domingo, 3 de dezembro de 2017

Mosaico de Cochrane - CANADÁ

http://www.muralmosaic.com/Cochrane.html

Estive há uns meses em Cochrane, uma terra encantadora para viver, entre Calgary e as Montanhas Rochosas, e agora um amigo envia-me a foto do belíssimo mural.
Clique no link da legenda.

Saudações,
Jorge Lage




Aprecie …
É um mural único no mundo. Foi realizado por 216 artistas.
Clique em qualquer quadrado e amplie a foto em detalhe.
Por exemplo no olho do cavalo!...
Vale a pena ver!...

sábado, 2 de dezembro de 2017

Uma semana no Terceiro Mundo

Alberto Gonçalves - OBSERVADOR

Felizmente o dr. Rio dá uma ajuda: a comissão de honra e a lista de apoios declarados, repletos do pior entulho oligárquico que o partido produziu em décadas, são quase um manifesto favorável ao rival.

Domingo
Quarenta anos após o 25 de Novembro de 1975, que nos apresentou a um regime ligeiramente similar às democracias civilizadas, um golpe de sentido inverso subverteu os resultados eleitorais e convidou dois partidos comunistas a partilhar o poder. Em quase toda a parte, a ascensão de forças totalitárias é um alarme e uma aflição. Em lugares exóticos, é motivo de celebrações: a 26 de Novembro de 2017, o governo achou que a concessão do país à prepotência material e à indigência mental merecia um “evento” especial e o “evento”, uma sessão de perguntas ao primeiro-ministro a cargo de “espontâneos”, aconteceu.
Como é natural, a comemoração de uma fraude, ou de dois anos de sucessivas fraudes, merecia ser assinalada através de nova fraude. O controlo dos “media” ainda não é o suficiente para esconder que os “espontâneos” eram, afinal, figurantes contratados, as perguntas eram gentilmente combinadas e as respostas, de facto temerárias incursões do dr. Costa pela língua portuguesa, eram uma encenação pelintra. Um vídeo, publicado no Observador, exibiu as actividades dos senhores ministros durante o circo: remover cera dos ouvidos, dormir, tirar macacos do nariz, brincar com o telemóvel, comer os macacos.
Foi, em suma, um espectáculo de propaganda típico da Bolívia com que muitos sonham. E foi, dentro do subgénero Propaganda Boliviana, um espectáculo bonito. A única dúvida é perceber quem saiu mais dignificado do mesmo. Talvez o governo, generoso a ponto de esbanjar a réstia de vergonha que nunca demonstrou possuir. Ou os figurantes, gente tão feliz e honrada que se vende a intrujões por trocos e merenda. Ou as televisões, que ávidas de informar transmitiram a farsa depois de a farsa ser exposta. Ou Portugal em peso, que podia estar a imitar nações a sério e está nisto.
Terça-feira
O dr. Centeno, especialista em fazer aos macacos do nariz aquilo que, nas horas vagas, faz aos rendimentos dos cidadãos que não trabalham para o Estado, é candidato a liderar uma coisa chamada Eurogrupo. O dr. Centeno concorre contra criaturas do Luxemburgo, da Eslováquia e da Letónia. Por sorte, e engenho, a vitória do dr. Centeno parece assegurada, talvez porque a nossa dívida pública é incomensuravelmente superior à dos pobres rivais, talvez porque alguém tem de ir lá parar.
Certo é que, como tudo o que cheire a cargo internacional, inclusive os que não possuem nenhum peso ou implicam mérito além da obscuridade periférica e “imparcial”, o país oficial e oficioso derrete-se com façanhas assim. Por algum motivo, convencionou-se que despejar, a título de penduricalho, um compatriota em lugar de “prestígio” é desculpa para cada português entrar em delíquio nacionalista. Mesmo quando o lugar de “prestígio” era desconhecido de toda a gente meia hora antes e o compatriota disputa o cargo com portentos igual e radicalmente anónimos.
Descontado o pasmo dos pategos, não acho mal. Em princípio, aprovo qualquer pretexto para pegar numa “personalidade” indígena e despejá-la bem longe (embora não faça alarde disso, fui um entusiasta do envio do eng. Guterres para os campos de refugiados e para Nova Iorque, não necessariamente por esta ordem). O problema é o cargo em questão ser, ao que consta, cumulativo, pelo que o dr. Centeno manterá as funções caseiras que tantas alegrias proporcionam aos jornalistas da RTP e da TVI. E, ainda que não mantivesse, o dr. Costa seria perfeitamente capaz de o substituir sem subir o nível do titular nem baixar a dívida. Caso o dr. Centeno ganhe, esta é daquelas situações em que mais ninguém ganha.
Quarta-feira
O PSD tem muito menos encanto na hora da despedida de Pedro Passos Coelho. Terminada a vigência desse homem afinal tão decente que se calhar passou por aqui ao engano, o que sobra? Sobra, pelos vistos, o socialismo nem por isso envergonhado de Santana Lopes e de Rui Rio, sobre os quais não é fácil arranjar um argumento que os distinga. Felizmente, o dr. Rio dá uma ajuda: a sua comissão de honra e a sua lista de apoios declarados, repletos do pior entulho oligárquico que o partido produziu em décadas, são quase um manifesto favorável ao rival. Nomes como Ângelo Correia, Manuela Ferreira Leite, Couto dos Santos e Ferreira do Amaral, isto para não falar das paixões assumidas de Pacheco Pereira ou daquele sr. Capucho, são, ou parecem ser, razões sucessivas para um optimista achar que, apesar de tudo, o PSD ficará mais bem servido com o embaraçoso dr. Santana. Mas um realista percebe que o país está desgraçado.
Quinta-feira
Não tenciono elogiar Belmiro de Azevedo. Por um lado, porque não venero ou abomino homens de negócios. Empresários a sério, por oposição aos espécimes que usam o epíteto mas não largam o Estado, agem por interesse próprio e deixam que os efeitos secundários do seu trabalho aconteçam naturalmente e não se prestem a grandes juízos de valor – e assim é que deve ser. Por outro lado, não é preciso elogiar Belmiro de Azevedo na medida em que os partidos comunistas com representação parlamentar já se encarregaram disso. Ao negar, por oposição assumida ou abstenção cobardolas, o voto de pesar na AR, PCP e BE prestaram ao dono da Sonae a maior homenagem possível: é bom que uma pessoa parta entre o amor dos que lhe são próximos, e o ódio dos que lhe são distantes. Ser detestado, até na hora da morte, por uma corja devota de tiranos e tiranias é sinal de que, nas horas da vida, se fez alguma coisa bem feita. Será com certeza o caso.

