quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Os professores dos nossos netos

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João  Cerejeira
Miguel  Portela
Portugal pagou caro, em termos do seu desenvolvimento, medidas que contribuíram para diminuir a qualidade do corpo docente.

             Jornal Público

Os dados constantes nas Estatísticas da Educação 2016/2017 mostram que 60% dos professores do pré-escolar ao secundário têm 45 ou mais anos de idade. Ou seja, cerca de 96 mil, mais de metade dos docentes atuais, vão-se aposentar ao longo das próximas duas décadas. Apesar da diminuição expectável do número de alunos, é de esperar que o ritmo de recrutamento de novos professores aumente, com maior expressão no ensino público, pois é neste que o envelhecimento da classe docente é mais pronunciado – neste sistema apenas 3% têm idade inferior a 35 anos.
É reconhecido que nenhum sistema educativo pode ser melhor do que os seus professores. Um artigo recente de Eric Hanushek, Marc Piopiunik e Simon Wiederhold, investigadores na Universidade de Stanford e da Universidade de Munique, publicado na prestigiada revista The Journal of Human Resources, mostra que as competências cognitivas médias dos professores em alguns dos países com melhores resultados nos testes internacionais PISA, que medem o desempenho dos alunos, caso do Japão e da Finlândia, são superiores à média das competências cognitivas dos adultos com mestrado ou doutoramento no Canadá (país usado como referência). Em contraste, as competências cognitivas dos professores de países como a Itália ou a Rússia, cujos alunos obtêm pior performance nos testes PISA, estão, em média, ao nível de um canadiano com um curso pós-secundário não superior. Infelizmente, os dados usados neste estudo para medir as competências cognitivas em literacia e numeracia dos adultos (o teste PIACC) não incluem informação para Portugal, uma vez que o nosso país não participou na última edição do estudo (2011-2012). As conclusões apresentadas no estudo são claras e robustas: quanto maior for a capacidade cognitiva do professor melhor será a capacidade cognitiva dos alunos, nomeadamente para alunos oriundos de meios mais desfavorecidos para os quais o contexto familiar não compensa eventuais falhas nas aprendizagens obtidas na escola.
É, pois, necessário planear o acesso à profissão docente, de forma a garantir a existência de muito bons professores porque deles depende o futuro da educação, enquanto base do desenvolvimento social e económico. Porém, os dados que temos quanto ao futuro são preocupantes: de acordo com o estudo da OCDE Effective Teacher Policies, divulgado em junho deste ano, apenas 1,3% dos jovens portugueses que desejam prosseguir estudos no ensino superior têm como objetivo seguir a profissão de professores, tendo a maioria destes desempenhos abaixo da média. Estes números estão de acordo com os resultados do concurso nacional de acesso ao ensino superior. No ano passado, das 789 vagas existentes no ensino superior público para licenciaturas em Educação Básica, requisito para aceder aos mestrados profissionalizantes de acesso à docência do pré-escolar ao 2.º ciclo do ensino básico, 82% estavam em pares curso-estabelecimento com nota mínima de entrada inferior a 13 valores e 37% com nota mínima inferior a 11 valores! Como refere o relatório do Conselho Nacional de Educação sobre a condição docente, “...o declínio do reconhecimento e da imagem social dos docentes enfraquece as aprendizagens, o ensino e a sociedade”.
É, pois, claro que o reforço do prestígio e da cultura profissional docentes tem impacto na melhoria das aprendizagens, não só dos alunos atuais, mas também nos alunos futuros. Para ter bons professores, é preciso atrair os melhores alunos para a profissão pelo que é urgente uma estratégia para restaurar a confiança dos docentes e valorizar socialmente a sua função. Uma importante componente desta estratégia será quanto ao método de seleção e recrutamento de professores. Vários estudos indicam que os sistemas educativos com níveis elevados de desempenho recorrem a provas de seleção dos candidatos a professor, em conjunto com métodos de avaliação das competências profissionais dos docentes durante um período de indução ou probatório. No caso português, o Estado prescindiu do direito de selecionar os candidatos à docência. O recrutamento depende essencialmente de uma classificação ordenada a nível nacional, determinada pela média final do curso e pelos anos de experiência. Em momento algum estão previstas entrevistas com os responsáveis das escolas para aferir a motivação e a adequação dos candidatos à docência, corresponsabilizando no processo as escolas e os professores, como no caso da Bélgica, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda, Hungria, Islândia, Israel, República Checa e Suécia, ou provas de âmbito nacional nos domínios da literacia e numeracia, existentes num grupo significativo de países europeus.
