domingo, 3 de setembro de 2017

À nossa espera


É Maria que nos espera
No átrio do aeroporto!
Como Ela se esmera
Para levar-nos a bom porto!
Acolhe-nos com abraço de Mãe;
Quanta ternura este abraço tem! (1)

Logo ali, à chegada,
Com encantador sorriso…
A pessoa sente-se transportada
A um cantinho de paraíso!
Depois, dá-nos a mão,
E logo rejubila nosso coração!

É a melhor acolhida,
Quando chegamos a um país:
Encontrar, logo à saída,
A doce Boa-Mãe que te diz: (2)
“BEM-VINDO SEJAS, MEU FILHO,
JUNTOS, CAMINHAMOS O MESMO TRILHO!”.

E que linda é Maria
Em seu olhar de doçura!
Não pode haver maior alegria
 – A alegria mais pura –
Que sentimos no seu abraço,
A acompanhar-nos passo a passo!

Obrigado, Mãe, por teres vindo!
“NÃO PODIA SER DE OUTRA MANEIRA;
FILHO, QUERO DIZER-TE: SÊ BEM-VINDO…
QUERO, LOGO ALI, SER A PRIMEIRA
A ACOLHER-TE NO MEU PEITO!”.
Ação de graças é então o meu preito! (3)


Teófilo Minga
Rio Negro (Colômbia), 2 de setembro de 2017

1)    No aeroporto de Medillín esperava-me o Irmão Orlando, meu velho amigo dos tempos de San Lorenzo del Escorial. Espera-me com um quadro da Boa-Mãe e apressa-se a dizer-me: “É A BOA-MÃE QUE TE ESPERA E TE ACOLHE”. Fiquei logo impressionado, bem impressionado, sabendo que Maria dará esta maternal acolhida a todos os Capitulares e colaboradores do Capítulo. Com Ela temos, sem dúvida, a melhor das acolhidas.
2)    Lembro apenas, para os meus leitores que o título de BOA-MÃE é o título sob o qual Maria é invocada na Congregação dos Irmãos Maristas!
3)    Por tanta ternura e presença de Maria, na nossa vida de Maristas, na vida de todos os cristãos, em geral, só pode surgir em nós uma oração de ação de graças.
A patrona da minha aldeia, Carção, é, precisamente, Maria, ali invocada sob o título de NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS. A sua festa é sempre no último Domingo de Agosto. Quando posso, gosto de estar presente a esta sua festa que me traz tantas e lindas recordações da minha infância.
E quantas graças, graças sem conta, ela me tem dispensado no decorrer da minha vida. À oração de súplica, talvez a mais comum em relação a Maria, devemos acostumar-nos, cada vez mais, a ter, em nossos lábios e em nosso coração, uma oração de louvor e de ação de graças a Maria.


sábado, 2 de setembro de 2017

Literatura de resistência ao totalitarismo soviético


Em rúbrica própria, Pedro Correia, jornalista de carreira, publicou no seu Delito de Opinião, texto por nós lavrado sobre a Literatura Russa, sobretudo do período Soviético.
Um esboço de ensaio futuro. Pode ser lido AQUI, como inédito, como bem entendemos por questão de princípio.
A divulgação do mesmo veio a calhar porque em Outubro / Novembro próximos, se comemora o centenário da Revolução Russa (melhor dizendo, Revolução Soviética). E o Partido Comunista Português, prepara-se para comemorar a data com pompa e circunstância, patrocinando a publicação de 10 Dias que Abalaram o Mundo, do mítico John Reed.  A obra de Reed é lendária. Faz o filme ao pormenor desses dez dias alucinantes que depois originaram a tirania que todos conhecemos. Mas nessa altura já Reed havia sido sepultado no Kremlin com 33 anos!
Mais completa que a obra de Reed é a História da Revolução Russa de Trotsky. Mas essa só se for patrocinada pelos beatos e beatas do Bloco de “Esquerda”.
Entendemos agora publicá-la neste espaço, para os leitores de Tempo Caminhado, com as imagens (sobre os autores) escolhidas por Pedro Correia.
Mas para que não haja polémica, advertido por experiência recente, salientamos que a nomenclatura é a seguida por vários tradutores portugueses: Fernando Pinto Rodrigues, Cordeiro de Brito, João Gomes, Nina Guerra, Filipe Guerra, Natália Vakhmistrova, Maria Vassilieva e José Milhazes. Bem como as traduções sob os auspícios do Programa TRANSCRIPT para o Apoio à Tradução da Literatura Russa da Fundação Mikhail Prokhorov. E para as obras de autores russos não vertidos para português, seguiram-se obras de George Steiner, Marshall Berman, Simon Ings e Orlando Figs. Bem como a tradução francesa para Evguénia S. Guinzbourg.
E, embora se não adapte bem a Isaac Babel, o titulo que encima o artigo foi inspirado em missiva online de Pedro Correia.

                                          Esboço de uma Literatura Russa








Não há ninguém que não tenha ouvido falar de Auschwitz. Mas quem sabe que Kolima foi uma gigantesca máquina de aviltar e matar? Poucos. Em que escolas se fala de Kolima? Os autores abordados neste pequeno "ensaio" tocaram a fundo a morte em massa.

