domingo, 30 de junho de 2019

GRECO situa Portugal em último lugar no combate contra a corrupção


Portugal, el país de Europa que menos lucha contra la corrupción
ELMUNDO.ES
Portugal, el país de Europa que menos lucha contra la corrupción

“El informe del GRECO sitúa a Portugal en el último puesto de la lista de países que aún no han aplicado las medidas contra el fraude que el organismo recomienda desde hace años; el país vecino está detrás de países como Turquía, Serbia, Rumanía y Croacia en la lucha contra la corrupción. A día de hoy, el Estado luso es uno de los apenas 13 que todavía no ha ratificado la Convención sobre la Corrupción y la Ley Criminal, convenio clave para la lucha contra este tipo de crimen.
El organismo del CE señala que el suspenso luso se debe al hecho de que el Estado portugués no ha implementado ninguna de las recomendaciones formuladas para prevenir la corrupción política, y el hecho de que, en el mejor de los casos, la implementación del 93% de las medidas recomendadas ha sido sólo parcial”.

In: El Mundo - 25 de Junho XIX


Esta não é uma crónica sobre o prédio Coutinho



Alberto Gonçalves -  OBSERVADOR
Portugal para os portugueses. Nenhum estrangeiro mentalmente equilibrado aguentaria isto mais do que um fim-de-semana. A apatia perante os selvagens que mandam no país não é para todos os paladares.

Tomem lá uma anedota para descontrair. Conhecem a do cigano, do cavalo e da deputada municipal do PAN na Moita? É gira: a senhora do PAN criticou os maus-tratos dispensados aos cavalos por parte dos ciganos da região. A assembleia acusou a senhora de “xenofobia”. O PAN forçou-a a demitir-se. Os ciganos continuam a sobrecarregar os cavalos de trabalho e pancada. Os cavalos continuam a sofrer. O PAN continua a ser o partido que defende os bichos. E, desde que inspire uma boa indignação, a xenofobia tem costas largas.
Parecendo que não, até por causa do significado das palavras e doutras minudências, sempre é preferível que a xenofobia diga respeito à aversão a estrangeiros, e que os crimes não se castiguem ou perdoem de acordo com a “etnia” dos perpetradores. Os crimes variam. Os estrangeiros são os do costume. Chegam aí exaustos, desorientados, vindos de lugares remotos, exprimem-se em línguas diferentes, vestem roupas esquisitas, exibem costumes estranhos, interpelam transeuntes com pedidos inconvenientes, atafulham ruas e pracetas, vêem-se frequentemente explorados por gente sem escrúpulos e, de brinde, acabam insultados onde calha. Falo, é claro, dos turistas.
Há dias, a propósito do São João no Porto, o “Público” publicou um artigo acerca do São João no Porto. É um artigo preguiçoso e mal escrito, sem função ou tema, que se resume a meia dúzia de depoimentos de feirantes em volta das vendas e da “tradição”. Entre os feirantes, um vendedor de “pipocas vermelho garrido” queixa-se das modernices e, em particular, do turismo. O “Público” aproveitou a deixa e elevou o drama a título: “O São João do Porto já não é o que era? ‘Há turistas a mais’”.
Não importa que deixem dinheiro. Não importa que criem emprego. Não importa que façam a exacta figura que fazemos quando visitamos os países deles. Para boa parte da esquerda, uns pedaços da “direita” e inúmeros indecisos, os turistas constituem uma praga atentatória da “vida portuguesa”, a erradicar com urgência. Além disso, promovem um milagre: em tempos de ofensa fácil e vigilância apertada, os turistas concedem-nos a liberdade de ofender forasteiros com uma violência que o PNR não ousaria dedicar a refugiados sírios. E, ao contrário do que agora é moda, sem aborrecimentos profissionais, morais ou legais. Para cúmulo, o ódio aos turistas encontra um alvo, ou cinco, literalmente em cada esquina, enquanto o ódio do PNR a refugiados e afins se vê à rasca para descobrir destinatários (excepto, talvez, nos aeroportos, a caminho da Europa que lhes interessa). Aliás, convém evitar quaisquer confusões com sentimentos de intolerância: se o sr. Trump não permite que as populações integrais da Guatemala, El Salvador, Nicarágua e México penetrem confortavelmente o Texas, o sr. Trump é fascista. Se desejarmos enxotar 17 alemães do Chiado, somos patriotas. Em suma, descontados os que chegam na penúria, que servem a demagogia e o escarcéu, os estrangeiros são essencialmente desprezíveis e, em prol da higiene pública, reclamam a acção das autoridades.
A boa notícia é que as autoridades já começaram a agir. Na pequena escala, multiplicam as taxas, as taxinhas, os regulamentos, as restrições, as coimas e o geral inferno burocrático que, grão a grão, transformam as actividades ligadas ao turismo em suplícios que indivíduo algum suportará. Ao nível “macro” (perdão), temos os benefícios fiscais ou os 6500 euros que o Estado oferece aos emigrantes que regressem à terrinha e contribuam para diluir a sujidade turística e afinar a pureza da “portugalidade”. Apenas se estranha um pouco que, dado o fulgurante sucesso económico dos drs. Costa e Centeno, os emigrantes necessitem de incentivo material para voltar aqui. A acreditar nos peritos amestrados do governo, a pujança de Portugal é tanta que os outrora foragidos da “troika” deviam esgadanhar-se para alcançar Vilar Formoso. Pelos vistos, não se esgadanham. E nem os incentivos convencem esses traidores.
Felizmente, há excepções. Decerto desiludido com a fraca resposta dos emigrantes indiferenciados, o governo passou a apostar no regresso dos especializados. Em particular, os funcionários do Estado Islâmico. É uma ideia radiosa, a de recuperar “jihadistas” em fase indefinida das respectivas carreiras. Trata-se de trabalhadores altamente motivados, assíduos e dotados de competências raras nos sectores dos rebentamentos e das decapitações. É verdade que não são muitos. Mas são muito empenhados e propensos a provocar impacto junto dos que os rodeiam. Um único terrorista (certificado) é capaz de, sozinho, eliminar directamente dezenas de turistas e indirectamente afugentar milhares.
Portugal para os portugueses, pois – mesmo porque nenhum estrangeiro mentalmente equilibrado aguentaria isto mais do que um fim-de-semana. A apatia perante os selvagens que mandam no país não é para todos os paladares. O que está a acontecer no prédio Coutinho, que deliberadamente não invoquei para não chamar os selvagens pelo seu autêntico nome, é um reles, bastante reles, exemplo do que acontece diária, impune e discretamente entre o poder e um povo que se quer orgulhosamente só. É uma sorte: um povo assim orgulhoso de enxovalhos seria péssima companhia.