Conclui-se, assim, que se há área de política pública com impacto no muito longo prazo é esta. Portugal pagou caro, em termos do seu desenvolvimento, medidas que contribuíram para diminuir a qualidade do corpo docente. Da expulsão dos jesuítas pelo Marquês do Pombal, ao recurso aos regentes escolares pelo Estado Novo, a quem se exigia apenas o exame da quarta classe, o nosso país caiu várias vezes no mesmo erro. Pensar o país do futuro é pensar que os nossos netos serão ensinados pelos jovens que hoje procuram a profissão docente.
Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico
Economista, Universidade do Minho
Economista, Universidade do Minho
 12 COMENTÁRIOS
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1.     
  Alhos Vedros, Setubal, Portugal - Barreiro, Portugal06.08.2018 19:04
Quando estive na Faculdade de Ciências, no curso de Matemática Pura nos finais dos anos 80, pude constatar o seguinte: muita gente entrou para Matemática porque tinha a nota de entrada mais baixa na expectativa de pedir transferência para outro curso; havendo encontrado na altura apenas duas opções no terceiro ano, a via Ensino (tornar-se professor(a)) ou a via Científica - sendo esta última bastante difícil, muita gente que não chegou a mudar de curso seguiu a primeira, o Ensino. Resumindo, fiquei com a sensação que saíram dali muitos e muitas docentes que foram parar a Matemática porque sim, e foram para professores porque não. Muita gente também lá estava por gosto e vocação, claro. Mas...
2.     
  Terra 06.08.2018 17:46
O problema da qualidade dos professores está a montante: na formação e na forma de recrutamento. Relativamente aos do 1.º ciclo, fase crucial dos alunos, ao lado de boas escolas de formação, foram instituídas escolas muito más. Há 20/30 anos, era normal alunos com média de 10 no 12.º ano entrarem em institutos de formação de docentes de nível duvidoso, de onde saíam com médias altíssimas. Quando concorriam, ficavam à frente dos colegas formados em escolas mais exigentes e que exigiam média de entrada mais elevada. Nos concursos nacionais, estes últimos ficavam sistematicamente atrás dos 1.º. Muitos desses, são os que agora anseiam pela reforma. A solução radical para promover a qualidade dos docentes é pagar-lhes bem, fazer o recrutamento a nível de escola e testá-los seriamente.
1.     
  06.08.2018 20:01
Apenas discordo em absoluto da ideia de recrutamento a nível de escola. Isso seria escancarar as portas à corrupção e ao compadrio (quem recruta quem faz o recrutamento? ou por outras palavras, Quem guarda o guarda). A avaliação dos professores tem de ser objetiva, transparente e anónima, enquanto não perceberem isso, não vamos a lado nenhum.
3.     
  Figueira da Foz 06.08.2018 15:39
O motivo pelo qual os professores estão velhos não tem nada de misterioso. A carreira premeia a idade em detrimento do mérito. Um novo professor fica sempre colocado atrás dos antigos em qualquer concurso, mesmo que o novo seja o melhor professor do mundo e o antigo seja uma nódoa. Se somarmos a isso uma diminuição demográfica do corpo discente, que impede a expansão do corpo docente, antes o contrai, é matematicamente óbvio que só lá ficam os mais velhos e que os mais novos não têm lugar. Para que entrem professores novos, é necessário que a taxa de encolhimento do sistema seja inferior à taxa de aposentação. Por isso, se querem ver professores novos, sujeitem os antigos a concursos baseados no mérito e na avaliação.
1.     
  Terra06.08.2018 17:30
Os seus argumentos não são simplistas, são simplórios. Isso que escreve é fácil de teclar, mas difícil de levar à prática. A começar pelo facto de que há (e aprenda isto de uma vez) avaliação e que a progressão da carreira depende dela. Depois, que a avaliação pode trazer muitas injustiças e sei do que falo porque estou envolvido no processo de avaliação de docentes. Pode-se é discutir se o actual modelo de avaliação está bem desenhado e visa a melhoria do desempenho. Não é o caso: foi feito para evitar progressões na carreira e não pagar aos professores o que estes contrataram com o Estado quando iniciaram a carreira.