Enquanto no Ocidente, durante todo o século XIX, autores como Baudelaire e Marx, entre outros, aproveitaram o processo de modernização em desenvolvimento, para o usarem como fonte de energia e material criativo, nas áreas geográficas fora do Ocidente, a modernização era inexistente. Foi essa a situação da Rússia durante todo o século XIX. A sua economia estagnava, e em alguns casos até regredia. Trotski reconhece-o na sua História da Revolução Russa, no I Volume: “O traço essencial e o mais constante da história da Rússia é a lentidão em que o país se desenvolveu, apresentando como consequência uma economia atrasada, uma estrutura social primitiva e baixo nível cultural”.
A Rússia, em relação ao Ocidente, no século XIX, foi um arquétipo do Terceiro Mundo no século XX. Este atraso em relação ao Ocidente desempenhou um papel central na politica e na cultura russas, da década de 1820 ao período soviético. Cerca de cem anos.
No inicio do século XX, o país com maior dimensão populacional, em quase todos os outros padrões surgia em último. Em 1913 tinha o rendimento per capita mais baixo da Europa (exceptuando o império Otomano), e a esperança de vida (30 anos) colocava-a século e meio atrás da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos da América. Tchékhov di-lo sarcasticamente na sua peça “O Cerejal”.
Contudo, esta era do subdesenvolvimento russo produziu, no espaço de duas gerações, uma das maiores literaturas do mundo. E, curiosamente, foi São Petersburgo, a capital imperial, a mais clara expressão de modernidade no solo russo do século XIX. Que iniciou uma tradição literária brilhante com características próprias. Assumida com Puchkine (no seu Cavaleiro de Bronze), e se estendeu a Gogol, Chernyshevski, Dostoievski e Bieli. Nela surge como personagem principal o “homem comum”, cujo destino é sempre o de vitima. Mas uma vitima cada vez mais audaciosa no século XIX, fruto das várias revoluções. Uma vitima que encarna a vida real de alguns dos autores. Dostoievswki, por exemplo, teve a vida moldada por dois acontecimentos. O seu pai morreu quando este era ainda jovem, provavelmente assassinado por um dos seus servidores. Mais tarde, o autor de Recordações da Casa dos Mortos, esteve prestes a ser executado por traição. Foi cruelmente conduzido ao cadafalso e deixado de olhos vendados à beira da morte, antes de ser informado que a pena fora comutada.
E como Dostóievski, nenhum poeta, romancista ou dramaturgo russo terá trabalhado com condições normais de liberdade intelectual. Muito menos em condições favoráveis a essa liberdade.
A literatura russa é intima, escrita para o leitor russo, mas mesmo o leitor exterior a esse território com a dimensão de metade da lua, consegue perceber o tormento de Pushkin, o desespero de Gogol, a alma dilacerada de Dostoievski na Sibéria, a luta impetuosa de Tolstoi contra a censura e o desalento do extenso rol de assassinados (ou desaparecidos) incrustados nas façanhas literárias russas do século que nos precedeu. A estes podemos juntar Turguénev, Tchecov, Andréev ou Nikolai Leskov que se tornaram clássicos para as gerações posteriores.
Mas o homem comum torna-nos a aparecer no contexto soviético, após uma revolução que juntamente com os seus companheiros venceram; numa nova ordem onde teoricamente goza de todos os direitos de que necessita. Uma ilusão que pagou cara.
O mítico John Reed, no seu imortal 10 Dias que abalaram o Mundo, descreve-nos em rigor os primeiros 10 dias da tomada do poder bolchevique. Só a História da Revolução Russa de Trotski se lhe assemelha, suplantando-o em muitos pontos.

As políticas genocidas na Rússia Soviética dos anos 1932-1933 e 1937-1949 estão hoje devidamente documentadas e estudadas. Já Dostoyevsky em Demónios, nos transporta para as origens do terrorismo moderno. Porque o conceito de “terror em massa” é fulcral em Lenine, fórmula que surge a partir da revolução de 1905. Volta a surgir em força na Primavera e durante o Verão de 1918, estando ainda presente em Abril de 1921. E largamente apoiada por intelectuais como Gorki, sobretudo no que diz respeito à massa de camponeses. Em 1930-31, foram deportados cerca de dois milhões de camponeses.
De repente, o terror de 1793 dos “homens do barrete frígio” é institucionalizado no dia cinco de Setembro de 1918 pelo decreto “sobre o terror vermelho”. De facto, os meses que se seguem caracterizam-se por um clima de violência estatal absolutamente novo. São 15.000 as vítimas do Outono de 1918. Ou seja, foram executados, em dois meses, três vezes mais do que o número total de executados no último século pelo terror czarista!
Nicolas Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue jorre a rodos!”.
Caracterizado pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos “Amanhãs que cantam!”.
É neste contexto histórico que surge esta literatura, produzida por homens e mulheres que sofreram na pele o terror soviético, cujas personagens das narrativas são, na dimensão humana, os mesmos “deuses” e heróis evocados por Homero, Sófocles, Ésquilo e Euripides[1].

Ivan ChmeliovIvan Chmeliov (1873-1950) nasceu e foi criado em Moscovo, onde se formou em Direito. Em 1918 instalou-se na Crimeia. Foram anos de fome, medo e humilhação. Em 1920, o filho único do escritor, ex-oficial do Exército Branco, foi preso no hospital e fuzilado.
Emigrou em 1922 para França. A sua obra-prima, onde conta a história da Crimeia do pós-guerra, um testemunho vivo da pavorosa concretização da “grande experiência de transformação” politica e social da Rússia levada a cabo pelo partido bolchevique, foi saudada por Thomas Mann.
Em Março de 1922, 400 mil pessoas passavam fome; 75 mil morreram. Até ao Verão de 1923, 100 mil pessoas morreram de fome.
É sobre esta tragédia que Chmeliov se debruça em O Sol dos mortos.

