cinismo e falsidade consciente. Mas o cúmulo da desfaçatez e da desonestidade política está no momento em que António Costa, ministro proeminente do primeiro governo de Sócrates, tem o topete de dizer:
“Com toda a franqueza, fico bastante perplexo que tenha havido tanta serenidade durante os nove anos, quatro meses e dois dias em que se verificou o congelamento e que a agitação tenha começado precisamente no dia em que se acaba com o descongelamento”.
Dê-se de barato o significativo acto falhado de António Costa, quando refere o dia em que acabou com o “descongelamento” (e não “congelamento”). Varrimento da memória relativa à fortíssima contestação do tempo em que ele era apoiante de Maria de Lurdes Rodrigues? Desatenção quanto ao tempo de Crato, mero seguidor das políticas do PS, de ódio aos professores? Nada disso. Apenas o corolário de um comportamento político que permite estabelecer um padrão: de jogador de lances curtos, de manipulador, de negociador de ocasião, numa palavra, de um carácter político que cede facilmente a trair os que lhe garantiram a sobrevivência, quando já não precisa deles. Que o diga o PCP (na Câmara de Lisboa), que o diga Seguro, que o diga o próprio Sócrates, que o diga Manuel Alegre (no triste episódio do Conselho de Estado) ou que o diga Margarida Marques (despedida sem saber porquê), para não prolongar demasiado a lista.
O que os professores reclamam é simples e inquestionavelmente justo: tratamento idêntico ao que foi dispensado às carreiras gerais da administração pública. Com efeito, os trabalhadores por elas abrangidos recuperaram todo o tempo de serviço congelado e a partir de Janeiro de 2020 terão as suas remunerações revistas como se não tivesse havido congelamento até 31 de Dezembro de 2017. Não entender isto não é, naturalmente, um problema de inteligência. É um problema de carácter. Tresler o que está escrito na Lei do Orçamento de Estado não é, naturalmente, ignorância sobre a diferença semântica entre um “de” e um “do”. Volta a ser um problema de carácter. Martelar cálculos para aumentar custos não traduz inépcia contabilística. É, ainda, um problema de carácter. De carácter político.
O episódio tem, porém, um mérito, qual seja o de fixar no papel o logro em que caíram os sindicalistas colaboracionistas, inicialmente ofuscados pelo populismo dos membros de uma equipa, que se prestaram ao papel de idiotas úteis aos desastrados desígnios do PS para a Educação. Exemplo último? A natureza estritamente pedagógica da avaliação dos alunos foi desfeita e substituída por regras administrativas, que permitirão a realização de reuniões de conselhos de turma com apenas um terço dos respectivos professores. Se já tinha sido grave o Colégio Arbitral determinar que os conselhos de turma funcionassem com metade mais um dos seus membros, que dizer de um Ministério da Educação que assim atentou contra a autonomia profissional docente e assim limitou o interesse dos alunos ao simples preenchimento de uma folha Excel?
António Costa disse ao Expresso que os parceiros que sustentam o Governo estão errados. Os sindicatos, que ameaçam paralisar as escolas já em Setembro, dizem que o errado é António Costa e pediram ao PCP e ao BE que chumbem o OE para 2019, se não forem aí atendidas as suas reivindicações, argumentando que seria uma incoerência insuprível a esquerda viabilizar um orçamento que as ignorasse. Ainda pelo Expresso, fomos informados que o gabinete de imprensa do PCP esclareceu que o Governo queria (inicialmente) que, na norma da polémica, ficasse escrito “de tempo”, que não “do tempo”. A significância desta disputa semântica em contexto de negociação da Lei do Orçamento de Estado para 2018 (da qual haverá sobejas testemunhas), a ser verdade, permite apanhar o mentiroso político mais depressa que qualquer coxo.
* Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)

Cozido à Portuguesa: história e receita


IV Premio Antón Risco de Literatura Fantástica.