Timor – uma história de amizade e de missionação

Dom Ximenes Belo, Dr. Hirondino Isaías (presidente da CTMAD de LISBOA) e Professor Doutor Adriano Moreira

Na passada Quinta-feira, a sede da agremiação transmontana sediada em Lisboa, foi palco de memorável evento cultural: o lançamento público do livro “Missionários Transmontanos em Timor-Leste”, de autoria do Bispo de Timor, também prémio Nobel da Paz em 1996.
O evento juntou duas personalidades singulares – Dom Ximenes Belo, autor do volume, e o Professor Doutor Adriano Moreira que o apresentou ao público Transmontano e ao público Timorense que aí acorreu em grande número.
Tivemos o privilégio, o prazer e a honra de participar no volume com singelo texto a modos de prefácio que segue:


“Portugal e Timor. Um numa ponta do Ocidente. O outro, na outra do Oriente. Se a distância os separa, une-os a amizade. Antiga, velha de séculos.

“A obra da missionação de Timor-Leste começou no longínquo ano de 1556, quando um frade dominicano de nome António Taveira (ou Taveiro) baptizou mais de cinco pessoas na ilha de Timor e em Ende (Flores, Indonésia)”, retira-se da introdução. Na verdade, o contacto entre Portugueses e Timorenses são remotos. Se o descobrimento de Timor é incerto, a ilha já figura, em 1512, nos mapas do piloto-cartógrafo Francisco Rodrigues. E em 1514, as cartas de Rui de Brito fazem-lhe referência.
Quando os Portuguese chegaram a Timor, as comunidades estavam organizadas em chefatura hierarquizadas, com religião animista e sem conhecerem a escrita. Falavam duas dezenas de línguas e estavam repartidas em quatro dezenas de reinos, agrupados em duas confederações: a do Servião, a Oeste, encabeçada pelo régulo de Senobai, e a dos Belos, a Leste, dominada por uma aristocracia militar de língua teto, chefiada pelo régulo de Bé-Hali.
Quando em 1511, os Portugueses, com a conquista de Malaca, passaram a dominar o comércio externo timorense, inicia-se a primeira fase da presença portuguesa em Timor, no período que medeia entre 1514/1556. Nesta primeira fase, a presença portuguesa em Timor, limitou -se, periodicamente, ao comércio do sândalo, e a visitas esporádicas. E é a partir deste período que essa presença se faz sentir durante c. de 450 anos, por mais três fases.
A segunda fase tem início com a acção do franciscano frei António Taveira, estendendo-se entre 1556 e 1703. Foi o início da missionação. Instalados inicialmente na ilha de Solor, os missionários, poucos anos depois, ocuparam a ilha de Timor, convertendo os chefes e o seu povo ao Cristianismo. Mena, no Servião, foi o primeiro reino a converter-se. Em 1590 já lá havia uma igreja. Até 1834 as missões de Solor e Timor estiveram sob a tutela dos Dominicanos. Não é por acaso que o brasão do Timor português incluía ao lado das quinas a cruz de São Domingos. É com frei Cristóvão Rangel (c. 1633) e frei António de São Jacinto (c. 1639) que a religião católica aí cria raízes definitivas. Por esta altura são fundadas algumas escolas e três seminários: o primeiro, ainda em pleno século XVI, em Solor, os outros dois em Timor – um no Servião (Oé-Cussi) e o outro nos Belos (Manatuto).
Aos ataques dos Holandeses Calvinistas (1595), dos Buguizes e Macáçares de Celebes islamizados, a partir de 1603, os missionários ergueram um forte em Solor, cujo comando confiaram a uma “dinastia de capitães” (fidalgos portugueses de origem goesa) que, mais tarde, se deixou corromper.
Por pressão dos missionários, comerciantes de sândalo e alguns régulos cristãos, declarados vassalos do Rei de Portugal, inicia-se a terceira fase (1703-1894) de influência portuguesa, com a nomeação de um governador para Timor, que passa a ser um protetorado português de estrutura federal. A hierarquia feudal nativa é integrada na hierarquia militar portuguesa; a bandeira portuguesa, transformada num Totem colectivo da comunidade luso-timorense, torna-se objecto de culto. O Catolicismo e a língua portuguesa tornam-se factores poderosos de união e integração social – e de diferenciação em relação aos povos circunvizinhos. É, contudo, um período de agitação interna e a investida dos Holandeses no Servião, obriga à transferência da capital para Díli (1769). O fervor missionário cai a pique entre 1704 e 1811. E com a extinção das ordens religiosas em 1834, as missões de Timor ficaram sob a tutela dos sacerdotes seculares goeses.
A partir de 1877, as missões religiosas foram reestruturadas pelo padre Medeiros, futuro bispo de Macau. Trouxe para a ilha irmãs canossianas, construiu igrejas, abriu escolas, introduziu várias plantas uteis, e o gado vacum de raça holandesa.
Com o governador Celestino da Silva (1894-1908), abre-se a quarta fase da influência portuguesa nesta área do Pacifico. Leva a cabo grandes campanhas de pacificação com a ajuda de tropas de reinos fiéis, entre as quais se destacam os Leais Moradores de Manatuto, recrutados na região mais cristianizada de Timor. Ao mesmo tempo implantou-se a economia de plantação, sobretudo de café.
Em 1898, na Soibada, os jesuítas abriram um colégio destinado à formação de professores catequistas, o principal veículo de alfabetização, cristianização e transmissão da cultura portuguesa nos meios rurais. Permaneceu até 1974 o alfobre da elite de letrados nativos.
Até 1974 a soberania portuguesa não sofreu nenhuma contestação interna. Os laços de amizade ultrapassaram, durante séculos, pequenas desavenças de personalidade. Quão melhor exemplo se pode chamar à liça, do que aquele protagonizado pelos régulos Dom Aleixo e Dom Jeremias, durante a ocupação japonesa de 1942-1945, que pagaram com a vida a fidelidade à bandeira portuguesa?
É, pois, desta amizade que trata o volume que têm em mãos. Amizade de povos, de gente, de irmãos. É ainda a história destes missionários Transmontanos aqui contada pela mão mestra de Dom Ximenes Belo, que ainda antes (1876-77) da quarta fase de influência portuguesa, “trabalharam nas Missões Católicas de Timor-Leste (antigo Timor Português)”, distinguindo-se em várias vertentes sociais e culturais.
Após um interregno de quatro décadas, consequência do decreto de 1834, exarado por António Joaquim de Aguiar, que suprimia as ordens religiosas no território ultramarino, as missões de Timor foram integradas na Diocese de Macau. São então enviados para Timor, em 1877, sete sacerdotes, cuja lista é encabeçada pelo transmontano (flaviense) António Joaquim Medeiros, mais tarde nomeado Bispo de Macau e de Timor. Ao deixarem o seu torrão natal, no extremo transmontano dos dois distritos (Vila Real e Bragança), “fizeram de Timor a terra de eleição”, onde, além “da ação evangelizadora, os missionários ensinaram aos alunos timorenses noções de agricultura e de pecuária, trabalhos de “artes e ofícios”. O padre Basílio de Sá, em Baucau, ensinou os seus alunos a virar a terra, a plantar e regar os feijões, etc. E o padre Alberto da Ressurreição Gonçalves, missionário em Ainaro/Suro, desenvolveu a agricultura, introduzindo a charrua. Outros incentivaram a abertura de hortas de milho e de campos de arroz e a plantação de café, coqueiros, bananeiras, laranjeiras, nos terrenos da Missão. Outros houve que se notabilizaram na escrita, concretamente, o Bispo Dom António Joaquim de Medeiros, que publicou alguns livros, padre Artur Basílio de Sá e o padre José João de Andrade.
Timor é isto. Uma ligação enorme a Portugal, e à sua província mais periférica: Trás-os-Montes”.