De Santa Catarina ao Natal


Por: Costa Pereira    Portugal, minha terra

“Da Santa Catarina ao Natal ou vai chover ou vai nevar”, ouvia dizer na minha aldeia por alturas da feira que neste mês de Novembro decorria e decorre em Celorico de Basto à volta do dia 25. Este ano em que a chuva deu lugar a um calor intenso que esteve na origem de tragédias com fogos florestais nunca vistas no país, só quase ao fim deste mês também conhecido por mês das almas é que as nuvens largaram uns poucas gotas sem influência para os caudais dos rios e abastecimento das barragens. Aquilo que na verdade se pode chamar um ano seco.
Outro dito que se dizia e minha mãe me ensinou tinha a ver com saber os dias de cada mês, e nunca mais o esqueci: “ 30 dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de 28 só há 1; os outros, são de 31; e quem bem contar, de 4 em 4 anos, mais 1 dia há - de encontrar”. Novembro fora entra o Dezembro, com um feriado no dia 1, dia da Restauração, e logo com a Novena da Imaculada Conceição que termina no dia 08, dia santo de guarda. Um mês também muito rico em motivações que mexem com o sentimento dos cristãos e em especial dos portugueses que além de cristãos amam a sua pátria consagrada a Santa Maria.
Com o 1º Domingo de Advento a decorrer desde 3 de Dezembro, que termina no 4º domingo dia 24 e culmina como o dia de Natal, dia 25. Um mês muito rico de motivos festivos e santos que nem sempre sabemos aproveitar no todo, já que em muitos casos o que sobra a uns, dava para atenuar o que falta a muitos. Bastava haver um pouco mais de boa vontade para que a praga da pobreza fosse atenuada e se não erradicada, pelo menos, rasgasse veredas que impedem quem tem desejo de servir o faça sem impedimento.