A Fundação Vicente Risco, Livraria Aira das Letras, Livraria Traga-mundos, Pastelaria Fina Rei e A Fábrica de Vilanova, anunciam conjuntamente o «IV Prémio Antón Risco de Literatura Fantástica», para homenagear o escritor e teórico da literatura, o alaricano Antón Martínez-Risco Fernández. Continuador do gosto pelo fantástico do seu pai, dom Vicente Risco (a quem podemos considerar introdutor do género fantástico na literatura galega com a obra Do caso que lhe aconteceu ao Dr. Alveiros, em 1919), Antón Risco foi um profundo teorizador da literatura fantástica com obras como Serpentáguila (Notas de um leitor de poesia), Quebec (Canadá), Edições Hipogrifo, 1986; Literatura fantástica de lengua española (Teoría y aplicaciones), Madrid, Taurus, 1987; Viaxes á América Latina á procura de literatura fantástica. Sada (A Coruña) , Edicións do Castro, 1987. Também é de salientar o seu trabalho de editor em Antoloxía da literatura fantástica en lingua galega, Vigo, Galaxia, 1991. Simultaneamente, foi prolífico escritor de novelas e relatos fantásticos, muitos deles ainda inéditos.
Por tal motivo e com a intenção de continuar o seu trabalho de divulgação do género fantástico implementa este prémio com as seguintes REGRAS:

Primeira: Poderá concorrer a este prémio qualquer pessoa que apresente uma obra literária inédita, da sua autoria, escrita em língua galega ou portuguesa, com uma extensão mínima de 150.000 caracteres com espaços e máxima de 600.000.

Segunda: O prazo de entrega termina no dia 30 de novembro de 2018.
Terceira: Os originais deverão apresentar-se em formato PDF, ODT ou DOC, diagramados em tamanho DIN-A4, em letra Times ou semelhante de corpo 12 e a espaço duplo. Devem enviar-se por correio eletrónico a secretaria@fundacionvicenterisco.com, acompanhados dum segundo documento onde figure a identidade do/a autor/a (nome completo, endereço, telefone e correio eletrónico) e o título definitivo da sua obra, fazendo constar no nome do documento o título da obra e a palavra «PLICA». A pessoa responsável de receber os originais guardará os documentos PLICA até o momento da deliberação do júri e não revelará em nenhum momento a identidade dos/as autores/as nem participará na deliberação.
Quarta: A obra ganhadora será premiada com 3000 euros (sujeitos às retenções sociais pertinentes) e a publicação do livro no selo «Doutor Alveiros», da Fundação Vicente Risco. A quantia do prémio considera-se em conceito de adianto pelos direitos de autoria, pelo que a Fundação Vicente Risco se reserva o direito de publicação da primeira edição da obra ganhadora na sua língua original. O/A beneficiário/a do prémio, receberá gratuitamente 25 exemplares da obra publicada e contará com um desconto do 50% na compra dos seguintes que desejar. A pessoa ganhadora do prémio será convidada a formar parte do júri na seguinte edição.
Quinta: O Júri estará composto por cinco pessoas escolhidas entre personalidades reconhecidas do mundo da literatura e da edição.
Sexta: Se a qualidade literária das obras não for louvável, segundo o critério do Júri, o prémio poderá declarar-se deserto.
Sétima: Os anunciantes reservam-se o direito a contactar de jeito privado com os/as autores/as das obras finalistas cuja publicação recomende o júri, para lhes oferecer a possibilidade de publicar baixo o selo Dr. Alveiros, sujeitas a um contrato de edição normalizado.
Oitava: A decisão do Júri terá lugar em Allariz, na Fundação Vicente Risco, durante o mês de fevereiro de 2019.
Novena: A participação neste prémio obriga à aceitação das presentes Regras, assim como a decisão do Júri, que será irrevogável.

NOTA: a livraria Traga-Mundos é patrocinadora do Premio Antón Risco de Literatura Fantástica, promovido pela Fundación Vicente Risco (Allariz, Galiza), desde a sua primeira edição.