EVGUENI  ZAMIATINEEvgueni Zamiatine (1884-1937), escritor por vocação e engenheiro naval por profissão, é um dos primeiros vultos a tratar o homem comum da época soviética nos seus contos. No Ocidente tornou-se famoso com Nós (1924), a pioneira distopia que iria influenciar textos de género como 1984 de Geroge Orwell. Onde denuncia as maluqueiras bolcheviques de 1917, ao intervirem na vida privada, acabando com a instituição família, transformando o espaço doméstico em espaço colectivo onde viviam várias famílias, com dormitórios colectivos e salas próprias para o sexo!
Em 1931 endereça uma corajosa missiva critica a Estaline.
Os contos de Ziamatine são “um lampejo do que a literatura pós-revolucionária poderia ter sido, se a ditadura não tivesse eliminado totalmente a independência, a ousadia e o individualismo” (Mirra Ginsburg). Nas suas narrativas, impelido pela total liberdade humana de criar, converteu-o num cidadão inconveniente em dois regimes despóticos. O czarismo condenou-o por um ano de exílio; o comunismo baniu-o para sempre.

Ossip Mandelstam (1891-1938)
Foi um dos grandes poetas modernos. Escritor profundamente tradicional (da tradição de Petersburgo), na sua novela de 1928, O Selo Egípcio, trata o homem comum como até aqui não havia sido tratado porque nos aparece num contexto soviético, com o seu drama e angústia pós-revolucionários. No final da história Mandelstam faz referência a Moscovo e ao hotel Selecto, através do capitão Kirzzanowski. Moscovo tornara-se o quartel-general de uma nova elite soviética protegida (e chefiada) por uma terrível policia secreta que actuava a partir da prisão Lubianka, onde o poeta, seis anos depois, seria interrogado e detido.
Dois anos depois da publicação d’O Selo Egípcio, o poeta, juntamente com Nadejada, sua esposa, regressa a Leninegrado, mas os esbirros do Partido que estavam ao comando da Sociedade de Escritores e controlavam os empregos e a habitação, expulsaram-nos.
Os Mandelstam regressam a Moscovo. E em 1933, no meio da campanha estalinista pela colectivização das terras, onde perecem mais de quatro milhões de vidas camponesas, e a um passo da Grande Depuração que levaria à morte outras tantas (ou mais), o poeta compôs o poema nº 286 sobre Estaline.
Embora Mandelstam o não tenha escrito, leu-o em voz alta diversas vezes em reuniões à porta fechada. Um dos que o ouviu denunciou-o à policia secreta. Numa noite de Maio de 1934 foram busca-lo. Após terríveis sofrimentos físicos e mentais, quatro anos depois morreu num campo de passagem perto de Vladivostok.

Isaac Babel (1894- 1940), influenciado por Gogol (e Maupassant), nasceu na cidade portuária de Odessa que pertencia ao império russo. Era filho de um vendedor de roupas usadas e de uma judia moldava. O seu tio fora morto num pogrom.
Borges, referindo-se a Babel, dizia que o “clima habitual” da sua vida “seria uma catástrofe”.
As suas principais histórias foram incluídas, mais tarde, em Exército de Cavalaria. Escreveu ainda Contos de Odessa, narrativas de inspiração autobiográfica sobre a sua infância no gueto de Moldavanka, antes e após a revolução.
Em 1930 testemunha, na Ucrânia, a brutalidade e as mortes causadas pela colectivização forçada da agricultura. No Congresso da União de Escritores Soviéticos, em 1934, Babel é já um autor marginalizado pelo realismo socialista. O regime silenciou-o. Em 1935, a sua peça Maria, viu a sua estreia cancelada em Moscovo pela policia politica. Em 1939 foi preso e interrogado sob tortura na prisão do KGB em Moscovo. Segundo a versão oficial teria morrido numa prisão do Gulag em Março de 1941. Os seus manuscritos foram confiscados e destruídos.

