quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Jornalistas vão ter de  mudar de perfil

BARROSO da FONTE
Leio esta profecia no semanário a Voz de Trás-os-Montes de 13 de Outubro. A novidade chega-me no mesmo instante em que se anuncia o nome do vencedor do prémio Nobel da Literatura: Bob Dylan. Tal como os músicos vão ceder o primado artístico aos poetas, também os comentadores políticos vão  destronar os jornalistas que terão de encarnar o papel de bibliotecários ou tarefeiros. Quem anunciou esta evolução semântica foi  Ricardo Jorge Pinto, diretor adjunto de informação da Lusa na palestra de abertura do Curso de Pós-graduação, em Jornalismo Regional UTAD/Lusa que decorreu dia 9 em aula aberta na Universidade Transmontana.
   Conservo deste académico e comentador televisivo uma boa imagem pela forma clara como se exprime, pelo equilíbrio do seu discurso e pela simplicidade do seu modo de estar. Pertence à geração que se seguiu à minha, nos domínios da comunicação. Foram posturas como a sua que deram seguimento aos contributos que as várias associações criadas no meu tempo e os vários poderes que se sucederam a formatar o status quo que hoje enfrentamos. Face aos exageros ideológicos, à ganância no acesso ao domínio empresarial e à proliferação dos compromissos éticos, a moralidade informativa foi absorvida pelo poder económico.
  O jornalismo não ficou incólume. E seus servidores foram as maiores vítimas da atual geringonça.
Ser jornalista foi vocação de muitos, mas ocupação séria para muito poucos. Basta olhar para a biodiversidade social, para perceber que muitos se formaram para apóstolos da verdade, mas muitos  tiveram de trocar o «quarto poder, pelo quarto do poder». Neste moderno aforismo se condensam todos os ingredientes dos maiores escândalos, nestes 40 anos de democracia.
 Na última semana, dia 7, o GI (Gabinete de Imprensa de Guimarães), primeira associação criada (em 3/3/1976) após a revolução de Abril, assinalou quatro décadas dessa associação que foi o fermento da maior parte das medidas moralizadoras do sector. O GI convidou o ex-líder do PS, José António Seguro, para uma palestra sobre « transparência e reforma eleitoral». No dia seguinte a Lusa surgiu nos órgãos da informação com um naco de prosa de inspiração ideológica, a quatro colunas, mas nem uma palavra a falar do aniversário ou do aniversariante. O cerne do evento não foi o antigo secretário-geral, mas os 40 anos de uma associação de utilidade pública. Mas nenhum leitor, de qualquer jornal ou revista,  soube da instituição que acolheu essa cerimónia, nem o motivo porque se deslocou a Guimarães. Tal-qual o exemplo que esclarece um qualquer candidato a jornalista: «se o cão morde o homem, não é notícia. Mas, se o homem, morder o cão, é notícia, de certeza».
 Que anda tudo invertido vê-se, ouve-se e comenta-se. Que os jornalistas foram substituídos por comentadores das mais variadas atividades, constata-se em cada dia que passa. Que todos os canais televisivos ou radiofónicos dizem o mesmo nas notícias, às mesmas horas e com os mesmos intérpretes é indesmentível. Só mudam as caras, os cenários e o tom de voz. Os jornalistas que têm   os direitos de autor nos artigos que escrevem, perdem esses direitos logo que entregues à redação dos jornais ou das rádios. Os profissionais da imprensa que apostaram em cursos superiores para exercerem aquilo que aprenderam e que o Estado e as Famílias investiram. Mas o próprio Estado permite e facilita todas essas manobras antidemocráticas em nome da liberdade de expressão e de empreendedorismo.
  O exemplo que acima relato e que se passou na presença do signatário, implicando a Lusa,   transporta-me aos tempos do PREC, em que valia tudo, desde a RTP à agência nacional  de Informação (desde a ANI à  ANOP). Na qualidade de diretor da Delegação do Norte da então Direção-Geral da Comunicação Social, fui vítima dessa maleita revolucionária. Quem não fosse da esquerda radical era enxovalhado. E eu, encontrando-me no meu gabinete de trabalho, na Rua de Santa Catarina, tive de «gramar»  na RTP a notícia de que o «Delegado da DGCS será hoje julgado à revelia por ação movida por A. Garibáldi». A mais pura ficção num país em busca da liberdade. Prezo-me de ter contribuído, de diversas formas, para o Portugal com que sonhei e que, infelizmente, ainda me envergonha num setor que me absorve desde há 63 anos de militância jornalística.
 Não culpo Ricardo Jorge Pinto, embora ele seja diretor adjunto da Lusa, herdeira da ANI e da ANOP. Mas desagradou-me a notícia que li, dia 9 do corrente. Na aula de abertura na UTAD «fez o retrato da evolução do setor, desde o iluminismo até aos nossos dias..O jornalismo da notícia, da total isenção, mas sobretudo da objetividade … está sendo abandonado. Objetividade é hoje um conceito perigoso, pois há sempre uma componente subjetiva na visão dos factos».
Partilho inteiramente desta visão do jornalismo que por aí se faz. E partilho também que «o perfil do jornalista vai ter de mudar. Terá de ter qualificações multimodais: saber escrever, paginar, fotografar, dominar tudo, mas ser também especialista em alguma coisa».
  Devolvo ao jornalismo e aos jornalistas integrais o que sempre fizeram e continuam a fazer. Ainda são eles que seguram a transparência que vamos tendo. Têm falhado todos os líderes e em todas as profissões. O que custa é constatar que esses líderes, cada vez mais mais, usurpam as áreas e as competências dos jornalistas, quando se sabe que não o fazem para melhorar a transparência, antes pelo contrário.
                                                                                     Barroso da Fonte

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