O meu irmão Che


Juan Martin tinha acabado de chegar à central de camionagem onde trabalhava quando viu a manchete do jornal Clarín: “A Bolívia anuncia que o Che morreu”. A capa mostrava uma foto do guerrilheiro argentino, vestido com a habitual farda militar e a fumar um charuto. Na segunda página do jornal, vinha a famosa fotografia do Che de “rosto inexpressivo, tronco nu, olhos abertos, braços ao longo do corpo e cabelo em desalinho, sobre a placa de cimento da lavandaria do hospital Vallegrande”, na Bolívia. Para Juan Martin foi um choque tremendo que fez questão de guardar só para si. Na empresa onde trabalhava a distribuir produtos lácteos, ninguém sabia que era o irmão mais novo de Ernesto Che Guevara. E ele nada disse.
O silêncio que Juan Martin decidiu manter naquele dia 10 de outubro de 1967 prolongou-se por mais de 50 anos. Desde que o irmão foi fuzilado na sala de aula de uma escola primária de La Higuera, uma pequena aldeia no sul da Bolívia, nunca falou publicamente sobre ele. Só visitou o local muito, muito tempo depois, e recusou sempre entrevistas ou comentários. Nunca quis escrever um livro ou ajudá-lo a escrever. Fechou a sete chaves as memórias que tinha daquele Che, que conheceu quando era simplesmente Ernesto, convencido de que não deviam e não podiam ser partilhadas. Até que, em 2009, tudo mudou.
(…)
Depois da criação de Los Caminos del Che, Juan Martin esbarrou, por acaso, com Armelle Vincent. A jornalista francesa tinha-o entrevistado anos antes para uma reportagem sobre o negócio da venda de charutos cubanos para a revista L’Amateur (depois da saída da prisão em 1982, Martin tornou-se no primeiro importador de charutos Havana). Naquela altura, não quis falar de Ernesto, mas as coisas entretanto tinham mudado. “Agora já falas do teu irmão?”, perguntou-lhe Arnelle. Juan Martin respondeu-lhe que “sim” e a jornalista propôs-lhe fazerem uma espécie de entrevista sobre o Che. “Não foi de pergunta e resposta, foi mais uma longa conversa gravada”, explicou o argentino. Foi essa longa “conversa gravada” que deu origem ao livro O Meu Irmão Che, um relato pessoal e familiar da vida de Ernesto Che Guevara, desde os seus primeiros anos de vida à sua morte em 1967, na Bolívia, e dos acontecimentos de que foi protagonista. Publicado recentemente em Portugal pela Objectiva, o volume saiu primeiramente em França. “Só que eu não falo francês…”, lamentou Juan Martin. “A Armelle enviou-me o original em francês, mas eu não o conseguia ler. E com o tradutor Google não dá…”, brincou o argentino, que só conseguiu ler o livro de que foi coautor quando este saiu em espanhol.
A biografia, que é também uma autobiografia, tem como “objetivo humanizar o Che” e colocar dentro da sua famosa imagem “um conteúdo também de pensamento”. “Ernesto era um homem, é preciso tirá-lo do seu pedestal e devolver a vida a essa estátua de bronze, para perpetuar a sua mensagem”, refere o livro, logo nas primeiras páginas. É que, apesar de a figura de Ernesto Che Guevara ser uma das mais famosas, as suas teorias políticas são, em grande medida, desconhecidas. “Disse uma vez que as duas imagens mais conhecidas do mundo são a de Cristo e a do Che, e um amigo disse-me que lhe parecia que não, que a de Cristo é muito mais conhecida”, afirmou Juan Martin durante a conversa com o Observador. “Creio que sim, mas Cristo foi morto há mais de dois mil anos. O Che morreu há 50.”