Vassili Grossman (1905-1964) nasceu na cidade de Berdítchev, a “capital judia” da Ucrânia, no ano de 1905. Filho de judeus, o pai era engenheiro e a mãe professora. Embora tenha estudado engenharia, Vassili acabou por se tornar jornalista e escritor.
Como correspondente do jornal militar russo Krasnaya Zvezda, cobriu as batalhas de Moscovo, Stalinegrado, Kursk e Berlim. Será um dos primeiros repórteres a testemunhar a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga.
Em 1961, os agentes do KGB assaltam-lhe a casa levando-lhe todas as anotações que possuía para Vida e Destino, um volume extraordinário, mas de leitura complexa. Em 1974 um dos originais que sobreviveu é microfilmado pelo poeta Semion Lípkin e através do físico nuclear Andrei Sákarov e do humurista Vladimir Voinovich, esse manuscrito sai do país para ser editado em vários países em 1980. Em 1988 é publicado na Rússia de Gorbatchev.
Vassili GrossmanEm Vida e Destino, Grossman, além de denunciar as atrocidades nazis, manifesta um profundo desencantamento com as lideranças soviéticas desde a revolução de 1917, denunciando os pogrom. Anna Semiónovna, foi uma das vítimas dos pogrom e Evguénia Nikoláevna, perseguida devido às posições políticas do seu marido. Víktor, assistiu à progressão do medo e do sistema vil da denúncia em nome da “confiança do partido”. E procurou guiar-se e “agir segundo a sua consciência”, o melhor que foi dado ao ser humano.
O Terror leninista/estalinista assinalado anteriormente, foi confirmado em obras literárias como Tudo Passa, de Grossman. Um dos seus personagens, um activista convicto, a dado passo diz: “escorraçámo-los como a um bando de gansos”. Mas noutra passagem a barbárie humilha; vai ao limite da dignidade humana: “… eles … ”filhos da puta”. E gritam-lhes: “Bebedores de sangue”! … não podemos sentar-nos à mesa desses parasitas, o filho do Kulak é asqueroso, a sua filha é pior que um piolho. Eles consideram esses camponeses como gado, como porcos. Tudo o que se relaciona com os kulaks é repugnante: primeiro a sua pessoa, depois o facto de não terem alma … Depois, eles fedem … Quando os tivermos exterminado, começará uma era feliz para o campesinato”.
No fim da vida escreve o seu último volume. Uma espécie de reportagem na Arménia. Com o qual tornou a ser molestado por abordar o genocídio Arménio.

A Taiga de Kolima na Primavera!
Varlam Chalamov (1907-1982) nasceu em Vologda Filho de um padre ortodoxo, viveu os seus primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga. São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em “Gulag”, como Evguenia Guinzbourg, em “Le ciel de La Kolyma”  o testemunham.
A este lugar, Varlam chama “o desembarcadouro do inferno” [2]. Num dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso Varlam diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis mensagens”. Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão diárias.
Kolimá é lugar de maldição e o rio que ali passa foi também enchido pelas lágrimas dos condenados como no Cócito de Dante. Varlam não tem dúvidas quando se refere a este local: “Recordar primeiro o mal, e o bem depois. Recordar o bem durante cem anos, e o mal durante duzentos anos”.

Aleksandr SoljenitsinAlexander Soljenitsyne (1918-2008) nasceu em Kislovodsk. A grande obra de denúncia sobre o terror soviético foi uma obra sua -  Arquipélago Gulag. Os gulag[3] eram campos de concentração e de trabalho forçado na antiga União Soviética.
Um Dia na Vida de Ivan Denisovich foi a sua primeira novela. E foi o primeiro testemunho publicado na antiga URSS, por um dos presos políticos a mando de Estaline. O Ocidente soube tarde da tragédia do Gulag. E para isso contribuíram intelectuais como Bertolt Brecht que há muito se sabia dessa tragédia e continuava a venerar o sanguinário Estaline.
Ivan Denisovich é um prisioneiro politico do antigo regime soviético que revela as atrocidades (psicológicas e físicas, nas quais se inclui a repressão) dos campos de trabalho forçado, o Gulag, que o regime de Estaline (e Lenine) aproveitaria do tempo dos Czares. É, aliás, bem provável que a sua origem esteja na prisão da ilha de Sacalina, à qual Tchécov dedicou um livro sobre o estudo que aí fizera.
Os detalhes são assombrosos. Denisovich acorda adoentado, é castigado por dormir alguns minutos a mais, passa o dia trabalhando num frio de rachar e tem de se indispor para conseguir uma ração miserável. O cenário é desolador. Os prisioneiros enfrentam o inferno branco (neve e inverno) do Cazaquistão com sapatos onde não cabem os pés, luvas que rasgam a qualquer movimento, camas esqueléticas e cobertores ratados. Embora cercados de um frio imenso, só são dispensados do trabalho escravo quando o termómetro marca 41º negativos!
O relato sobre Ivan, é o relato da experiência sofrida pelo próprio Alexandr Solsjenitsin, um historiador à época com 43 anos. Não imaginou os factos (o relato não é ficção ou narrativa romanceada), não ouviu testemunhos. Ele próprio, mais tarde prémio Nobel da Literatura, sofreu na pele a fúria do regime e dos seus caciques; da corrupção do sistema. Num dos campos de prisioneiros no Cazaquistão (Ekibastuz) foi escravizado, em condições sub-humanas, como mineiro e pedreiro, deixando o campo em 1953 à beira da morte, vitima de cancro. Retomou uma vida normal como professor do Ensino Secundário, dedicando as noites (em segredo) à escrita deste relato memorável. Só por milagre a sua detenção lhe não custou a vida. Comandante de um pelotão de artilharia no Exército Vermelho durante a II Guerra Mundial, foi condecorado duas vezes por bravura em combate. No fim da campanha, foi detido por criticar Estaline numa missiva enviada a um amigo.
Aleksandr SoljnítsinJá como prémio Nobel e apenas com um livro publicado (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich), Soljenitsyne passa à escrita os apontamentos que iriam dar origem à obra fundamental sobre o gulag soviético, com cerca de 2000 páginas, O Arquipélago Gulag, publicado em 1973 no Ocidente. E que o autor reduziria, mais tarde, para um volume de cerca de 600 páginas para que fosse facilitada a leitura, e mais rapidamente disseminado pelos leitores ocidentais. A obra de Soljenitsyne é uma narrativa sobre factos presenciados pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, um dos campos do arquipélago, e pelas cartas e relatos de 237 pessoas.
Quantos desapareceram nos Gulag? Pelo menos seis vezes mais dos que foram chacinados no holocausto Nazi. Anne Applebaun em Gulag, trata dos números e de muito mais. Uma fonte recomendável.                                                                                                                                                                Armando Palavras


