no Público
4/9/2019
por Santana Castilho*
Não vejam nostalgia (embora por vezes vá parecer).
Vejam o galope (que a escrita não traduz) a que o meu cérebro põe o meu
coração, quando pensa no ano penoso que se inicia para tantos professores.
Poderia começar por recordar à sociedade
desinteressada pelos seus professores números apurados por Raquel Varela:
22.000 usam medicação em demasia; 85% manifestam sinais de despersonalização;
47,8% apresentam sintomas preocupantes de exaustão emocional; 91% consideram
que baixou o prestígio da profissão; 31% expressam desmotivação para ensinar;
85% referem que o Ministério da Educação não valoriza o seu trabalho; 80%
sentem que diminuiu a sua autonomia e o seu poder de decisão.
Poderia perguntar a todos os políticos, que se
aprestam a ir a votos, como conciliam a desconsideração e a exaustão assim
expressas com as promessas que sempre fazem.
Poderia detalhar o perfil profissional oculto dos que
deviam simplesmente ensinar e acabam psicólogos, assistentes sociais,
funcionários administrativos, instrutores de processos disciplinares,
mediadores parentais, vigilantes de recreios, socorristas e tudo o mais que um
escabroso assédio laboral e moral lhes despeja em cima.
Poderia referir-me aos pequenos monstros saudosistas e
populistas, que odeiam os professores e que vão saindo detrás das pedras onde
se acocoraram há 45 anos.
Poderia falar de António Costa, para quem professor é
“capital humano” que se arruma ano a ano, e do seu bem-sucedido esforço para
limitar o direito à greve de várias classes profissionais, que teve nos
professores o primeiro ensaio, num processo onde se ameaçou, impôs e proibiu,
com artimanhas para causar medo e desmobilizar, tudo com a conivência de uma
sociedade que se deixou manipular e virar contra aqueles a quem entrega os
filhos durante mais tempo do que passa com eles.
Poderia citar o aumento do centralismo do Estado,
promovido por um ministério que planta plataformas informáticas a eito, para
vigiar e impor uma estranha quanto pérfida autonomia pedagógica.
Poderia dissertar sobre as decisões cruciais que têm
vindo a ser tomadas por políticos pedagogistas, adolescentes e caprichosos, que
dominam uma classe proletarizada, anestesiada e entretida com doutrinas que se
sobrepõem facilmente à razão profunda.
Poderia narrar o trabalho obrigatório a que os
professores estão sujeitos para decifrar e cumprir torrentes de solicitações
asfixiantes, sob nomes pomposamente modernos mas substantivamente inúteis.
Poderia recordar os insultos e as agressões a que
alguns pais e alunos sujeitam os professores, a coberto da passividade
protectora do bom nome das instituições.
Poderia trazer-vos às lágrimas contando histórias (que
um dia escreverei se sobreviver aos seus protagonistas) de professores-heróis
que, generosa e silenciosamente, arrancaram pedaços de si para resgatar alunos
perdidos por intermináveis desamparos de pais e do Estado.
Poderia traçar-vos perfis diferentes de tantos
professores com quem me cruzei ao longo da vida: o professor-filósofo, o
professor-mestre, o professor-rebelde, todos professores-professores,
caracterizados pelo amor aos seus alunos.
Poderia, para homenagear todos, vivos e mortos, meus e
de todos, evocar dois dos meus professores, já falecidos: ele,
professor-família, que foi o primeiro de tantos que me ensinaram a ser
professor; ela, professora-amor proibido, que transformou a minha adolescência,
fadada para ser pobremente limitada, numa adolescência vivida sem limites.
Poderia perguntar-vos, olhos nos olhos e de coração
apertado, que outros profissionais partem todos os anos para longe dos próprios
filhos, para cuidar dos filhos dos outros, por pouco mais de mil euros de
salário.
Este condicional repetido foi tão-só a figura retórica
que me ocorreu para dizer a quem me ler porque abraço hoje, estreitamente,
todos os professores que, pelo país fora e por estes dias, vão acolhendo com abraços
as crianças e os jovens que retornam às escolas.
Dito isto, queridos professores, levantem-se do chão.
Retomem a independência intelectual necessária para impedir que o acto
pedagógico se transforme em prática administrativa ou obediência doutrinária e
não confundam a verdadeira autonomia com uma dissimulada ditadura de
metodologias, por mais “activas”, “democráticas” ou “de projecto” que se digam.
*Professor do ensino superior
Publicada por AL



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