2.     
 Figueira da Foz 06.08.2018 17:58
É triste que os argumentos dos professores dos meus filhos comecem pelo insulto e não pela argumentação. Pois, pode mandar a areia que quiser para os olhos aqui do simplório quando ambos sabemos que só uma das progressões é que depende da avaliação e quando se tentou por uma verdadeira avaliação a andar, vieram os professores em peso para a rua. Agora, com números, diga-me quanto vale num concurso um ano de serviço e quanto vale um valor de média final. Diga-me quantos professores foram despedidos por incompetência e ignorância, pois só eu conheço vários que o mereciam. E diga-me quantos jovens professores talentosos trabalham hoje fora do sistema de ensino, pois não têm a mínima hipótese de um lugar enquanto outros colegas bem mais incompetentes não se reformarem.
3.     
  06.08.2018 20:04
Sim e desse modo acaba o mito de que os novos são melhores que os velhos e vice-versa. uma vez que o mérito não está indexado à idade. A idade traz experiência e maturidade, mas nem todos os mais velhos são prova disso.
4.     
  Covilhã 06.08.2018 14:14
Contributos para ajudar a perceber a fuga dos cursos que habilitam professores: - após 26 anos de ensino de matemática, estou no 4º escalão dos 10 da carreira; - quando iniciei a carreira o ministério da educação prometeu que, nesta altura, eu estaria no topo dessa carreira; - em 2000 perguntei em turmas do 10º ano, quantos alunos pretendiam seguir a profissão/missão de professor, um terço (repito um terço) levantou o braço; - em 2018 fiz o mesmo, nenhum braço se levantou; - após 26 anos de carreira, muitos dos quais a trabalhar mais de 50 horas semanais para a escola (não em acumulações que aumentam o ordenado), ganho 1250 euros líquidos mais o subsídio de alimentação; - juntem políticos medíocres, incompetentes e corruptos a denegrir os professores; Querem que professores para os netos?
1.     
  06.08.2018 20:09
Vão ter os professores que merecem. O problema está no pedagogismo que contagiou o mundo ocidental e criou a representação social da atividade docente como sendo uma atividade venal, como o nível cultural dos políticos não é famoso (veja-se como adquirem títulos académicos pelo mundo fora) não valorizam o conhecimento e os seus agentes. Na Inglaterra chegaram ao descalabro de ir contratar professores à Índia porque eram falantes de inglês
5.     
  06.08.2018 10:54
Os senhores professores de hoje não são só velhos, desconsiderado, mal pagos, destratados pelos poderes públicos, agredidos até fisicamente em ambiente escolar, abusados por acrescento de tarefas não docentes só para castigar, ofendidos publicamente para serem ostracizados. Para além de tudo isso que não é pouco, são um grupo profissional dos que mais contribuiu para as esbónia de salvar bancos falidos pelos excelentes gestores do PS, PSD, CDS. Por último são eles os responsáveis pela formação da população escolar melhor preparada de sempre segundo os critérios PISA. Tudo isto atrapalha, não por muito tempo, o objetivo estratégico de PS, PSD, CDS acabarem com o ensino inclusivo e com o ensino público universal e obrigatório. Os nossos netos se tiverem com que pagar terão professores!
1.   
  06.08.2018 20:16
De facto, há um movimento intestino dentro dos partidos do arco da governação para destruir a escola pública, mas ignorantes que são não percebem que as empresas privadas de educação não são alternativa. De qualquer modo esse assunto não lhes interessa, o que interessa é facturar e reduzir o peso dos funcionários públicos. Ninguém vê o perigo de colocar a modelação dos cidadãos nas mãos de grupos ideologicamente colados, com interesses inconfessáveis e fora do controlo público do Estado..
6.     
  06.08.2018 08:32
Parabéns aos autores pelo afinco, objetividade e atualidade do problema analisado e das conclusões apontadas. Precisamos de mais debates sinceros, aprofundados e sem preconceito na nossa sociedade neste tema ainda delicado por dissecar e tao problemático por tentar resolver.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Arnaldo Matos apontou baterias ao Bloco de Esquerda