[1] Porque se trata de um esboço, neste escrito, por receio de lhes não dar a dignidade que merecem, não se reproduz reflexão sobre muitos autores russos, dessa época, que mereciam uma referência tão elevada como aqueles que nos mereceram essa reflexão: Sinyavsky que cumpriu pena em vários campos de trabalho forçado entre 1966 e 1977; Pasternak, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Joseph Brodsky, Jaan Kross (Estónia) e Chukovskaya que na sua novela trata de Bilibin e Veksler.
Também não se faz reflexão sobre ficções como O Meteorologista de Rolin, ou de narrativas como Rumo à Liberdade do polaco Slavomir Rawicz.
[2] José Milhazes diz-nos sobre o assunto:” Ao vaguear na Net deparei com a publicação de um trecho de um livro traduzido por mim em 1990 "Contos de Kolima” num blog chamado "Teor Crítico".
Escrita por Varlam Chalamov, ela exerceu em mim uma grande importância, tendo contribuído fortemente para a revisão de algumas das minhas ideias políticas. É depois de obras como estas, de relatos directos, pessoais, que se conclui que entre os campos de concentração nazis e o GULAG poucas diferenças existiam. Uns diziam matar pela "limpeza da raça", outros pela "classe social"... Descubra a diferença!”. (http://darussia.blogspot.pt/2013/11/contos-de-kolima-excerto.html).
[3] GULAG - acrônimo para Glavnoe Upravlenie Lagerei, ou "Administração Central dos Campos", palavra que por fim passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados para prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres - espalhavam-se por todo o país, da gélida Sibéria às inóspitas regiões da Ásia Central, passando pelas florestas dos Urais e os subúrbios de Moscovo. Cerca de dezoito milhões de pessoas passaram por esse sistema de trabalho escravo, tema do livro Gulag, de Anne Applebaum.
Os maiores gulags ficavam em regiões geográficas quase inacessíveis e com condições climáticas extremas. A combinação de isolamento, frio intenso, trabalho pesado, alimentação mínima e condições sanitárias quase inexistentes elevavam as taxas de mortalidade entre os presos. Para se proteger da violência, alguns grupos de presos criaram códigos e leis internas que deram origem aos Vory v Zakone – a máfia russa. A quantidade de campos foi reduzida a partir de 1953, logo após a morte de Estaline. Porém, os campos de trabalho forçado para presos políticos duraram até os anos 90.

O tempo sem Cavaco



Alberto Gonçalves - OBSERVADOR

Há dias, Cavaco falou e não evitei certa saudade. Não é saudade do homem. É saudade de alguém, ou de alguma coisa, que não pertença à desgraceira que hoje temos.