Oeiras, 14 de Setembro, XVIII

Armando Palavras

sábado, 29 de junho de 2019

IX ENCONTRO DE ESCRITORES E JORNALISTAS DO ALTO TÂMEGA, BARROSO E GALIZA



IX ENCONTRO DE ESCRITORES E JORNALISTAS DO ALTO TÂMEGA, BARROSO E GALIZA
LOCAL – BIBLIOTECA MUNICIPAL DE CHAVES
DIA 13 de JULHO de 2019
Organizado pelo Fórum Galaico-Transmontano.

PROGRAMA

09:00 h – Abertura dos trabalhos.
9:15 H - Intervenções: Presidente da Direcção do Fórum.
                                      Representante da Câmara Municipal de Chaves.


PALESTRANTES



9:30 H - Dr. Jorge José Alves Ferreira - «Judeus, cristãos novos e marranos no Alto Tâmega».
Barroso da Fonte10:15 H – Dra. Maria Manuela Pereira Tender - «Os transmontanismos como depositários dos valores e da cultura da região de Trás-os-Montes.»
10:30 H – Dra. Nídia da Cunha - «Eurocidade Chaves-Verín, dois países, um destino.»

11:05 H – Intervalo – PORTO DE HONRA.

11:45 H – Dr. João Barroso da Fonte - «Crónicas de crónica feminina.»
12:30 H -  Paulo Chaves - «Os desafios da WEB na imprensa local.»
13:00 H -Encerramento dos trabalhos.
13:30 H – Almoço.
15:30 H– Visita ao Museu da Região Flaviense.

Prazo de inscrição para o almoço – Até 6 de Julho de 2019. Valor do almoço por pessoa- 12,50 €.
Contactar: Luís Dias Carvalho – 967118617 e Luís Bento do Nascimento - 963091651

De Acácio e de louco, todos temos um pouco


ANTÓNIO  MAGALHÂES
(em Sheffield)