O comunismo é isto – o caos


Quem, historicamente, não sabe o que foi o comunismo como sistema politico, económico e social, implantado em vários países do planeta desde 1917, ano da Revolução Soviética, tem agora a oportunidade de o conhecer (apenas 20% do que realmente é) na realidade, com o que se está a passar na Venezuela.
As imagens que há uns anos a esta parte nos chegam do caos venezuelano, mostram bem a realidade dos sistemas comunistas. Quando Chavez entrou triunfalmente em Caracas em 1998, com aquela lábia da Revolução Bolivariana, os cerca de 2,3 milhões de venezuelanos que desde Julho de 2017 tentam deixar o país, rumo a outros países da América Latina como Colômbia, Chile, Equador, Guatemala, e Brasil, nunca tinham ouvido falar de Marx, Lenine, Estaline ou Trotski. E muito menos de Soljenitsin, Chalamov, Grossman ou Rawicz.
O actual nível de desvalorização da moeda é a maior de sempre na Venezuela e equipara-se apenas aos casos da Alemanha, na década de 1920, ou do Zimbábue, nos anos 2000. 


Para controlar o caos a que levaram o país, os ideólogos comunistas venezuelanos, esta segunda-feira, decretaram a circulação do bolívar soberano. A nova moeda elimina cinco zeros ao actual bolívar forte, uma polémica reconversão que tenta fazer face à hiperinflação e ajudar à transacção de dinheiro. Para já, a medida veio semear ainda mais confusão no actual estado de crise económica e social na Venezuela e adensar a crise migratória naquela zona do globo. Uma PALHAÇADA!
Não foram os mercados que originaram este caos venezuelano, como gostam de esgrimir certas seitas ideológicas quando um país entra em ruptura. Quem originou este caos foram os políticos medíocres, e as políticas miseráveis por eles implantadas. O sr. Chavez, o senhor Maduro e acólitos não se preocuparam em aniquilar as redes de gangues de droga, em dar uma melhor educação, saúde, liberdade e prosperidade ao povo. Preocuparam-se, como é próprio dos sistemas totalitários comunistas, controlar a vontade do povo. Por essa razão se instalou o caos.

Aconselha-se a consulta destes vídeos:



terça-feira, 21 de agosto de 2018

Falsificando a história: da Al Jazira para os ingénuos deste mundo



João Pedro Marques – jornal Público

E qual a posição da extrema-esquerda politicamente correcta que tem estado tão empenhada nesta questão da escravatura? Até agora nenhuma daquelas pessoas que gostam de culpabilizar os portugueses pelo seu passado escravista se insurgiu contra este acto de pura censura, cujo objectivo é o de tirar os muçulmanos desse filme e colocar todo o odioso dele nos ombros dos ocidentais.

Há uns tempos o canal francês Arte passou uma série televisiva intitulada Les routes de l’esclavage. A série retrata, em quatro episódios de cerca de uma hora cada, o tráfico de escravos africanos e as condições da sua escravidão. Les routes de l’esclavage é uma série um pouco tendenciosa e transmite algumas informações erradas, mas, tendo isso em mente, vale a pena vê-la por vários motivos, nomeadamente porque nela se dá a palavra a alguns historiadores competentes como sejam David Eltis, Vincent Brown ou Paul E. Lovejoy, por exemplo. Além disso, a série começa pelo princípio, isto é, pelo tráfico de africanos feito a larga distância e destinado ao mundo muçulmano.
O que foi esse tráfico? Desde o século VII que o mundo muçulmano começou a importar negros e negras para desempenharem funções de soldados, concubinas, guardas de harém, pescadores de pérolas, mineiros, trabalhadores rurais, etc. Fê-lo através do deserto do Sara ou por via marítima, pelo Índico e mar Vermelho. Tanto o tráfico marítimo como o terrestre se realizavam em condições muito duras. No caso do tráfico transariano, os escravos faziam a longa viagem a pé, enfrentando o cansaço e as inevitáveis carências de água, e pensa-se que tenham morrido mais pessoas escravizadas nas areias do deserto do que na travessia do Atlântico. As condições de transporte em pangaios e outras pequenas embarcações no Índico podiam ser semelhantes, ou piores, do que as verificadas nos navios negreiros ocidentais.