A propósito do Grande Escândalo da semana passada, perguntei aos meus botões porque é que os novos censores se ofenderam tanto com os livrinhos “sexistas” da Porto Editora e não se ofendem com milhares de obras literárias de facto, facilmente condenáveis por “sexismo”, “racismo”, “xenofobia” “homofobia” ou qualquer outra calamidade equivalente. Dito de maneira diferente: a que título, em Portugal, os novos censores ignoram as inúmeras “discriminações” em Defoe ou Eliot, Twain ou Nabokov? Sensatos, os meus botões responderam: porque os novos censores nunca leram nada assim, e se leram não perceberam.
Na verdade, os novos censores exibiram vasta incapacidade em perceber os exactos livrinhos da “polémica”, conjuntos de exercícios e passatempos destinados a criancinhas de tenra idade. Conforme Ricardo Araújo Pereira mostrou no Governo Sombra, as edições “para o menino” e “para a menina” são rigorosamente iguais, excepto pelas ilustrações, assinadas por autoras diferentes. No meio das semelhanças, os novos censores lá conseguiram descobrir o rabisco de um labirinto cuja exigência era aparentemente maior na versão masculina do que na feminina. Alguns dos novos censores ainda estão a tentar sair de ambos.
Não estamos apenas no domínio da infantilidade: a coisa já roça a perturbação mental. Ao longo dos séculos, os partidários das repressões raramente se distinguiram pela inteligência. Os novos censores distinguem-se pela assustadora falta dela. Essa deficiência impele-os a farejar bibliotecas de creches, à cata de obras blasfemas para alimentar fogueiras. Ia acrescentar que é melhor isso do que andarem na droga. Mas a droga talvez envergonhe menos.
Naturalmente, o Grande Escândalo da semana passada não está totalmente desligado do Grande Escândalo desta: a “aula” de Cavaco Silva numa qualquer pândega do PSD. Cavaco falou e resmas de nulidades – grosso modo, as mesmas que exigiram e aplaudiram a recolha dos livrinhos – atropelaram-se para condenar o facto. Por definição, as nulidades não deviam importar. Cavaco importa um bocadinho e, hoje, não só um bocadinho. Durante os trinta anos em que influenciou o país, nunca me inspirou particular simpatia ou antipatia, e frequentemente dei por mim a tentar escolher se lhe preferia as óbvias virtudes ou se me repeliam as diversas limitações. Há dias, porém, Cavaco falou e não evitei certa saudade.
Não é saudade do homem. É saudade de alguém, ou de alguma coisa, que não pertença à desgraceira que hoje temos, por ironia e fraqueza consagrada no final da presidência anterior. E o principal mérito de Cavaco consistiu justamente em não “pertencer” – embora pertencesse mais do que ele gostaria e do que os seus devotos julgam. Não sendo o herói imaculado que estes imaginam, a comparação de Cavaco com os destroços vigentes eleva-o ao céu. Apesar dos obstáculos, próprios e alheios, acabou por se assemelhar a um estadista, emprestar à sua época uns vestígios de razoabilidade e, ocasionalmente, ajudar a fingir que isto é um lugar frequentável. As espantosas criaturas que, oficial e oficiosamente, agora distribuem ordens não merecem um adjectivo que caiba num jornal familiar. E os ansiosos escusam de vir lembrar os erros que Cavaco cometeu e os corruptos que Cavaco promoveu: por um lado, a incompetência e a corrupção são essenciais à política; por outro, não me interessa (e não preciso) argumentar que a “nomenclatura” actual é especialmente incompetente ou corrupta. Ou demasiado matarruana até para os padrões caseiros.
O nosso problema é a “nomenclatura” ser – desculpem o jargão técnico – doida varrida. No último ano e meio, sob as “notícias” amestradas do “milagre económico” e uma oposição muda ou cúmplice, desatou-se a transformar o país remendado e periférico da praxe num imenso seminário de actividades circenses. Deixo a cada um a tarefa de decidir quem são os malabaristas e os palhaços. Certo é que, em circunstâncias “normais”, o episódio dos livrinhos da Porto Editora não passaria de um interlúdio cómico. Nas circunstâncias presentes, é uma peça trágica, repleta de personagens inverosímeis e unidimensionais: os que, no ócio, inventaram um pretexto para se sentirem ultrajados; os que, nos “media” e nas “redes”, amplificaram o ultraje; os que, no governo, proibiram o ultraje. É claro que, no tempo de Cavaco, tais personagens já se contorciam por aí. A diferença é que, no tempo depois de Cavaco, as personagens mandam, e mandam sozinhas. Vale que o caldo de toleima, prepotência, fanatismo, ignorância e poder absoluto costuma correr bem, e tão bem para as meninas quanto para os meninos.

Nota de rodapé

Para quem não tenha habitado o planeta durante o último século, o caso da Autoeuropa é uma pertinente aula prática sobre os propósitos, os métodos e as consequências do socialismo “científico”. Há uma empresa multinacional relevante para as dimensões da economia nacional, viável há muitos anos e com um apreciável currículo de razoabilidade nas relações entre empregadores e empregados. Há uma proposta, ou decisão, para alargar o expediente aos sábados, com troca de folgas e aumento desproporcionado (no bom sentido) dos salários. Há um bando de preguiçosos daninhos, de facto serventuários do PCP, que toma aquilo de assalto e promove uma greve inédita. Há uma enxurrada de referências cínicas à “luta” e aos “direitos”, aos “piquetes” e à “paralisação”. Há a suspeita de que, não tarda, os donos da coisa cansam-se desta Venezuela à beira-Sado e vão produzir carrinhos em paragens menos folclóricas. Há a certeza de que, logo que os trabalhadores fiquem sem trabalho nem dinheiro (mas com sete dias livres por semana), a culpa será do capitalismo selvagem. Há esperança de que, sobre os escombros e a miséria, o PCP decrete a vitória das forças revolucionárias. Não há esperança de que isto sirva de lição.


JOÃO GALAMBA avisou José Sócrates


Cavaco Silva, a “força da realidade” e a “revolução socialista”



Rui Ramos - OBSERVADOR

A realidade, como explicou Cavaco Silva, acaba sempre por derrotar a ideologia. Mas a ideologia no poder, como estamos a ver em Portugal, também tem meios de minar e viciar a realidade.