A saúde mental é real e pode afetar qualquer um de nós a qualquer altura da nossa vida. A seriedade da doença exige a total atenção e tratamento a quem dela sofre, ou venha a sofrer, e acima de tudo o respeito e compaixão, mesmo por aqueles menos afortunados, sem família e bons amigos, por vezes a deambular em solidão e desprezo, ao acaso pelas ruas do abandono…
Chamo-lhe Acácio, como lhe poderia chamar António, ou Fernando, ou Mário, Diogo, Raul, Anacleto, porque afinal de contas de poeta e de louco todos temos um pouco.
Ficamos, portanto, pelo nome Acácio, protegendo a sua identidade ao multiplicar o nome por dezenas, centenas de Acácios…
Os mais ignorantes e menos sensíveis, leigos nos efeitos e consequências que por vezes certas palavras, proferidas em determinado contexto, poderão ser mais afiadas e profundas do que o bisturi na sala de operações, chamavam-lhe “Tolinho”, expressão que nunca me agradou pelo que de desprezo, falta de respeito e compreensão que ela deixa transparecer ao ser proferida, em relação a quem sofre de um problema mental, incute, só porque é pelas mais diversas razões, visível às ações e atitudes do dia a dia da pessoa que sofre do problema.
O Acácio tinha família. Pai, mãe. Gente humilde, gente boa, com muito pouca instrução escolar, que fez o melhor que pôde para educar o filho que, “Olhe, é muito trabalhador sabe…? Mas é levezinho da cabeça.” E isto palavras da mãe, coitada, conformada ao completo insucesso escolar do filho, às suas constantes crises psicológicas, à sua falta de atenção e capacidade para resolver simples tarefas do dia a dia, conformando-se desde muito cedo à realidade do filho e da sua condição, incluindo sempre nas suas orações um pedido muito especial a Deus, que no fundo não difere muito da lista dos pedidos que a maior parte dos crentes mais solicita ao Criador e que é a saúde, tendo cada um a sua razão para tal pedido, mas no caso da mãe do Acácio, “Olhe senhor, saúdinha é o que eu peço a Deus nosso senhor, pra mor de olhar por ele até aos fins dos meus dias”.
Acácio era apesar de tudo independente. Ou seja, trabalhava, comia e bebia, não se relacionava com amigos, apenas com os colegas de trabalho que a maior parte das vezes, ou tiravam proveito das suas capacidades limitadas em relação a certos trabalhos, ou durante esses mesmos trabalhos aproveitavam para gozar com ele, para se divertirem à sua pala.
Acácio trabalhava na construção civil, “Sou trolha, e um bô trolha,” afirmava muitas vezes, mesmo sem lhe perguntarem. “Bô trolha? Cabrão que nem um traço de massa em condições sabes fazer.”
Mas era ele que a maioria das vezes o fazia, e era ele que transportava os baldes carregados de massa para os outros trolhas fazerem o seu trabalho entre pausas para o cigarro e a cerveja.
O Acácio tinha também algumas manias das quais não abdicava. Falo de acontecimentos com mais de quarenta anos. Nessa altura nem sequer se sonhava com o euro. Imperava no nosso país o escudo. Acácio não aceitava outra forma de pagamento que não fosse feita em notas de vinte escudos. Um dia o meu pai, que tinha que lhe fazer um pagamento de três mil escudos, entregou-lhe três notas de mil escudos cada.
“Ó San-Tónio, tem que me pagar com notas de vinte mil-réis”
“Notas de vinte mil-réis não tenho que chegue”
“Ai isso eu num sei…só arrecebo com notas de vinte mil-réis…”
E bem que se podia ficar ali uma vida inteira que o Acácio não mudava nem de discurso nem de opinião. Percebendo isso o meu pai lá se desfazia em trabalhos para arranjar as cento e cinquenta notas de vinte escudos para perfazer os três mil escudos.
Toda a gente tinha uma teoria diferente acerca desta mania do Acácio uma vez que ele não explicava a razão da sua exigência. Queria o pagamento em notas de vinte mil-réis (vinte escudos) e o resto não tinha sequer conversa. Uns afirmavam que tinha uma predileção especial pelo S. António, que era o santo que figurava num dos lados das notas de vinte escudos, depois os menos pacientes, diziam que era louco, o que me parecia uma expressão menos rude e menos desprezível do que tolinho, pelo menos mais poética, e nós, a família Magalhães, baseávamo-nos na nossa teoria do volume. Apesar de tudo o Acácio era um trabalhador árduo, não só porque lhe impingiam os trabalhos mais árduos, mas também porque os fazia sem contestar, sem mau feitio, com uma simplicidade que só os humildes são capazes de possuir. Tira-se vantagem disso, infelizmente.
Por isso, porque trabalhava arduamente, não lhe parecia justo que o seu pagamento fosse feito com apenas três notas. Agora, cento e cinquenta…isso já é outra música. E ele queria lá saber se o valor era o mesmo. Os olhos também comem…
Além das suas manias, como qualquer outra pessoa, o Acácio tinha os seus dias melhores e os seus dias piores. Normalmente os seus dias melhores acabavam por ser os dias piores de quem o rodeava.
Num desses dias, enquanto alguns colegas seus de trabalho se entretinham num jogo de cartas, na tasca do meu pai, aproveitando a hora de almoço, o Acácio saiu-se com uma ladainha que parecia não ter fim. Como ninguém sabia muito bem a que propósito vinha a conversa, cedo o Acácio começou a aborrecer os homens da jogatina. Quase que lhe foi implorado que se calasse, que desse um minutinho de sossego. Mas quanto mais se lhe implorava pelo sossego mais ele argumentava, embora ninguém soubesse muito bem ao que se referia. Um dos jogadores das cartas, daqueles que eram capazes de fumar um cigarro do princípio ao fim sem sequer lhe tocar com a ponta de um dedo, exímios fumadores com engenho e arte suficiente para, no decurso da habilidade, em certos momentos executarem uma pirueta com o cigarro na boca, sempre de mãos enamoradas com o baralho das cartas e um olhar concentradíssimo e ao mesmo tempo atento, usando apenas os lábios e a ponta da língua, dando voltas na boca até que o cigarro se extinguisse, ainda rosnou entre dentes, “Tás aqui estás-me a levar um cachaço,” ameaça que não funcionava pois o Acácio continuava o seu zunzum, ora gesticulando, ora rindo em pequenas gargalhadas, mas sempre sem se calar.
O meu pai sabia que em pessoas como o Acácio quanto mais as contrariar mais se obtém o oposto do que se pretende. Por isso fez-lhe uma proposta.