A COADOPÇÃO DA TERESINHA !


por Fernando Tavares
1 – A Teresinha tinha 6 anos quando a mãe, vítima de cancro da mama, faleceu. Desde o ano de idade que vivia com a mãe, perto dos avós e dos tios maternos. Foram estes a passar mais tempo com ela, durante a doença da mãe. Acima de tudo os primos... de quem tanto gostava, e com quem brincava longas horas…

2 – Durante estes 5 anos teve sempre um relacionamento saudável com o pai. O facto de o pai viver com um companheiro, o Jorge, nunca foi motivo de comentário. Contudo, desde os tempos do divórcio, o pai e os avós maternos ficaram de relações cortadas.
Após o óbito da mãe, a Teresinha foi viver com o pai, e com o Jorge.

3 – Os avós maternos receberam então uma notificação para comparecer em Tribunal onde lhes foi comunicado que a sua "neta" tinha sido coadoptada pelo companheiro do pai, pelo que deixava de ser sua neta. Foi-lhes explicado que por efeito da coadopção os vínculos de filiação biológica cessam.
É o regime legal aplicável (art. 1.986.º do C.C. – "Pela adopção plena, extinguem-se as relações familiares entre o adoptado e os seus ascendentes e colaterais naturais").
Nada podiam fazer. Choraram amargamente a perca desta neta (depois da filha) que definitivamente deixariam de ver e acompanhar.

A Teresinha que tinha perdido a mãe, perdia também os avós, os tios e os primos de quem tanto gostava. Nunca mais pôde brincar com aqueles primos ou fazer viagens com o tio Zé e a tia Sandra que eram tão divertidos. A Teresinha tinha muitas saudades daquelas pessoas que nunca mais vira.
Não percebia porque desapareceu do seu nome o apelido "Passos" (art. 1.988.º n.º1 – "O adoptado perde os seus apelidos de origem").

4 – Um dia perguntou ao pai porque mudara de nome. Foi-lhe dito que agora tinha outra família. Não percebeu e, calou… Na escola, via que os outros meninos tinham uma mãe e um pai, mas ela não.

5 – Quando chegou aos 16 anos de idade foi ao ginecologista, sozinha. Ficou muito embaraçada com as perguntas que lhe foram feitas sobre os seus antecedentes hereditários maternos. Nada sabia. Percebeu que o médico não a podia ajudar na prevenção de varias doenças... Estava confusa. Nada sabia da mãe. Teria morrido? Teria abandonado a filha?

6 – Até que um dia descobriu em casa, na gaveta de uma cómoda, um conjunto de papéis em cuja primeira pagina tinha escrito SENTENÇA. E leu... que "o superior interesse da criança impunha a adopção da menor pelo companheiro do pai, cessando de imediato os vínculos familiares biológicos maternos, nos termos do disposto no art. 1.986.º do C.C., tal como o apelido materno (Passos) (art. 1.988.º n.º1 do C.C.) que era agora substituído por... Tudo por remissão dos arts. X.º a Y.º da Lei Z/2013.

7 – O que mais a impressionara naquele escrito foi o facto de que quem a escrevia parecia estar contrariado com a decisão que estava a tomar. E, a dado passo escrevia "Na verdade, quando da discussão da lei Z/2013 na Assembleia da Republica o Conselho Superior da Magistratura e a Ordem dos Advogados emitiram parecer desfavorável à solução legislativa que agora se aplica. Porém, "Dura lex sede lex". A Teresinha não percebeu...

8 – Durante anos procurou a Família materna, em vão... Mas rapidamente consultou os Diários da Assembleia da Republica onde constavam os nomes dos deputados que tinham aprovado aquela lei que lhe tinha roubado os mimos da avó Rosa, as brincadeiras do avô Joaquim... e os primos.
A Teresinha queria voltar ao tempo destes, que são sangue do seu sangue, mas não pode porque esses anos foram-lhe usurpados. Vive numa busca incessante pela sua identidade. Se as outras raparigas da sua idade sabem das doenças que a mãe e o pai tiveram, porque é que ela não pode saber? Porque lhe negam esse direito?