O professor Cavaco Silva falou na Universidade de Verão do PSD, e vale a pena atentar no que disse , para além do que a nossa oligarquia preferiu comentar, incluindo os altos poderes do Estado. Basicamente, Cavaco Silva explicou como ele e a sua geração de políticos construíram na Europa um sistema internacional que previne “revoluções socialistas” e, portanto, anula o confronto ideológico entre “direita” e “esquerda”. É a essa construção que Cavaco Silva chamou “realidade”. Eis matéria para uma discussão muito importante.
O objectivo da conferência era ajudar os jovens, alheados da política, a distinguir entre o que é “falso” e o que é “verdadeiro”. O “falso”, por exemplo, teria sido a expectativa de que François Hollande em 2012 ou Alexis Tsipras em 2015 iriam erradicar a consolidação orçamental nos seus países. No fim, ambos tiveram de “pôr a ideologia na gaveta”. Porquê?
Porque na União Europeia depois de Maastricht, as políticas económicas de cada Estado membro são do interesse de todos, e coordenadas no Ecofin. A “revolução socialista” pressuporia a saída do Euro. Mas a saída do Euro é uma “loucura” de enormes custos, que nem Tsipras considerou seriamente. O único país capaz de sair do Euro seria a Alemanha, e mesmo a Alemanha tem fortes razões para não o fazer. No Euro, os países não precisam apenas de equilibrar as suas contas. Convém-lhes também ser competitivos, nomeadamente em termos fiscais, devido à circulação de capitais. Eis porque a “realidade acaba sempre por derrotar a ideologia”, e porque Tsipras executa pacotes de austeridade e o actual governo português faz “cativações”.
A primeira questão é esta: a “realidade” europeia de Cavaco Silva consubstancia uma opção política — a de uma democracia pluralista com uma economia social de mercado. Essa opção, porém, está hoje fixada num quadro europeu onde aparece como um constrangimento exterior à política, uma espécie de dado quase-natural. Daí a possibilidade de a opor a outras opções que, por contraste, seriam “ideológicas”. Mas daí, também, a possibilidade de partidos adeptos de uma “revolução” à venezuelana se introduzirem na área do poder, desde que com a cautela de respeitar as tecnicalidades europeias. Como se vê em Portugal.
Argumentarão alguns: mas neste contexto, esses partidos, quando no poder, estão condenados a farsas como a das “cativações”. Sim, mas não só. Podem também, como em Portugal, tentar minar instituições como o Conselho de Finanças Públicas, fazer leis à medida das suas guerras contra empresas privadas, como parece ir acontecer no caso da PT, ou tomar de assalto fábricas, como o PCP procura na Autoeuropa. Podem ainda mais: cultivar o clientelismo em grande escala, reduzindo a economia a uma questão de distribuição de dinheiro pelo Estado, em vez de criação de riqueza pelos cidadãos. Ora, tudo isto, neste momento, só é possível pelo oxigénio financeiro do BCE (e essa é outra razão porque a actual maioria nunca renunciará à moeda única), e pela sensação de segurança política gerada pela “Europa”.
Cavaco Silva lembrou que Portugal, depois de quase duas décadas no Euro, não é competitivo. Tem uma carga fiscal superior à da Espanha e à da média de todos os outros países da Europa do sul e do leste — uma carga fiscal que, como o ex-presidente explicou muito bem, significa retirar à sociedade recursos que o Estado não tem capacidade para valorizar. Mas é o enquadramento europeu que, hoje, perversamente viabiliza este estado de coisas. Ou seja: a União Europeia é fundamental, mas não basta. Porque se a “realidade” sempre, até agora, derrotou a “ideologia”, a “ideologia” no poder tem meios de minar e viciar a “realidade”.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

PCP continua com falta de pontaria


José Milhazes - OBSERVADOR

Lendo o programa da Festa do Avante! relativo ao centenário da Revolução Russa de 1917 quase se fica com a sensação de que se quis prestar homenagem às vítimas da censura comunista no campo da cultura.

A julgar pelo programa musical e cinematográfico da Festa do Avante! em honra do centenário da Revolução Russa de 1917, até se podia pensar que os organizadores quiseram prestar homenagem às vítimas da censura comunista no campo da cultura.
Lê-se no programa que que, “de imediato, parecia que era projecto a não criar grandes dificuldades”, mas “a Revolução Soviética gerou um período de fulgurante criatividade artística nos mais variados sectores a que música não foi alheia”.