“Se estiveres calado durante cinco minutos, levas para casa um dos burros que estão lá fora”
Para se certificar a que burros o meu pai se referia, o Acácio foi até à porta e espreitou para a rua. Deve ter pensado que os únicos burros ali no momento, estavam a jogar às cartas. Mas deparou-se com os burros do moleiro, que nesse dia viera entregar uma encomenda de farinha à loja dos meus pais.
“Ó San-Tónio, dá-me mesmo um burro…!?”
“Dou, tens é que estar calado durante cinco minutos. Nem uma palavra.”
Entusiasmado o Acácio aceitou o desafio.
A paz voltava, mas nem por isso os jogadores das cartas se concentravam mais no jogo uma vez que estavam mais interessados no resultado desse desafio. De vez em quando desviavam os olhos por cima do baralho, para olharem o Acácio que deve ter tido os piores cinco minutos da sua vida. Percebia-se pelos constantes suspiros profundos que deixava escapar constantemente, a agitação do corpo, na cadeira onde se sentara, e até numas pequenas gotas de suor que se lhe começavam a desenhar na testa.
Na reta final de ganhar o seu burro, (e eu a pensar, como iria o meu pai descalçar aquela bota) nos últimos segundos, pouco mais de vinte talvez, o Acácio levantou-se da cadeira, chegou-se perto do meu pai e sussurrou-lhe no ouvido, “Olhe lá, ó San-Tónio, e vossemecê também me dá a albarda?”
O meu pai atirou-lhe com uma gargalhada, tão caracteristicamente sua, ouço-a no momento em que escrevo estas letras, apesar de ter uns dez ou onze anos nessa altura. Mas aquela gargalhada pareceu-me mais uma explosão de alívio do que outra coisa.
“Ora porra, porra, Acácio, nos últimos segundos da aposta... Já perdeste o burro…”
E para surpresa minha, o Acácio nem contestou. Disse apenas,
“Támen num tinha onde por o burro”
O que me pareceu uma maneira bastante subtil de se desculpar a si mesmo pela sua derrota que quase era uma vitória. Mas há pessoas assim. Quase que ganham, quase que chegam lá, quase que conseguem… Numa corrida, quase que ganham. Às vezes serve-lhes de consolo ter chegado em segundo lugar, mesmo que se venha a verificar depois, que afinal, a corrida só tinha dois atletas.
Mas do que mais me lembro do Acácio. Tem haver com uma tábua. Cerca de 60cm de comprimento por 20 de largura. E como já lá vão para mais de quarenta anos desde estes acontecimentos, é muito provável que as dimensões da tábua andassem longe destas medidas, mas com centímetros a mais ou a menos, era uma tábua, tábua essa que me ficou na memória até aos dias de hoje, e para isso muito contribuiu o facto de ter levado com ela na cabeça.
Era um daqueles meus melhores dias, que tal como o Acácio, nem sempre eram os melhores dias de quem se cruzasse no meu caminho.
Os trabalhadores com quem o Acácio trabalhava, faziam obras de reparo e restauro numa casa perto de onde eu morava. Quando eu vinha da escola gostava de me aproximar deles e vê-los trabalhar. Até porque eram clientes da loja dos meus pais e por isso sentia-me à vontade pela confiança que com todos tinha. Mas nesse dia em particular, nenhum deles achava piada às minha irritantes brincadeiras. Coisas de moço.
Enervados, levados quase ao limite, avisaram por várias vezes que me fosse embora, que os deixasse em paz, que os deixasse trabalhar. Tal como o Acácio, também eu tinha alturas que quanto mais me avisassem que não devia fazer, era quando eu mais fazia. Por isso fiquei por ali, chato como uma mosca que enxotada mil vezes, mil vezes dá uma pequena volta no ar até pousar no mesmo sítio novamente.
Talvez influenciado pelos outros, o Acácio começou a ficar com os azeites.
“Vai-te embora moço…”
Reforçado por um outro colega de trabalho que acrescentou,
“Tás aqui tás-me a levar com a talocha nas fuças.”
E como ao dizer isto bateu com um pé no chão, como se fosse desatar a correr atrás de mim, eu fugi, mas apenas o suficiente para que não ficasse logo ali à mão de semear. Cerca de uns vinte metros, ou pelo menos a minha perceção de criança com cerca de dez ou onze anos, em relação ao que era nessa altura uma distância de vinte metros para mim.
Fiquei ali parado na ponta do quintal, mesmo na beira do muro que o separava da estrada, quintal esse que tinha cerca de um metro e meio acima do nível da estrada. Como o trolha apenas tinha simulado a corrida, não avancei mais. Não me apetecia nada saltar abaixo do muro, e por isso ali fiquei, a azucrinar-lhes a cabeça.
Já farto, o Acácio apoiou as duas mãos no cabo da enxada que utilizava para fazer um traço de massa, fuzilou-me com os olhos, e grunhiu,
“Raios parta o moço. Temos que o enxotar daqui.”
E sem mais delongas olhou à sua volta até apanhar a tábua da qual já apresentamos aqui as suas dimensões, muito embora sem certezas absolutas, dado o tempo que nos separa dos acontecimentos.
Confesso que nunca acreditei que ao ser lançada a tábua pelas mãos do Acácio, ela me fosse atingir, por isso, deixei-me estar onde estava, sem me mexer. Depois de arremessada, a tábua subiu um pouco, a meio do caminho começou a descer, enquanto que eu, estático, seguia o seu trajeto. À mediada que a tábua se aproximava, numa espécie de rodopios largos, assobiando enquanto ia cortando o vento à sua passagem, comecei a duvidar da falta de pontaria do Acácio. Mesmo assim não me mexi. Fiquei apenas incrédulo, a seguir a tábua, de olhar fixo.
Quando tive certezas de que sim, que iria levar em cheio com a tábua na cabeça, era já tarde de mais para poder escapar. Por isso, levei com ela, ficando uns escassos segundos a balouçar na ponta do muro, até que caí para o lado da estrada. Foi mais o aparato do que outra coisa. Não me magoei por aí além, não parti a cabeça, apenas um pequeno galo, que de tão pequeno nem forças tinha para cantar.
Quanto aos trolhas, que presenciavam o sucedido, riram-se à brava. Foi bem provavelmente, para cada um deles, a melhor parte do seu dia.
Mas o Acácio não se riu. Ficou especado por momentos, também ele incrédulo com o sucedido, até que disse,
“Caraxo, se lhe quisesse acertar não acertava…”
O que me fez ver que a intenção do Acácio não tinha sido maldosa.
Acácio, Acácio, quase que ganhas, acertas quando não queres acertar, falhas quando queres acertar. Aqueles que diziam que eras tolinho, são em tudo tão iguais a ti, e tu tão igual a todo o mundo.
Mesmo assim gosto de pensar que eras apenas um louco. Quem não o é?