9 – Leu então num livro que "a adopção é uma generosa forma de ajudar crianças a quem faltam os pais e a família natural para lhes dar um projecto de vida. A adopção é sempre subsidiária".
E perguntou – Onde está a minha família que nunca me faltou mas, de mim foi afastada por estatuição legal e decisão judicial?
A Teresa está muito triste.

10 – O pai e o Jorge entretanto divorciaram-se… e a Teresa é obrigada a ir passar os fins-de-semana a casa do Jorge… porque a Regulação das Responsabilidades Parentais assim o ditou.

11 – Teresinha, nós estamos aqui!


Isilda Pegado
Presidente da Federação Portuguesa pela Vida



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O 1º de Dezembro



Editora Educação Nacional de Adolfo Machado - Ano da edição: 1969

Raízes, uma revista transmontana


Uma revista transmontana. Generalista, mas profunda. Abrangente em todas as áreas humanas. Da agricultura, à arte, cultura, história, Raízes abarca todo o mundo transmontano, em todas as suas dimensões. Das faldas, ao cume do Marão, ou das serras de Montesinho ou do Larouco.

As Árvores de Lisboa

Praça do SALDANHA - LISBOA

O texto que aqui se publicou de Pedro Correia, jornalista e administrador do excelente blogue Delito de Opinião, originou um comentário do colaborador de Tempo Caminhado, Jorge Lage. Que agora se reproduz como artigo na página central, pela oportunidade e pelas questões que, em síntese, levanta sobre as árvores de Lisboa.



A sabedoria sobre as árvores pratica-se mais que a teorizar. E é por isso que tenho dificuldade em perceber porque se deixam morrer tantas árvores nos espaços urbanos de Lisboa que corta o coração. Depois não percebi porque aquela árvore que foi abatida perto do Saldanha, quando podia ter sido tomada em conta e incorporá-la no projecto urbanístico, ficando como símbolo de respeito pela sua generosidade. Depois, nos espaços lisboetas não plantem árvores como se fossem, apenas, objectos de adorno, sem o mínimo respeito pela vida e bem-estar destas. Para haver melhor bem-estar arbóreo lisboeta era necessário contratar um dendropatologista experimentado ou, pelo menos, um conselheiro. O sábio Prof. Jorge Paiva, do Jardim Botânico de Coimbra, entre outros, desempenharia bem essa missão. Infelizmente, é mais conhecido junto da comunidade científica estrangeira do que em Portugal. 
                
Jorge Lage (voluntário e dirigente durante mais de vinte anos pela educação florestal.)

As nossas irmãs árvores

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As nossas irmãs árvores

por Pedro Correia - Delito de Opinião
19.11.17 
Converso com um amigo sobre as vantagens de viver no campo, em comparação com o frenético quotidiano citadino. Há uma enorme árvore bem perto de nós. Pergunto-lhe: “Sabes que árvore é esta?”
Não faz a menor ideia. É um choupo negro, alto e esguio, de folha em forma do símbolo de espadas nas cartas de jogar – uma das espécies vegetais mais frequentes em Lisboa por se adaptar muito bem à atmosfera poluída
palmeira califórnia.jpg