No caso de Igor Stravinski (1882-1971), um dos compositores cujas obras estão no programa, isso é absolutamente falso, pois este grande compositor e pianista não aceitou o poder soviético e foi viver para França e, depois, para os Estados Unidos. A suite do bailado “Pássaro de Fogo”, que está programadapara a Festa do Avante!, foi de resto composta em 1910, sete anos antes do assalto ao poder pelos bolcheviques.
Quanto a Dmitri Schostakovitch trata-se de meias verdades, pois é do conhecimento geral que, tendo composto obras em honra de Lenine, foi dos compositores soviéticos mais perseguidos pela censura comunista.
Em 1934, quando a sua ópera “Lady Macbeth do Distrito de Mtzenski” estreou em Leninegrado, tornou-se logo alvo de ataques ferozes da imprensa comunista. Em 28 de Janeiro de 1936 o “Pravda”, órgão central do Partido Comunista da União Soviética, publicou mesmo um artigo com o título “Cacofonia no lugar de música”.
Mais tarde, em 1948, o Bureau Político do Partido Comunista fez sair um documento onde se acusava Schostakovitch, tal como outros compositores soviéticos, de “formalismo”, “decadência burguesa” e “submissão face ao Ocidente”. As coisas não ficaram por aqui, pois na época em que a cultura soviética foi dirigida pelo estalinista Andrei Jdanov, Schostakovitch foi acusado de “falta de profissionalismo” e viu ser-lhe retirado o grau de professor dos conservatórios de Moscovo e de Leninegrado.
Em 1948, o grande músico compôs o ciclo vocal “Da poesia popular hebraica”, que não ousou publicar devido à campanha anti-semita iniciada pelo ditador Estaline sob a capa da “luta contra o cosmopolitismo”. O seu primeiro concerto para violino também não foi publicado.
Já o seu filho, o maestro Maxim Schostakovitch, depois de uma digressão pela República Federal da Alemanha em 1981, decidiu não regressar à URSS e ir trabalhar para os Estados Unidos.
Segundo os organizadores da Festa, “com toda a justeza, havia que referir que, pese a brutal submissão czarista, o povo russo produziu de há muito soberbas criações musicais que constituíram a resposta humana do povo e das suas criações mesmo face à tirania. Dessa criatividade recebeu a Revolução de Outubro um inestimável património”.
Não há dúvida que a Revolução de Outubro recebeu “um inestimável património” no que respeita à cultura russa e de outros povos, mas muito dele foi destruído e proibido.
Exemplo disso são os nomes de alguns realizadores de cinema soviético cujos filmes serão exibidos nessa comemoração. É de resto do conhecimento geral os grandes problemas que Serguei Eiseinstein teve com Estaline ao filmar algumas das suas obras-primas, como, por exemplo, “Ivan, o Terrível”.
Já o realizador Dziga Vertov teve um destino ainda mais dramático. O autor daquele que é considerado um dos documentários mais famosos da história do cinema, “Homem da Câmara de Filmar” (1929), viu-se impedido de fazer novos documentários depois de 1946. Os dirigentes do cinema soviético deixaram de aceitar os seus guiões para novos filmes e, até à sua morte, apenas o autorizaram a realizar e montar “Crónicas do Dia”, que eram depois exibidas nas salas de cinema antes dos filmes de ficção.
E nem sequer Alexandre Dovjenko escapou à censura soviética, embora pedisse consultas e se correspondesse com o “maior especialista em cinema”, José Estaline. O seu filme “Schors” (1939) foi de resto filmado por ordem de Estaline e sob o acompanhamento do ditador. Porém, em 1943, Dovjenko, que era de origem ucraniana, escreve o guião “A Ucrânia em chamas”, mas não conseguiu produzir o filme porque o ditador soviético não gostou.
TERRA
A sua última obra, “Adeus, América!”, teve ainda um destino mais complicado. Baseando-se no livro de Annabelle Bucar, funcionária da Embaixada dos Estados Unidos em Moscovo e agente dos serviços secretos norte-americanos que decidiu desertar e ficar na URSS, Dovjenko tentou fazer uma obra de propaganda soviética, tendo para isso introduzido grandes transformações durante as filmagens e montagem. Mesmo assim o Kremlin mandou suspender os trabalhos quando a preparação chegou ao fim e o filme chegou ao espectador apenas em 1995.
A julgar pelo programa da festa dos comunistas portugueses, fica-se com a convicção de que o PCP em nada evoluiu e de que essa força política não compreendeu ainda que os tempos mudaram e as pessoas estão mais informadas. Só assim se compreende que continue a falsear a História.


Mais de uma centena na Antologia transmontana


Encerrada a lista definitiva dos autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana que irão fazer parte do elenco da Antologia da Casa Transmontana de Lisboa, a publicar no inicio do ano 2018, estamos em condições de afirmar que ultrapassou, em muito, as nossas expectativas iniciais. E a maioria dos objectivos colectivos foram conseguidos.
Neste momento, recebemos os trabalhos de 109 autores. Em rigor 110, contando com o texto dirigido aos Transmontanos e Durienses, redigido por sua Exª o Senhor Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Dos 35 concelhos que compõem a geografia abarcada pela Casa Transmontana desde a sua fundação, apenas não estão representados, até ao momento,  cinco (5) – coisa residual: Alijó, Boticas, Ribeira de Pena, Sabrosa (norte do Douro), e Tarouca (sul do Douro).
Todos os textos (enviados para a Casa Transmontana, ou para nós) serão publicados com a dignidade merecida, acompanhados das imagens que lhes foram anexadas, visualmente atraentes.
É hora de se iniciar a revisão dos mesmos para, em Outubro, se dar a conhecer a lista definitiva – neste espaço e no jornal da Casa Transmontana. Por duas razões:

1 – Uma dezena de autores/as, justificadamente (por doença, por exemplo, ou porque foram contactados tardiamente), entregarão os seus trabalhos fora de prazo;

2 - Não queremos, durante o mês de Setembro, misturar uma coisa decente com as aldrabices que aí virão daquele “Trio Odemira”, sobre “aumento de pensões” (!), “reposição de vencimentos” (?!), e por aí adiante, na campanha para as Autárquicas.

A devido tempo se agradecerá aos/às autores/as.
Bem Hajam!

Armando Palavras

Os que pensam só na barriga deles


Por. Costa Pereira    Portugal, minha terra

Chegou ao fim o mês de Agosto, em medição comparativa corresponde à  duração do mês de Março que nas tardes já se nota bem. Daqui a dias temos o Outono a bater-nos à  porta. Foi um Verão marcado por catástrofes de diversa ordem, com destaque para incêndios e incendiários que destruíram vidas e floresta. Depois as enxurradas para ajudar à catástrofe. Um Portugal onde só  desporto e o turismo vale alguma coisa, o resto é só miséria.
Em política tem sido uma pouca vergonha com os partidos a maldizerem uns dos outros quando a final à mesa ... se juntam todos. Só  o Zé, este sim, alinha porque não tem outra solução.
É tempo do povo, que dizem ser soberano, estar atento e nas próximas eleições provar que o está. Faço  votos que se não deixem influenciar pelas obras apressadas que só de 4 em 4 anos se fazem notar. Nem das promessas enganadoras feitas nessas ocasiões.
Entretanto vou passar uns dia à  terra da Sª. Merkel para ver as diferenças entre ela e o Sr. Costa e companhia... Mas entretanto tenho que prestar homenagem ao que foi um dos PM mais nobres de Portugal, ainda que muitos portugueses entendam que não. Os que pensam só na barriga deles.