Nota do autor: Todos os factos desta história são verdadeiros, mas alguns deles foram misturados no seu contexto, na intenção de proteger o Acácio, que afinal de contas não era Acácio nenhum, muito embora a pessoa aqui descrita tenha existido (não faço ideia se continua viva) A intenção do texto é a de chamar a atenção para o problema da saúde mental, de uma forma séria e divertida ao mesmo tempo e para o respeito por quem dela sofre. Qualquer um de nós, quem sabe, num ou noutro momento da nossa vida.
António Magalhães   

Uma vergonha Nacional

Por: Costa Pereira Portugal, minha terra    

Enquanto for permitido que no desporto se façam aquisições de jogadores, como agora João Félix, Ronaldos, Messis e outros dos notáveis, a corrupção não pode acabar! Mas ela interessa a muito “boa gente” que na política, nos negócios, na economia, nos grandes escritórios jurídicos, e até na governação, se servem dessa “moléstia social” para dela tirarem proveitos. Os jornais dão diariamente noticia disso, e quem anda na rua não precisa, porque se apercebe com naturalidade. Dá impressão que desde que o Doutor Passos Coelho deixou de governar, o país perdeu o leme e ficou sem controle, ninguém manda e todos sacam o que podem. A polícia prende, o juiz solta, MP, acusa, logo juiz rejeita. Teimosias, que entre partes até dão jeito.
Quem não vai na conversa são os sindicatos que fartos de ser enganados ainda são os únicos que fazem frente a um governo sem rei, nem roca. Já nem Marcelo consegue dar a volta ao aluno que tanto tem defendido, não sei com proveito. Está mau e certamente vai piorar pois as greves mantêm-se com carga forte nas ligações com a margem sul do Tejo, o dormitório da maioria de quem trabalha em Lisboa. Mas também os Enfermeiros, os Delegados do Ministério Publico, a Polícia, só faltam mesmo, os Militares, o que não falará muito, pois a crise também já começou a bater à porta do HML, suponho que lhe querem cortar a luz e a água, por falta de pagamento. Uma Vergonha Nacional.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Glossário etnográfico de José Veríssimo

Nascer da Terra (Earthrise) é o nome dado à fotografia AS8-14-2383HR da NASA tirada por William Anders durante a missão Apollo 8 à Lua, em 24 de Dezembro de 1968, com 75 h 49 m de tempo de missão decorrido (cerca das 16 h 40 m UTC). Nela, a Terra surge parcialmente na sombra, vendo-se em primeiro plano a superfície lunar, ao jeito de um nascer do sol. A Apollo 8 não aterrou na Lua, a foto foi tirada da órbita lunar.

BARROSO da FONTE

Entrei no rol de autor em prosa tosca, escrevendo sobre os usos e costumes de Barroso, em 1972, em parceria com o Padre Fontes, o tal clérigo que afrontou o bispo da sua diocese e que se imortalizou, para os Barrosões, com os  polémicos congressos de medicina popular de Vilar de Perdizes e com a noite das bruxas, de todas as sextas-feiras, treze, no concelho de Montalegre. Foram assim iniciados diversos dos muitos e bons autores de Trás-os-Montes e beirões que beberam a etnografia, a etnologia e o misticismo pagão, à mistura com o leite materno, quando era mamado, nos montes, pelas crianças que, ainda jovens, iam e vinham, ao colo das mães pastoras.
Tenho reparado que a maior parte da centena e meia de membros da Academia de Letras de Trás-os-Montes, (2010) se iniciou na escrita com esta modalidade literária que se bebeu com o leite materno, à mistura com os  anhinhos que nasciam no monte.
O linguarejar da pastorícia fez falta aos copinhos de leite enlatado que favorecia em altura, os esqueletos urbanos, ocos por dentro e macios por fora, como os eucaliptos que secam os terrenos à sua volta. O mérito dos certificados de garantia eram esses filhos da má alimentação que cresciam pouco, mas pesavam muito, nas balanças da faina agrícola, porque os caldos de couve tronchuda, com sabor a fumeiro, tinham mais vitaminas e equilíbrio calorífico do que o marisco que deixa cheiros incandescentes, quando arrotado, por excesso de consumo.
Esta caldeirada linguística da pesca etnográfica que os filhos do povo assimilam, por troca com a fome dos manjares urbanos, inspira os primeiros ensaios dos criativos, sejam escritores, pintores ou artesãos.