ARNALDO  MATOS
O histórico líder do PCTP, Arnaldo Matos, decidiu apontar baterias ao Bloco de Esquerda  por causa da polémica que envolveu Ricardo Robles. 
"Eu não vos dizia que isso era tudo um putedo?!", escreveu Arnaldo Matos, no Twitter.
Investimento dos manos Robles em Alfama
Empreendimento da família de Catarina Martins, 
na Guarda.
Note-se que este investimento foi concluído
com fundos europeus (cerca de 150 mil euros!).
Ora o programa do BLOCO e dos seus militantes
é contra a Europa!
Foram horas agitadas no Twitter de Arnaldo Matos, o fundador do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP), após ter estalado a polémica em torno da venda do prédio pertencente ao bloquista Ricardo Robles.
Matos, que conseguiu expulsar já há alguns anos Garcia Pereira do partido, acusa os bloquistas de não serem de Esquerda: "Agora já sabem qual é a verdadeira ideologia de Louçã, Rosas, Mário Tomé e de toda a escumalha do Bloco: a ideologia dos especuladores imobiliários, dos reaccionários sem escrúpulos, dos exploradores disfarçados de anarquistas, trotsquistas, albanistas e revisionistas".
"O mesmo Robles tem mais um apartamento na Rua Conde Redondo e comprou no último ano mais um apartamento na zona nobre e rica do Saldanha. O homem está em vias de arrecadar durante um mandato mais de dez milhões de euros!... Como é isso possível?", lê-se noutro tweet de Arnaldo Matos, que está ativo nesta rede social há menos de um ano.
Para Matos, que defende que o PCTP é o verdadeira força política comunista em Portugal, "o BE não é um partido comunista, não é um partido socialista, não é um partido de trabalhadores: é um partido capitalista, oportunista, reaccionário".
"Eu não vos dizia que isso era tudo um putedo?! No princípio, nem queriam ouvir falar de ideologia. Agora mostram ao que vêm: ao dinheiro, à especulação imobiliária, ao assalto", defendeu num dos vários tweets.