Mapa do comércio africano de escravos. Árabes muçulmanos eram os principais traficantes fornecedores para o Oriente Médio e outras regiões dominadas pelo Islão.

primeiro dos quatro episódios da série Les routes de l’esclavagetem esse tráfico muçulmano como objecto. Mostra quais as rotas por onde era feito, refere o desprezo de que os negros eram alvo devido à cor da pele, revela que a palavra zanj (preto, em persa) começou a ser usada para designar os escravos em geral, e traz até ao espectador muitas outras informações importantes. É claro que, para que as coisas fossem equilibradas, a série não devia ter apenas um episódio dedicado ao tráfico muçulmano porque ele levou tanta gente de África como o tráfico feito pelos povos ocidentais através do Atlântico, para as Américas, e durou mais tempo, dos séculos VII a XX. Esse tráfico mereceria dois episódios da série. De todo o modo, contá-lo num episódio é melhor do que não o contar de todo e do que fingir que ele não existiu.


Crianças africanas resgatadas de traficantes muçulmanos árabes pelo navio da marinha britânica HMS Daphne, em 1868, no Oceano Índico. Fonte: Arquivos Nacionais Britânicos.
Ora, foi justamente isso que a Al Jazira, a mais importante rede de televisão do mundo árabe, fez. Passou a série, suprimindo o primeiro episódio, aquele que incide sobre o mundo muçulmano. E renumerou os episódios da série. O episódio 1 passou a ser aquele que é dedicado aos portugueses (e que, na série original, era o episódio 2). Para os espectadores da emissora de televisão jornalística do Catar a série começa, após uma breve introdução, com o tráfico de escravos português e com o historiador G. Ugo Nwokeji a declarar o seguinte: “no começo, (a escravatura) foi um projecto português. Os portugueses acabavam de sair das Cruzadas, durante as quais tinham levado a cabo uma guerra terrível contra os muçulmanos. Uma parte da aventura (portuguesa) em África visava, aliás, protegê-los dos muçulmanos e manter uma vantagem sobre estes.” Ou seja, quando se põe em frente do ecrã, o espectador da Al Jazira vê descrições e análises ao tráfico de escravos feito por portugueses, ingleses, franceses, etc., mas não ao que foi feito pelos mercadores muçulmanos. Para esse espectador é como se o tráfico e a escravidão de negros e negras nos territórios dos reinos islâmicos em África, na Ásia e na Europa nunca tivesse existido. Assim, a série já pode passar. Tout est bien qui commence bien.
A falsificação da informação por parte da estação de televisão do Catar é chocante e inquietante. O que toca o nome de Portugal, sobretudo quando esse nome é envolvido numa história mal contada, devia preocupar-nos a todos. Por isso eu louvo Pedro Sousa Tavares, o jornalista do DN que trouxe este assunto à baila, e deixo aqui duas perguntas:
1- A série em causa é uma coprodução na qual a RTP participou. Qual é a posição da nossa televisão estatal perante uma tão flagrante amputação feita de uma forma que é, evidentemente, um atentado à verdade histórica, e que lesa, ainda que de maneira indirecta, a imagem do nosso país? 
2- E qual a posição da extrema-esquerda politicamente correcta que tem estado tão empenhada nesta questão da escravatura? Até agora nenhuma daquelas pessoas que gostam de culpabilizar os portugueses pelo seu passado escravista se insurgiu contra este acto de pura censura, cujo objectivo é o de tirar os muçulmanos desse filme e colocar todo o odioso dele nos ombros dos ocidentais. Há muito que isto é cozinhado, há muito que o papel dos muçulmanos na história da escravatura é escandalosamente silenciado ou disfarçado, e, por isso, eu louvei e volto a louvar quem não se acanha de o trazer à tona. Mas gostaria que aqueles que, em Abril de 2017, foram lestos a atacar Marcelo Rebelo de Sousa por ter, alegadamente, feito declarações menos rigorosas sobre escravatura, sentissem agora a necessidade de comentar a deturpação grosseira e malévola praticada pela cadeia de televisão do Catar. Será de mais esperar que pelo menos quatro ou cinco desses nossos jornalistas e académicos engagés se pronunciem sobre a acção falsificadora da Al Jazira e em prol da verdade histórica? Sou todo ouvidos.
Historiador e romancista