Nestas 132 páginas de «Lagoaça: loisas e outras coisas» José Veríssimo se formou e formatou no curso científico-Humanístico de Ciências Sociais e Humanas, condensa e define séculos de vivências humanas, tão úteis ao saber-viver e ao saber-fazer, como o cientista que abre o corpo humano para com o bisturi, extrair um módulo cancerígeno ou outro que entre por bem e saia por mal.
Esta saga de nascer entre montes e entre bichos, selvagens ou domésticos, destinados uns e outros a viver e a conviver em existências paralelas, obriga uns e outros, animais e pessoas, a entenderem-se como se todos fossem inteligentes e humanos. Chilreios, onomatopeias, grunhidos, noturnos ou diurnos, obrigam à cosmologia da sã convivência do universo que nos acolhe.
Dia 8 de Junho, em LAGOAÇA, na apresentação pública do volume
António Moreno
 (representante da Casa de Trás-os-Montes do Porto),Hirondino Isaías (presidente da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa), José Veríssimo (autor do volume), Maria do Céu Quintas (Presidente da CMF), Armando Palavras (Mandocas) e Manuel Fidalgo (Secretário da junta de freguesia).
Na nota do autor, ele próprio se explica acerca desta coletânea que resume, dissecando mais de uma centena de vocábulos regionalistas, ou expressões idiomáticas que caraterizam as populações do país periférico. Todas as vivências humanas desses sítios que não cheiram à hipocrisia da cidade, se enrolam e se propagam, de geração em geração, numa espécie de resistência à teimosia do poder político que ignora esse património que não paga impostos, mas constitui privilégio dos deserdados do orçamento geral do Estado.
 Tudo «porque os testemunhos dos que viveram antes de nós são um legado de frutos amadurecidos, sobejamente importantes para que se percam no tempo das nossas memórias». Esta recolha lexical de Lagoaça, Loisas e Outras Coisas «não é mais do que, ainda que modesta, prova de partes dispersas de todo um conjunto de factos, saberes e tradições milenares que identificam esta comunidade do nordeste transmontano».
No sábio prefácio que Armando Palavras teceu no tear da ruralidade Lagoense, invocando «a última missão americana da Apollo 8, em fins de 1968, à medida em que os astronautas se afastavam da Terra, tinham dificuldade em registar tudo através da câmara fotográfica. O Centro de Houston pediu-lhes que fizessem uma descrição detalhada, o que fizeram através da palavra falada que ficou registada para a História». Este relato servirá para enquadrar em muitas situações, pela força da sua riqueza semântica. Mas introduzo-a aqui pela oportunidade simbólica que este conjunto etnográfico representa para o Nordeste Transmontano que, a passos largos, caminha para a desertificação. Não sendo registadas, em obras como esta, a diversidade e importância deste glossário, tudo se perderá.
Restará o recurso à Língua Mirandesa que corre os mesmos riscos se não se acautelarem enquanto por cá residirem agentes culturais como José Veríssimo.

As Parvas

Os mornais nas eiras

JOSÉ VERISSÍMO
Das várias fazes que completam o ciclo do pão, atendendo ao ambiente comunitário e de festa que as caraterizava, as parvas são ex-libris. A azáfama era grande, carros de bestas entravam e saíam das eiras, quais formigas no carreiro, na acarreija[1] do trigo ou centeio das cernelhas[2] que povoavam as terras. O chiar dos carros impunha a sua melodia ronceira nos campos e ao fim de algumas manhãs no caminho do carril pareciam os grazes[3] em hora de ponta. Durante o mês de julho uma outra aldeia edificava-se nas eiras que ganhavam vida vestidas de mornais[4] separados por um labirinto de ruelas estreitinhas e onde nós corríamos jogando ao esconde-esconde. Próximos das eiras, os palheiros eram o prolongamento da aldeia. Dispostos das barrancas até ao cemitério e ao barrocal , destinavam-se, primordialmente, ao armazenamento da palha do trigo e do centeio para garantir cama e complemento no sustento dos animais durante o ano. 
O mês de Agosto era, por excelência, o mês dos palheiros e das eiras. O âmago da aldeia centrava-se aqui e o comunitarismo atingia o seu auge. A época das parvas. Era chegada a vez dos vorazes monstros mecânicos, as malhadeiras que se encarregavam de triturar poisadas[5] e poisadas de trigo e centeio separando o grão da palha, numa imensa parva[6]. Estas impuseram-se ao trilho na década de sessenta do século passado e que por vezes ainda era usado para bater palha de centeio e fazer os colmos que posteriormente, depois de humedecidos, seriam usados para fazer bençalhos para atar o trigo ou centeio da próxima segada[7] ou as vides depois da poda das vinhas, para encher os xargões das camas, arranjar albardas e fazer enxergas para as bestas ou para os fachoqueiros que eram utilizados na matança para chamuscar o porco.
Para dar vazão à voracidade da máquina, era necessária muita gente, daí o recurso à mútua ajuda. Desde os mais velhos aos mais novos, homens e mulheres. Calcando a palha com espalhadoiras de pau nos palheiros, ou estendendo toldes para aparar a palha atrás da malhadeira, abondando molhos, transportando à cabeça toldes de palha para os palheiros ou ficar aos sacos, todos tinham uma tarefa. O calor era muito e o suor, a moinha e as arganas irritavam os olhos, o corpo e o nariz; porém, as refeições que se comiam nas eiras ou a proximidade de uma namorada, sobrepunham-se a tudo isso. Eram manjares dignos dos Deuses. Fico com água na boca quando recordo as sopas da segada, feitas pela minha madrinha e que fazia questão que constassem na ementa do desinjum, ou o bacalhau frito com cebolada, o frango frito, o queijo, a pescada passada por ovos, o salpicão, a salada de tomate... E o vinho bebido daquelas botalhas ou “cantando o Gregório” e bebendo do esguicho da bota!
Terminada a debulha chegava o carro das bestas para o transporte do cereal para casa depois de devidamente pesado e ser retirada a maquia que iria pagar o desempenho da máquina. Durante a operação de carga do carro costumava haver desafios de medição de forças: ver qual era o que conseguia colocar o saco mais pesado nas costas sem ajuda, levantá-lo do chão com os dentes... Chegados a casa, parte do cereal (para consumo e o da próxima sementeira) ia diretamente para a tulha, o restante ficava nos sacos para posteriormente ser vendido ao celeiro. Os termos, murnal, parva e eira são os mesmos que se usam em Aldeadávila e Mieza, povoações espanholas próximas de Lagoaça, que registam algumas terminologias comuns, como também um bairro de baixo, um bairro de cima… Destas e outras coincidências podemos concluir que muito é o que nos une naquilo que nos separa.