Enviado por JA
      

O pequeno comboio de Artouste


Por cá, em Portugal, os políticos dos vários (des)Governos encarregaram-se de destruir as Linhas que tínhamos: Vouga, Tua, Pampilhosa, Lousã, Gatões, Amarante, Pocinho Barca de Alva, etc e a do Oeste que está quase abandonada, enquanto que lá fora ... é o que se vê.
Este comboio de Artouste comemora 80 anos.
Este caminho foi construído a mais de 2000 metros acima do nível do mar pela SNCF como parte do seu trabalho de electrificação da sua rede e serviu na construção da barragem que vemos no filme. Esta barragem alimenta por condutas forçadas a central localizada no vale. Através do túnel o caminho corre dum primeiro vale para um segundo.  Este é um dos mais belos passeios nos Pirinéus.


Enviado por Jorge Lage

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Santana Lopes sai do PSD e despede-se com carta aos militantes



Adeus, menino guerreiro.

“Um texto difícil”. É assim que Pedro Santana Lopes começa a carta aberta aos militantes do PSD para se despedir do partido. Foram 40 anos de militância ativa com “momentos únicos” e “extraordinários”, mas o ex-primeiro-ministro também não esconde a desilusão, na hora da saída: “O que constatei foi que o PSD gostava muito de ouvir os meus discursos, mas ligava pouco às minhas ideias“
Na carta, a que o Observador teve acesso, escreve: “Entendo (…) que não faz sentido continuar numa organização política só porque lá estamos há muito, ou porque em tempos alcançamos vitórias e concretizações extraordinárias se, no passado e no tempo que importa, no tempo presente, não conseguimos fazer vingar ideias e propostas que consideramos cruciais para o bem do nosso País”
E dá alguns exemplos de ideias que defendeu ao longo dos anos e sobre as quais, segundo ele, “o PSD nunca quis saber”. Foi assim, garante, na Política Agrícola Comum, na desertificação do interior ou nas críticas ao poder “discricionário” de demissão do governo atribuído ao Presidente da República. “Certas? Erradas? Por mim, defendo, com convicção que estão certas e está mais do que provado que dentro do PSD não merecem acolhimento”, escreve o ex-líder do partido.
"Não faz sentido continuar numa organização política só porque lá estamos há muito, ou porque em tempos alcançamos vitórias e concretizações extraordinárias se, no passado e no tempo que importa, no tempo presente, não conseguimos fazer vingar ideias."
Santana Lopes, que em 2004 foi demitido de Primeiro-Ministro pelo Presidente da República Jorge Sampaio, diz que talvez devesse ter-se desfiliado nessa altura, e responsabiliza também o PSD: “Quando destacadíssimos militantes do Partido tudo fizeram para que Jorge Sampaio abolisse a maioria parlamentar legítima e estável por motivos que se «absteve de enunciar». Ou, no ano seguinte, quando o PSD impediu a recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa que conquistáramos, a pulso, à maioria de esquerda, quatro anos antes.”
Uma sucessão de decisões que, para o ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foram “graves” e que tiveram “consequências políticas até aos nossos dias.”
Sobre a liderança atual, Santana Lopes não poupa Rui Rio, o “pensamento económico ortodoxo” e a “aproximação ao PS” e lembra os avisos que fez durante as diretas: “Vinha aí uma estratégia de condescendência para com o PS, para mim, um erro grave. Disse, e repeti, que os militantes deveriam rejeitar a via que, de modo mais ou menos explícito, admitia o Bloco Central.”
Apesar de tudo, termina a carta garantindo não guardar rancor: “Não apago estes 40 anos no PPD-PSD a quem desejo sucesso, a bem da Democracia.”
Sobre a liderança atual, Santana Lopes não poupa Rui Rio, o “pensamento económico ortodoxo” e a “aproximação ao PS” e lembra os avisos que fez durante as diretas: “Vinha aí uma estratégia de condescendência para com o PS, para mim, um erro grave. Disse, e repeti, que os militantes deveriam rejeitar a via que, de modo mais ou menos explícito, admitia o Bloco Central.”


Na carta que endereça aos militantes do PSD, Santana Lopes deixa ainda rasgados elogios a Pedro Passos Coelho, uma “pessoa com grandes qualidades, em vários domínios da vida”. E especifica: “Como líder político, mostrou ser sério, competente, coerente. Como pessoa, distingue-se pela educação e pela integridade.” Embora não o tenha apoiado desde o início, como recorda também na carta, o ex-autarca rapidamente foi convencido.
Não lhe atribui um caminho imaculado – “Não calei essas diferenças, por exemplo, no Congresso de 2014 e no dia da resolução do BES”, escreve -, mas coloca o ex-primeiro-ministro num patamar de excelência e de seriedade, como se tivesse sido o último reduto da social-democracia que defende para o PSD. “Fez um trabalho notável a conduzir o País num período de emergência nacional, tendo conseguido a “saída limpa” que iniciou a recuperação económica”, resume.
Mas o adeus de Passos Coelho ao partido fez com que o PSD se debatesse com um dilema interno, na leitura que Santana Lopes retrospetivamente. “Com a sua saída, o quadro passou a ser outro. Tinha de lutar pelo que preconizo há décadas. Por isso, decidi candidatar-me à liderança do PPD/PSD e deixar funções na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Foi uma opção difícil”, pode ler-se na longa carta. Se não houvesse este confronto, admite, ”teria continuado como Provedor da SCML”.

