domingo, 9 de outubro de 2016

Os portugueses só não ganham juízo

Alberto Gonçalves
– Diário de Noticias
A humanidade ganha um homem de "causas" e nós não perdemos nada

Em 2011, a Assembleia Geral da ONU dispensou um minuto de silêncio à morte de Kim Jong-il, o divertido maluquinho que mandava na Coreia do Norte. Vaclav Havel, que morreu no dia seguinte e era dos raríssimos estadistas contemporâneos que justificavam o epíteto, não obteve igual "honra". Eis um entre incontáveis exemplos que recordam, aos muito esquecidos, a circunstância de, por definição, a ONU congregar maioritariamente ditaduras e, logo, constituir um antro evitável por qualquer pessoa decente.
É por isso que a extraordinária histeria em redor da nomeação de António Guterres para secretário-geral me soou mais a uma saraivada de insultos involuntários do que à aclamação colectiva que pretendeu ser. O homem certo no lugar certo, nas palavras do dr. Costa? Não é preciso ofender. É verdade que o eng. Guterres deixou, pelo menos aqui, um embaraçoso rasto de inépcia. Mas nem o descontrolo decisivo da despesa pública nem o poder que concedeu a um grupinho de pequenos e médios malfeitores transformam o eng. Guterres no líder ideal de uma organização habituada a relativizar a opressão e o terrorismo. Embora o eng. Guterres não merecesse grande coisa, a ONU merecia bastante pior.
Dado tratar-se de Portugal, porém, estas insignificâncias não vêm a propósito. Enquanto só faltou passear o homem por Lisboa em carro, ou autocarro, aberto, o discurso oficial e o discurso oficioso decidiram fingir - ou, em casos terminais, acreditar - que a ONU é respeitável, que o eng. Guterres recebeu uma prodigiosa distinção, que os seus compatriotas devem rebentar de orgulho e que o país alcançou a glória imortal.
Para já, o objectivo é denunciar os traidores que não desejavam ardentemente a vitória do novo herói nacional. No mínimo, denuncie-se Durão Barroso, que pelos vistos apoiou a candidata búlgara e que possui um carácter baixo a ponto de em tempos ter abandonado o nosso querido país a troco de uma carreira de "prestígio" no "estrangeiro": o eng. Guterres nunca, nunca, nunca faria semelhante. Depois, resta--nos passear a soberba patriótica, inchados por integrar o restrito Olimpo onde cabem o Gana, a Birmânia e o Peru, lugares de origem de alguns dos antecessores do eng. Guterres. O eng. Guterres partilha com cada português a proeza de subir ao "topo do mundo". Esperemos que partilhe o salário.
Tudo isto não significa que o eng. Guterres não possa desempenhar um papel relevante na ONU. O prof. Freitas do Amaral, especialista em assuntos, lembra que o secretário-geral eleito é dado ao "diálogo", capaz de dialogar permanentemente "com todos os países e organizações envolvidos em cada problema", da resolução de conflitos ao combate à pobreza e à luta contra as doenças. Não duvido. Se não mudou desde 2002, o eng. Guterres dialoga tanto que, à conta do aborrecimento, arrisca erradicar dois terços das misérias da Terra. Cansados de o ouvir, inimigos ancestrais acordarão tréguas sem termo, vírus invencíveis farão as malas a caminho de destino indeterminado, e mesmo os pobres perceberão que o seu sofrimento até aí era comparativamente tolerável.
Em suma, a humanidade ganha um homem de "causas" e nós não perdemos nada: é também por causa do eng. Guterres que estamos assim. Como dizia a manchete do Público, todos ganhamos. Excepto juízo.

Segunda-feira, 3 de Outubro
O contragolpe popular

Por falta de tempo e de interesse, não acompanho a actualidade brasileira, como não acompanho a paraguaia, a luxemburguesa e a nepalesa. Mas, deste lado do oceano, a ortodoxia vigente teimou em informar-me que, nos últimos meses, o Brasil foi vítima de um golpe perpetrado pelas elites e destinado a trocar, no poder, uma presidente eleita e um partido amigo dos pobres por um sujeito odiado pelo povo e uma data de quadrilhas ao serviço da burguesia e do imperialismo.
Sobretudo por isso, aguardei com certa expectativa e sede de justiça as eleições municipais de domingo, que inevitavelmente traduziriam a revolta do povo perante tão iníquas proezas. Resultados? O partido do novo presidente (o sujeito odiado pelo povo) ganhou a coisa, com 1027 autarcas e 1,2% de crescimento face a 2012. Diversos partidos que colaboraram no golpe (as demais quadrilhas ao serviço da burguesia e do imperialismo) cresceram abundantemente e ocuparam os lugares seguintes. O partido amigo dos pobres (e da ex-presidente eleita) caiu de terceiro para décimo lugar, encolheu 60%, conseguiu uma única capital estadual (no Acre, atenção) e, para efeitos práticos, quase desapareceu.
É possível explicar isto? Será que houve fraude? Será que as elites locais afinal integram uns 90% da população? Será que, entretanto, dizimaram as classes baixas sem ninguém dar por ela? Será que os brasileiros são estúpidos? Será que a nossa ortodoxia não sabe o que diz ou sabe que o que diz é mentira? A última pergunta é apenas retórica. As anteriores pedem respostas urgentes, sob pena de ficarmos com o mundo ao contrário. Qualquer dia, a realidade é mais credível do que a ortodoxia.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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