Este episódio banal confirma-me a profunda iliteracia da esmagadora maioria dos habitantes das cidades em relação ao nosso vasto património botânico. A recente tragédia dos incêndios pareceu ter feito de cada compatriota um inesperado especialista em espécies vegetais – ao ponto de todos terem passado a emitir sentenças categóricas sobre o que deve ou não ser plantado nas quintas e aldeias do interior do País. Invocavam a necessidade imperiosa de acolhermos mais “espécies autóctones” e rejeitarmos “espécies invasoras”, sem fazerem a menor ideia do que significa uma coisa e outra.
Essa pretensa sabedoria teve um brevíssimo prazo de validade, próprio dos actuais surtos de indignação nas redes sociais. A verdade é que poucos conhecem as árvores, muito poucos as respeitam e quase todos são incapazes de nomeá-las.
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Tive a sorte de os meus pais me haverem ensinado desde menino a conhecer o mundo vegetal e a tratar as árvores pelos nomes próprios. Aprendi muito cedo que algumas estão mesmo associadas a características de certas regiões. Na região de onde sou originário, a Cova da Beira, a  cerejeira é uma árvore icónica e muito admirada tanto na magnífica fase da floração como na incomparável explosão dos frutos, que conferem tonalidades muito próprias aos extensos pomares das encostas serranas.
Outra árvore a que prestamos tributo por ser uma histórica aliada no combate à fome e pela sua relevância presente no tecido económico da região é o castanheiro, que aliás se destaca no brasão da Câmara Municipal do Fundão, com as castanhas a figurarem como pepitas de ouro.
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Estas e outras árvores acompanharam o meu percurso biográfico.
Os pinhais do Alto Minho e da Fonte da Telha, os coqueiros e tamarindeiros na casa de Timor. Os gondoeiros da praça Engenheiro Canto Resende, no Bairro do Farol. As Madres del Cacau na Ermera. As casuarinas na praia de Hac-Sá, na ilha de Coloane. A grevílea robusta da vivenda da Charneca. Encontrei uma há dias, no jardim do Campo Grande, e saudei-a como se revisse uma velha amiga.
Falta-nos este espírito de confraternização com as nossas irmãs árvores, como diria São Francisco de Assis. Nas reuniões de condóminos urbanos um dos temas recorrentes é o do abate de árvores – porque sujam, porque roubam a luz do sol, porque atraem pássaros e insectos, porque “desfiguram a paisagem”, porque sim. E as próprias autoridades municipais se apressam tantas vezes a retirá-las do espaço público. Ainda hoje não perdoo ao vereador Sá Fernandes ter ordenado a remoção das laranjeiras que ornavam a Praça de Alvalade, substituindo-as por placas de cimento.
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Há dias pus-me a pensar nas árvores que sou capaz de identificar – tanto árvores de floresta, de cultivo ou espontâneas, como de jardim. A lista foi-se tornando cada vez mais extensa. Da figueira ao pinheiro bravo, da tília ao carvalho, do eucalipto ao freixo, do lódão à olaia, do marmeleiro à oliveira, da acácia ao salgueiro, do choupo branco à macieira, do pessegueiro à romanzeira, da pereira ao cipreste, da palmeira-de-leque à alfarrobeira, do sobreiro ao jacarandá, da ginkgo à araucária, do zambujeiro à tipuana, do plátano ao limoeiro, da bananeira à nespereira, da laranjeira à magnólia, do pinheiro manso à palmeira das Canárias. Sem esquecer árvores-arbustos, como os dragoeiros ou os medronheiros.
Várias delas, felizmente, integram já a lista oficial do nosso património. Incluindo o inigualável cedro do Buçaco no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, ou a deslumbrante figueira da Austrália em destaque no Parque Marechal Carmona, em Cascais.
Sempre que posso, fotografo-as: são minhas todas as fotos que ilustram este texto, captadas ao longo deste terrível ano que parece de perpétua Primavera, em que as folhas caducas permanecem verdes e muitas espécies estão a florescer em Novembro como se fosse Abril ou Maio enquanto pelo menos 5% da superfície do País ficou reduzida a cinzas. Muitos dos nossos velhos não voltarão a ver paisagem verde em seu redor.
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Há três meses, a jornalista Maria Henrique Espada, editora da revista Sábado, reuniu António Bagão Félix e José Sá Fernandes numa interesssantíssima conversa sobre árvores em que os dois interlocutores exibiam extensos conhecimentos na matéria.
Gostei muito de ler o que diziam. Só lamento que Sá Fernandes, enquanto vereador responsável pelos espaços verdes da capital, teime em não partilhar essa sabedoria com os habitantes de Lisboa.
Bastaria colocar tabuletas nos jardins a indicar os nomes das espécies vegetais, como fazem várias câmaras por esse País fora, claramente amigas do ambiente.
Isso contribuiria para aproximar das árvores os lisboetas que hoje julgam que elas só servem para receber urina de cães e dar sombra aos carros nos meses de Verão.


Legendas (de cima para baixo):
1. Romanzeiras
2. Palmeira-de-leque
3. Folhas de olaia
4. Medronheiros
5. Choupos brancos
6. Limoeiros

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