Biblioteca Publica de Braga presta honras a José Leite de Vasconcelos


La cuisinière bourgeoise



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Em defesa de Catarina Martins, a burguesa



João Miguel Tavares - Público

Deixem, por amor de Deus, Catarina Martins ser burguesa à vontade. A extrema esquerda só é perigosa quando é revolucionária, e só é revolucionária quando nada tem a perder.
Image result for Catarina Martins, a burguesa
Empreendimento da família de Catarina Martins, na Guarda.
Note-se que este investimento foi concluído 
com fundos europeus (cerca de 150 mil euros!).
Ora o programa do BLOCO e dos seus militantes
é contra a Europa!
Também não vale a pena exagerar. Tanto foi o entusiasmo em torno do investimento imobiliário de Ricardo Robles, que de repente já há uma fila de gente a bater à porta dos negócios familiares de Catarina Martins, com ar indignado. Objectivo: provar que por trás de cada bloquista há um especulador clandestino, que utiliza o seu radicalismo pequeno burguês de fachada socialista para camuflar opíparos investimentos em alojamento local. Era giro que assim fosse, mas nada indica que assim é. Por isso, manda o rigor e os bons modos não confundir coisas, até para não dar razão àqueles que acham que todo este caso foi apenas uma manobra conspirativa da direita, para pôr em causa o brilhante trabalho do Bloco na luta contra aquela palavra que agora toda a gente usa e que me lembra sempre casas de repouso para a terceira idade: gentrificação.
O negócio do Ricardo nada tem a ver com o negócio da Catarina. Limitam-se ambos a arrendarem imóveis e a terem na carteira o cartão de militante do Bloco de Esquerda. Catarina Martins transformou uma casa dos pais do marido, mais uns palheiros abandonados na zona do Sabugal, num pequeno negócio de turismo rural. A empresa, na qual detém uma posição minoritária (apenas 4%), é gerida pelo marido e pelos sogros – o que até é bonito, e valoriza a importância da família tradicional, para alegria do CDS-PP. Na notícia do jornal online Eco, ficamos a saber que “a coordenadora do BE fundou a Logradouro Lda. com o marido há quase dez anos e foi sócia-gerente da empresa até final de 2009, altura em que assumiu funções como deputada em regime de exclusividade. Actualmente, a empresa explora quatro empreendimentos turísticos e uma unidade de alojamento local no concelho do Sabugal, distrito da Guarda.” Tudo certo.
A unidade de alojamento local é modesta (dois quartos e duas camas), e parece que a reconversão dos antigos palheiros para turismo recebeu 137,3 mil euros ao abrigo do QREN. Há gente que decidiu embirrar com isto tudo: com o negócio turístico de Catarina, com o facto de o Bloco não apreciar a União Europeia mas ela andar a usufruir de fundos europeus, com o ordenado que a Logradouro Lda. supostamente paga aos seus colaboradores, e até com o mau gosto das colchas das camas, segundo as fotos disponíveis no Airbnb. Pois bem: tirando a opinião sobre as colchas das camas, eu discordo de tudo. A senhora Catarina tem toda a legitimidade para ter um pequeno negócio familiar na província; isso em nada contradiz o seu discurso político; e quaisquer comparações entre apostar no turismo em Lisboa com um prédio comprado à Segurança Social ou investir em palheiros devolutos no Sabugal são absolutamente descabidas.
Mais do que isso: deixem, por amor de Deus, Catarina Martins ser burguesa à vontade. A extrema esquerda só é perigosa quando é revolucionária, e só é revolucionária quando nada tem a perder. Um vereador que acabou de investir um milhão de euros num prédio não quer uma revolução. Tal como não quer uma coordenadora do Bloco com casas a render na Beira Alta. A hipocrisia do Bloco deve ser denunciada, com certeza, mas deixem o partido aburguesar-se, que só lhe faz bem. O PCP é mais coerente – só que também é mais perigoso. Preocupa-me mais Miguel Tiago, que deixou o Parlamento com críticas à moderação do PCP, do que Ricardo Robles. Os protestos esquerdistas do Bloco são parte da coreografia do regime. Enquanto houver Sabugal, há democracia liberal. Negoceia, Catarina, negoceia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Trajectos com memória em MIRANDELA


Revista Triplov - Série gótica, Outono 2018

série gótica . outono de 2018

SEXTO ENCONTRO TRIPLOV NA QUINTA DO FRADE
A.M. Amorim da Costa – O matraz da análise química da Vontade
Rui Grácio – Poesia e JPE
João Fernandes – Corrupção, ética e justiça nos comportamentos políticos
Paulo Brito e Abreu – Da Via lucis
Júlio Conrado – “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M. Tavares
Elisa Scarpa – Preciso de outro cérebro
Manuel Santos – Apanhar figos pela manhã
Maria José Camecelha – Afogados
Maria Azenha – Poemas de Xeque mate
Maria do Céu Costa – Vídeo do Sexto Encontro Triplov

