domingo, 4 de setembro de 2016

A presidenta inocenta


Alberto Gonçalves - Diário de Noticias

Digam o que disserem, o momento dramático da destituição da dona Dilma aconteceu quando um senador do PT falou na "presidenta inocenta". As palavras não me saíram da cabeça. Em primeiro lugar, porque nenhuma delas existe em português decenta, perdão, decente. Em segundo lugar, porque a bem da clareza deve colocar-se a hipótese de a senhora ter de facto sido vítima de uma conspiração manhosa. Convém que uma pessoa se pergunte: e se os defensores da dona Dilma têm razão? E depois convém que uma pessoa se responda: não, não têm. Como se atinge a conclusão? Por diversas vias.
Desde logo, a via legal. Não adianta festejar a portentosa democracia brasileira sempre que esta derruba um presidente de direita ou elege um presidente de esquerda para de seguida lamentar o "défice democrático" sempre que, no mesmo respeito formalista, o regime enxota uma amiga dos "trabalhadores". Se dois terços dos representantes do povo - e, a acreditar nas sondagens, dois terços do povo - acham a dona Dilma uma corrupta de dimensão internacional, é altamente provável que o seja. Caso contrário, improvável é o Brasil, hoje e ontem.
Se, ainda assim, restarem dúvidas, repare-se na atitude. Confrontado com o impeachment, Collor de Mello (recordista sul--americano em "ll") renunciou. A dona Dilma esperneou até ao fim, deixando um rastro de ódio, divisões, ameaças e, entre típicos atropelos à língua, um argumento desesperado e espantoso, o de que caiu por causa do "machismo" e da "misoginia". Nenhum inocente desce tanto. E alguns culpados também não.
Se, ainda assim, restarem dúvidas, note--se a qualidade dos manifestantes "pró" e "contra" a destituição. Para os telejornais daqui, uns - na verdade a larga maioria - não passam de elites reaccionárias, ressentidas e avessas à "justiça social". Os outros organizam "manifestações pacíficas", que curiosamente consistem em arrasar a propriedade pública e privada que estiver à mão. Aprendizes de guerrilha e delinquentes comuns não costumam andar no lado certo da história.
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Se, ainda assim, restarem dúvidas, atente-se na posição dos designados "artistas" e "intelectuais". O critério é simples: por motivos talvez ligados à criatividade, as classes citadas tomam inevitavelmente o partido dos direitos humanos, dos oprimidos e, em suma, do soba "progressista" que calhar. É escusado lembrar que, no episódio em apreço, quase todos os espécimes estão com Dilma. Entre eles, um abnegado evangélico do "castrismo" chamado Chico Buarque e, dos estrangeiros, vultos do gabarito de Oliver Stone e o rapper Boaventura Sousa Santos. Chega? Julgo que sobra. Se, ainda assim, restarem dúvidas, verifique-se o tipo de países que simpatizam com a dona Dilma. As democracias (inclusive, pasme-se, a peculiar democracia portuguesa) já anunciaram a continuação das relações diplomáticas com o Brasil do sr. Temer. Bolívia, Venezuela, Nicarágua e Equador vão pelo caminho oposto. Quem achar que estes são exemplos da dignidade e do bem-estar, faça favor.
Se, ainda assim, restarem dúvidas, aprecie-se o choque dos nossos PCP, BE e um pedacinho do PS, mais deprimidos com a perda da dona Dilma do que com a de um cãozinho fiel. Não é só o currículo dos bandos que classifica automaticamente as suas afinidades. Os que por cá se juntaram para derrubar um governo (por ser de "direita") garantem que derrubar um governo (por ser corrupto) é "golpe". Até uma criatura com apenas dois neurónios ouve pelo menos um deles resmungar que, fora do primoroso universo marxista e, sim, golpista, a "tese" não faz sentido.
Se, ainda assim, restarem dúvidas, não restam dúvidas: você é um devoto da "presidenta inocenta", paixão originada na cegueira ideológica ou na miopia literal. Escreva num cartaz "Fora Temer", o ex-"companheiro de todas as horas" da dona Dilma, e exiba-o na rua aos gritos. Cuidado com o trânsito e com a excitação. Não se esqueça que a esperança no comunismo é a última a morrer: as respectivas vítimas morrem antes.

Terça-feira, 30 de Agosto

Uma tragédia adiada

Esta semana, as autoridades impediram por um triz mais um tenebroso atentado em solo europeu. O que leva seres humanos a tamanho esforço para destruir os seus semelhantes? Que espécie de racionalidade determina comportamentos assim? O que está na origem do ódio? Podemos perguntar o que quisermos, as vezes que quisermos, mas nunca é fácil encontrar resposta. Se calhar, o mal não se explica. Apenas existe. E se a constatação desta terrível evidência talvez ajude a enfrentá-lo, não ajuda a percebê-lo, nem serve de preparação ou consolo. A verdade é que, quando menos se espera - embora a recorrência do horror nos convide a esperá-lo -, acontece um instante que altera tudo para sempre, um instante que, para os que lhe sobrevivem, passa a dividir a vida em "antes" e "depois". E depois nada volta a ser o que foi, e a ser visto como era. Um destes dias, o instante terrível e decisivo quase aconteceu em Portugal, ao sol de uma praia da Caparica. Felizmente, a Polícia Marítima interveio a tempo, deteve o criminoso e apreendeu 210 bolas-de-berlim que careciam de licença, guia de transporte e caixa isotérmica. Por agora, inúmeros inocentes escaparam. É possível que um dia não tenhamos igual sorte.

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