[1]Transporte do trigo das terras para as eiras.
[2]Construções paralelepipédicas feitas com os molhos de cereal nas terras onde aguardavam a acarreja.
[3]Gorazes: Realiza-se a 16 de outubro de cada ano, em Mogadouro, é tida como a melhor feira da região e identificada por este nome.
[4]Construção cilíndrica que terminava em cone feita com molhos de cereal nas eiras.
[5]Unidade de medida que correspondia a quatro molhos de trigo, centeio ou cevada e a um alqueire de grão.
[6]Ato da debulha.
[7] ceifa.

Sinais acacianos



Mais uma legislatura dedicada ao patético evangelho da flexibilidade e da inclusão e a destruição fica concluída. Faltam três meses para as eleições.

26 de Junho de 2019, 3:42

Santana Castilho - Público

O ardiloso João Costa tem motivos para contentamento. No fim do ano escolar, o absurdo faz o pleno dos sinais acacianos que nos chegam. Mais uma legislatura dedicada ao patético evangelho da flexibilidade e da inclusão e a destruição fica concluída. Faltam três meses para as eleições.
1. Uma ministra e um ministro (Cultura e Educação), siameses pela irrelevância, apresentaram o Plano Nacional das Artes para os próximos cinco anos. O plano prevê a criação de “residências artísticas” (contratos que podem durar um ano, para pôr artistas a trabalhar nas escolas) e a criação do cargo (mais um) de coordenador cultural das mesmas. O comissário da coisa propõe-se “indisciplinar a escola”, “desarrumá-la”, “introduzir o lúdico e o jogo” e valorizar “a inutilidade que as artes podem trazer”. Chegou tarde nos propósitos. Está tudo feito. Não me espanta que o tenha dito com a bênção de irrelevantes. Preocupa-me que o resto não reaja a tamanha concentração de disparates.
2. O último relatório da rede Eurydice não contabilizou as horas que Portugal dedica às Ciências Naturais e aos Estudos Sociais, porque a flexibilidade curricular deixou a Comissão Europeia sem modo de fazer contas. Recorde-se que o documento em análise evidencia o tempo de aulas que cada um dos 38 países observados dedica a quatro domínios de ensino: Matemática, Ciências Naturais, Estudos Sociais e Leitura e Escrita. Esta originalidade junta-se a outras, que impedem a continuidade das séries estatísticas que vinham a ser construídas desde o início do século. É o caso das provas de aferição, leviana e propositadamente aplicadas em anos que não são de fim de ciclo e a disciplinas diferentes, para impedir a comparação com resultados anteriores. É evidente que não é caminho recomendável. Mas é a luz que emana do DL 55/2018.
3. O circunspecto Conselho Nacional de Educação deu-se conta da borrasca que se aproxima. Preocupado com a qualificação e a valorização dos professores, puxou pela cabeça e decidiu recomendar que deixe de ser exigido um exame de Matemática para ingresso nos cursos de formação de professores do 1.º ciclo. Com efeito, segundo a maioria dos sábios conselheiros, a obrigatoriedade do exame de Matemática tem “estrangulado ainda mais o ingresso de alunos em cursos de formação de professores”, que estão a ficar sem interessados. Assim, se estamos a resolver o problema do insucesso dos alunos exigindo menos e menos, até passarem todos, porque não fazer o mesmo com os futuros professores? Os alunos de Matemática não querem? Baixe-se a fasquia e aceitem-se os que sabem pedalar, que ensinar todos a andar de bicicleta até já é desígnio nacional.
Absurdo que se queira valorizar, desvalorizando? Tão absurdo quanto ouvir Centeno afirmar (e teve o topete de o dizer) que “pela primeira vez as carreiras dos professores estão a ser respeitadas”.
4. Sob o coro de muitas críticas, terminou o prazo para os alunos mais novos devolverem os manuais que lhes foram emprestados. Uns queixam-se por serem obrigados a apagar o que foi escrito nos manuais, outros protestam por terem sido coagidos a pagar os livros que foram rejeitados, por estarem em mau estado. Li numa nota da Lusa que houve quem faltasse ao trabalho para fazer a entrega dos manuais, gastando horas em filas de espera. Um criativo promoveu nas redes sociais uma solução patusca: espetar uma borracha na ponta de um berbequim eléctrico e pôr a geringonça a branquear a escrita.
Em Maio passado, o Tribunal de Contas começou a certificar o óbito da parvoíce: só 4% dos manuais distribuídos foram reutilizados. Mas pagámos todos nós este ano, em números redondos, 40 milhões de euros, dos quais dez para licenças digitais que os alunos não usam. No próximo ano, a extensão da brincadeira a todo o ensino obrigatório custará 145 milhões, dos quais (convenientemente) 100 não estão inscritos no OE (como notou em Maio o Tribunal de Contas).
Haverá alguém que explique a Alexandra Leitão que a cegueira ideológica não resolve problemas?
5. O SIGE (Sistema Integrado de Gestão de Escolas) permitiu, anos seguidos, que dados de mais de 128 mil cidadãos estivessem expostos sem qualquer tipo de reserva. A (ir) responsabilidade ficou sem consequências e o ministro chamou-lhe “fragilidade técnica”. O homem continua alegremente em marcha atrás.
Professor do ensino superior