OUTROS ENCONTROS
Zuca Sardan – Geometria prática de pontes e calçadas
Jorge Antonio Encinas Cladera – Poemario
Nicolau Saião – Onze instantâneos arcangélicos
Homenagem a Sila Chanto por Alfonso Peña
Margarete Bertolo Boccia – Articulação entre a literatura Infantil e a Matemática
Carmo Moura Nunes – Quatro quadros
Paulo Cabaço Mendes – Uma visita breve à Capela de São Pedro de Balsemão, Lamego
Ana Johnson – Pessoas
Adelto Gonçalves – Poesias eróticas de Bocage: as falsas e as verdadeiras

ENTREVISTA
Rolando Revagliatti – Alexandra Méndez Bujonok: “En la adolescencia circulé por los surrealistas, que me dejaron alucinada”
Alexandra Méndez Bujonok – Poemario

EDITORIAL
Maria Estela Guedes –  “Xeque-Mate” com Maria Azenha” 

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A Natureza Cura


Há cerca de meia dúzia de anos, cientistas japoneses e americanos encetaram uma caminhada no sentido de provarem a influência da Natureza no cérebro humano. Agora seguidos também, e em grande escala, pela Coreia do Sul. Essas experiências passou-as a livro a jornalista americana, Florence Williams – A Natureza Cura[1].
Richard Louv, autor do best-seller de 2008 Last Child in the Woods, disse a Florence o seguinte: “estudar os impactos do mundo natural no cérebro é, na verdade, uma escandalosa ideia nova”. Que devia ter sido estudada há 30 ou 50 anos. Porque razão só agora os cientistas se preocupam com esta questão? Provavelmente porque, diz-nos Florence, “ a perda da nossa ligação à natureza é mais dramática do que antes”. A demografia e a tecnologia para isso contribuem, e somos afligidos por doenças crónicas, agravadas pela quantidade de tempo passado em espaços fechados, desde a miopia à falta de vitamina D à obesidade, depressão, solidão e ansiedade.
No Leste Asiático 90% dos adolescentes sofre de miopia porque é a região do mundo em que a população vive em espaços mais fechados. Viver longe da luz solar como toupeiras implica esse sofrimento.
No Japão vários cientistas desenvolvem agora uma prática descrita como “banho de floresta” [2]. Procuram a ligação ser humano/natureza numa perspectiva neuronal. Querem medir os seus efeitos, documentá-los, convertê-los em gráficos e entregar as conclusões aos decisores políticos e à comunidade médica, pois para estes investigadores a natureza parece atenuar muitos dos males que nos afligem. E estão a quantificar os efeitos da natureza não apenas no estado de espirito e no bem-estar, mas também na nossa capacidade de pensar – recordar, planear, criar, sonhar acordado e focalizar – bem como nas nossas competências sociais.
O antropólogo biólogo Yoshifumi Miyazaki, vice-director do Centro do Ambiente, da Saúde e das Ciências de Campo da Universidade de Chiba, na periferia de Tóquio, acredita que “em virtude de os seres humanos terem evoluído da natureza, é nela que nos sentimos mais confortáveis, mesmo que nem sempre tenhamos consciência disso”. Aliás, uma teoria popularizada por E.O. Wilson e que o psicólogo social Erich Fromm cunhou de “biofilia” em 1973. Que, em síntese, nos diz que os cérebros humanos respondem de modo inato e veemente aos estímulos naturais. Nada disto é novidade para um individuo culto, mas nunca tinha sido objecto de atenção científica. Basta reflectirmos sobre o tempo que passámos, durante a nossa evolução, na natureza – 99, 9 %.


[1] Trad. Sara M. Felício e Paulo Tavares, Bertrand Editora, 2018.
[2] E já perceberam que os gastos têm retorno com as centenas de milhares de turistas que todos os anos chegam ao Japão para esse “banho de floresta”.